sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Vigésima Primeira Dose de Pílulas do Livro...

Esse verão recebemos algumas personalidades do mundo desportivo, do meio artístico e cinéfilo mundial.
Eusébio da Silva Ferreira o mais importante jogador Português de futebol de todos os tempos, melhor jogador e marcador do Campeonato do Mundo de mil novecentos e sessenta e seis, realizado na Inglaterra em que Portugal treinado por um Brasileiro Otto Glória, se classificou em terceiro lugar, duas vezes Campeão Europeu de clubes pelo Benfica de Lisboa e atual Embaixador Vitalício da Seleção Portuguesa.
Costa Gravas um dos mais importantes e atuais realizadores de cinema da sua geração.
O Espanhol e mais mediático realizador de cinema Pedro Almodóvar.
O vencedor do Oscar e ator Espanhol Javier Bardem.
Quem nos dava a honra e apresentava a nossa culinária a tão ilustres personalidades, chama-se “Caetano Veloso”.
Caetano sempre que vinha a Salvador, passava pelo Rio Vermelho, para degustar alguns pratos da nossa culinária e beber o suco de Jambo, acompanhado de alguns amigos e da sua mulher Paula Lavigne.
Sempre discreto, ficava na parte de baixo da casa, na área externa ou então junto á amendoeira.
Avesso a fleches queria tranqüilidade e sossego, os garçons estavam habituados com a freqüência da casa e sabiam sempre como proceder nas situações mais delicadas.

Certa noite Caetano apareceu para jantar. O Maitre chamou-me eu estava no escritório.

- Sr. Ricardo, Caetano está na casa e quer falar consigo, subi as escadas, Caetano estava junto á árvore sagrada da casa com umas seis pessoas, reparei que alguém que o acompanhava me chamava à atenção. Quem era, eu conhecia aquele individuo, era estrangeiro e estava vestido com calças jeans e camisa azul.

A noite estava soberba, o ar circulava pelas flores e plantas que decoravam o restaurante, o céu estava claro e especialmente estrelado, as luzes em volta da amendoeira davam um ar de penumbra iluminada, Caetano explicava em inglês o que era o restaurante e que tipo de culinária se fazia ali, o indivíduo abanava ligeiramente a cabeça como que concordando com o que estava ouvindo, esperei que a conversa acabasse, estendi a mão cumprimentei-o, Ricardo queríamos jantar aqui perto da amendoeira podes colocar umas mesas, o restaurante estava cheio, ouvi uns cochichos, clientes olhavam para nós, não havia mesas junto á Amendoeira para jantar, servia de área de espera, mas Caetano solicitou queria um pouco de privacidade com os seus convidados.
Chamei o Maitre meu xará e colocamos os lugares para todos se sentarem confortavelmente.
Após alguns minutos lembrei-me quem seria aquele individuo.

O ator Norte Americano “Matt Dilon”. Não queria acreditar que Matt Dilon estava em Salvador e logo ali no Paraíso Tropical.
Chamei os garçons e recomendei que só um, os servisse para evitar incômodos e que evitassem que alguém se aproximasse, para tirar fotos.
O jantar decorreu otimamente bem e prolongou-se por bastante tempo.
Estavam no restaurante dois jornalistas da Folha de São Paulo, que assim que Caetano chegou, chamaram-me para confirmar quem era o homem vestido de camisa azul.
No final da refeição pedi a Caetano, se podia tirar umas fotos com ele e Matt Dilon, disse que sim, mas só com uma condição, que eu não publicasse as fotos em nenhum órgão de comunicação social, já que Matt tinha pedido a maior descrição na sua passagem por Salvador.
Dia seguinte pela manhã comecei a receber várias chamadas telefônicas, tanto para o meu aparelho móvel, como para o restaurante, questionando se eu me importava de entregar as fotos para publicação em algumas revistas de âmbito nacional.
Confirmei que possuía as fotos, mas por motivos de compromisso e de palavra com Caetano Veloso, não poderia fazê-lo.
As fotos ficaram expostas junto ás outras no nosso painel de clientes ilustres que visitavam o nosso templo gastronômico.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Vigésima Dose de Pílulas do Livro...

