terça-feira, 20 de julho de 2010

Segunda Dose de Pílulas do Livro...

No dia seguinte, retornamos a Itaparica, para os últimos três dias em terras de Pedro Álvares Cabral...

Itaparica é uma ilha que fica em frente a salvador a mais ou menos cinqüenta minutos de ferry-boat, é algo tão tranqüilo, tão calmo, tão reconfortante, que se as pessoas soubessem, iriam para a ilha para curar dos seus esgotamentos e sairiam concerteza completamente refeitos e recuperados.
A freqüência da ilha é fundamentalmente de nativos, somente aos finais de semana vêm outras gentes, aqueles que habitam na cidade-Salvador.

Por vezes, encontra-se João Ubaldo, passeando de calções e chinelos, juntos ao caís de Itaparica, cumprimentado por todos aqueles que passam ao seu redor, senta-se junto ao muro observando o lento e silencioso bater das ondas.

O único stress em determinados dias, é o cantar dos pássaros e o bater das ondas...

Estávamos no caís observando a Ilha de Madre - de Deus que fica bem á nossa frente, quando Zé Gordão (habitante e nativo da ilha-homem de sete actividades-Professor, Técnico de Futebol, dono de Bar e principalmente homem com um objetivo social dentro da comunidade – fundou uma escolinha de futebol juvenil, sem ajuda de ninguém só de Deus – segundo ele dizia. Meninos – como ele nos chamava – Gostaria de fazer um jantar para vocês, o que acham. Hoje á noite está bom... Claro, respondemos quase que em uníssono, Zé tinha um barzinho que funcionava só para os amigos, em dias especiais, quem cozinhava era a Senhora dele e ás vezes a mãe.
Meninos, a minha mãe quer fazer algo para vocês, ela é que insistiu, podemos levar um vinhozinho Português, perguntei – claro Ricardo para vocês, tu sabes que eu não bebo – Zé era evangélico e o álcool