Aconteciam quase todos os dias telefonemas, para acedermos a entrevistas e reportagens sobre a nossa culinária experimental.
A Televisão Bandeirantes em São Paulo contatou-nos no sentido de fazerem uma reportagem, mostrando como nos tínhamos conhecido. Queriam divulgar um pouco da nossa história de vida.
Em pleno verão seria ótimo para o negócio. Queriam ir a nossa casa, para conhecerem mais de nós.
A entrevista decorreu com a maior descontração, quem conduziu a entrevista e conversou conosco foi à artista e cantora Baiana Gilmelândia; super divertida e simpática.
O Discovery Chanel em espanhol veio a Salvador conhecer os restaurantes do Cabula e do Rio Vermelho e fazer algumas filmagens nos nossos espaços, aproveitando o ensejo para conversar e gravar.

Nesse verão de dois mil e cinco, tudo funcionava em prol do nosso negócio: Os órgãos de comunicação social a tudo o custo queriam saber quais as novidades que aconteciam no nosso espaço.
A assessoria de imprensa trabalhava a todo o gás, para a confirmação da excelência da gastronomia do mestre Beto e da sua imagem de Grande Chef da culinária experimental Baiana.

Fomos convidados para um almoço na casa que Filomena tinha arrendado durante a sua permanência como Cônsul de Portugal. Ficava no Morro da Paciência no Rio Vermelho, a vista era deslumbrante, pois tinha sido construída de frente para aquele mar imenso e infinito.
Diversas pessoas confraternizavam naquela tarde ensolarada de verão.

Rubens Gershman fazia parte desse grupo tão especial.
Fui apresentado ao grande artista visual Brasileiro. Viveu nos tempos da ditadura em Nova York e a sua casa tinha abrigado muitos dos exilados políticos de então.
No dia seguinte fomos para uma feijoada, das muitas que aconteciam um pouco por toda a cidade e á noite convidei-o para conhecer o Paraíso Tropical.
A sua sensibilidade e observância em relação ao que nos rodeava, chamou-me a atenção. Despediu-se de mim com um abraço caloroso.

Já não se encontra neste planeta, partiu para uma viagem mais longa...

Encontrar-nos-emos um dia.

Desde pequeno e muito novo o que mais me interessava eram as histórias que a senhora minha mãe e a senhora minha avó materna me contavam.
Fui crescendo e as conversas se tornaram mais amplas.

Para isso contribuiu um senhor que se chama Roldão e que é o meu progenitor.

Com ele aprendi a conhecer e a respeitar o saber. A ouvir e ser ouvido a falar e a escutar o que aqueles que sabiam mais, tinham para dizer...
Longas conversas com esse sábio senhor meu pai.
Homem de poucas palavras, poucas falas, mas de grande saber intelectual.
Ser de grande cultura e de imensa espiritualidade superior.
Digo sempre, que o senhor meu pai, já não retornará para evoluir após esta encarnação.

Aquela casa sempre teve um quê de mágica.

Sentado na varanda estava um senhor aparentando longa vida de conhecimento, ao seu lado esquerdo a sua lindíssima esposa.
Normalmente e sempre que podia, passava pelas mesas, perguntando se estava tudo bem, ou se precisavam algo.
Nessas minhas triangulações deparei com esse ser de olhar profundo e meigo com uma leve deficiência na postura dos ombros e cabeça.
Indaguei se estava tudo ótimo, respondeu que sim e sentindo o meu sotaque de Português de Portugal afirmou: você é Alfacinha! Mais ou menos, respondi.
Cresci em Lisboa e vivi lá desde mil novecentos e setenta e cinco até aos meus trinta e sete anos de idade, mas nasci em Angola na cidade do Lobito. Como soube que eu era Lisboeta? Pelo sotaque, respondeu aquele homem de olhar inteligente e perspicaz.

À hora era de almoço, num domingo inicio da tarde.

Quem era aquele senhor que pelo sotaque, sabia que eu tinha absorvido a forma rápida e aberta de falar dos Lisboetas.

Convidou-me para sentar na sua mesa.
Sebastião Nery era o seu nome.
Quem alguma vez teve a oportunidade de conversar com este homem simples, mas de um conhecimento doutrinário da vida, sabe a que me refiro.
Começamos a conversar e as palavras saiam dele naturalmente sem esforço algum de memória.
A sua linguagem é acessível e simples, conversa, como quem conta levemente os números de um a dez.

A percepção do seu discurso é leve e fácil...

Um dos maiores e mais respeitados intelectuais brasileiros, Jornalista, Político, Escritor, Baiano de nascimento, lutador antifascista, de formação católica e teológica, enfim uma verdadeira enciclopédia de conhecimento vivo. E eu estava ali sentado e ouvindo.

Para mim aqueles momentos de aprendizagem lembravam as dissertações do senhor meu pai.

Sebastião Nery sabia tudo sobre a história recente e menos recente de Portugal. Amigo de várias personalidades portuguesas de nomeada, Mário Soares que foi Presidente da Internacional Socialista, Primeiro Ministro e Presidente da República de Portugal, Álvaro Cunhal durante muitos anos Presidente do Bureau Político do PCP e um dos grandes lutadores antifascistas, José Saramago escritor de renome mundial e Prêmio Nobel da Literatura.
Conhecia todas as personalidades que fizeram a história nos últimos quarenta anos neste planeta e tinha também participado de algumas mudanças que aconteceram por esse mundo afora.

Para mim era uma honra...

Eu tentava emitir a minha opinião sobre alguns assuntos, com muito cuidado é claro, para não parecer presunçoso, até porque á minha frente estava um verdadeiro “Magíster”.
A prosa foi acontecendo naturalmente e as horas foram passando.
Por vezes concordava comigo e levava o meu raciocínio para outras paragens. Sebastião Nery tem histórias incríveis que fazem parte da vivencia de muitos indivíduos.

O pai de Bruno Nunes foi Deputado Federal e era homem de muita coragem e determinação.
No meio da ditadura Sebastião Nery estava a ser perseguido pela policia por toda a Bahia, na tentativa de o prenderem. Estava escondido e fugido há alguns dias.
Paulo Nunes soube que o amigo precisava de ajuda e arriscando a sua própria liberdade, prontificou-se a levá-lo no seu carro, durante horas, até Minas Gerais, onde possivelmente poderia escapar de ser preso.
Contava esta e outras histórias mostrando um agradecimento a quem o tinha ajudado a chegar até ali.

Os amigos nunca se devem esquecer, dizia... Devemos honrá-los.

Aquele domingo tinha passado já se fazia noite, como o tempo fluiu quando as palavras são soltas naturalmente sem preconceitos e não tínhamos a percepção.

Estivemos juntos mais algumas vezes, mas aquela tarde ficará guardada na magia do templo da Rua Feira de Santana.



quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Décima Nona Dose de Pílulas do Livro...

Este ano de dois mil e cinco a cerimônia de Yemanjá, dia dois de Fevereiro calhava numa Quarta-feira véspera de carnaval.
O sagrado e o profano juntos... Só mesmo nesta terra maravilhosa algo assim poderia acontecer. Aguardava-se que as duas festas se misturassem transformando Salvador na capital religiosa e da alegria...

Comemoraria a data do meu aniversário no dia cinco de Fevereiro Sábado de carnaval.

Meses antes Dona Licia tinha-me chamado ao seu gabinete, para uma reunião, relacionada com o carnaval: Gostariam de participar um dia no camarote de Daniela mostrando a vossa culinária? Prontamente disse sim.
A visibilidade é imensa, por noite passam pelo camarote na Barra cerca de mil pessoas. Teríamos de confeccionar comida para esse número de ilustres convidados vindos de todo o país e não só... Que desafio.
Combinei tudo com Beto escolhi os colaboradores para nos ajudarem na tarefa e eis chegados o dia.

Solicitei a Licia que o dia escolhido para o Paraíso Tropical mostrar a sua gastronomia inovadora fosse o Sábado dia cinco... Era o dia mais concorrido para os restaurantes convidados.

Para mim seria um momento único.

O Paraíso iria fazer um jantar no Camarote de Daniela Mercury, para todos os convidados e logo no dia cinco de Fevereiro data do meu aniversário... Para poucos, pensava eu.

A criadora do camarote uns dias antes da festa começar, fica incomunicável ou no seu escritório ou na sua residência, fazendo a lista de convidados para os cinco dias da folia.
Toda a gente tenta falar com ela, solicitando pedindo camisetas para participar do grande evento.

A organização é impecável a noite toda até altas horas da madrugada, o serviço não para e nada falta. Constante desfile de estrelas...
Licia tinha-nos oferecido camisetas para todos os dias e em especial uma quantidade apreciável para a data do meu aniversário.
Tinha convidado os meus amigos mais íntimos e familiares, alguns ofereci a camiseta a outros solicitava que quando lhes fosse oferecida sugerissem a data de Sábado.
Imaginem o que é estar no camarote em pleno Sábado de carnaval na companhia de muitos estimados amigos e ter a satisfação de escutar os maiores cantores de todo o Brasil em cima dos vários trios elétricos...

Eu pensava a todo o instante. Que show particular; e brincava com os meus convidados dizendo: Chiclete, Ivete, Daniela, Brown e Claudinha estão aqui para nos prestigiar, que privilégio;

Todos sorriam e compreendiam que aquele desabafo era tão só, a expressão simples da minha felicidade.

Com muito trabalho e a ajuda de todos, a nossa culinária foi sendo conhecida e reconhecida e os banquetes tinham dados os seus frutos.
Qual era o custo de tudo isso!
A transformação valeria à pena!...
Talvez só o grande poeta português e universal “Fernando pessoa”, explicasse...
A noite terminou em grande comemoração, alguns presentes cantavam o parabéns a você esperando que eu apagasse as velas do bolo, para poderem provar do mesmo.

Na Segunda Feira estávamos com alguns amigos trocando idéias e fazendo resenhas de tudo o que até então tinha acontecido, quando se aproxima o trio da cantora que dava o nome ao camarote.
Daniela vinha como sempre linda, é de um cuidado fora do comum com o visual e a coreografia.
Sempre a inovar. Bailarina de formação o movimento agregado á sua linda voz fazem sempre dos seus shows algo diferente.
Em cima do seu trio elétrico tudo pode acontecer para delírio dos que têm o prazer de escutá-la.
Mistura musica eletrônica, musica clássica ou uma simples orquestra com axé.

A Rainha do Suingue Baiano, ou simplesmente a “Eterna menina da Bahia.
O tempo estava chuvoso, tinha começado a chover no dia anterior, mas o calor mesmo assim se mantinha.
Daniela passa em frente ao seu camarote com o publico vibrando ao som das suas musicas ritmadas.
Fala para o camarote agradece a alguns presentes, como sempre faz e começa a cantar as águas de oxalá, o trio vai deslizando lentamente, afastando-se da sua tribuna de honra, em direção ao bairro de Ondina.
Começa a chover torrencialmente, mais parecia um dilúvio, alguém tinha aberto a torneira lá em cima, talvez São Pedro. A chuva se mistura com o vento, rajadas de vento contínuas, as coberturas e toldos dos camarotes perto de onde nos encontrávamos, rasgavam-se, pareciam feitos de papel.

O toldo do nosso camarote também se solta, chove perto de nós...

O nervosismo se apodera de alguns convidados, a situação está controlada, mas a chuva e o vento tinham estragado aquela Segunda Feira de carnaval.

Fui embora com Carla por volta da meia noite e meia, amanhã haveria a continuação... E houve, a chuva deu uma trégua, o camarote tinha ficado sem condições de funcionar no dia seguinte. Mas a Dona licia não baixou as mãos, antes pelo contrário, ligou para mim na Terça Feira pela manhã pedindo que avisasse as pessoas amigas, inclusive a Cônsul de Portugal Filomena Croft de Moura, que a festa continuaria no Ginásio da Associação Atlética. Lá estava ela organizando tudo e todos.

Daniela nos prestigiou com um pequeno show e ainda chamou alguns artistas, que dividiram o momento daquela Terça Feira de carnaval.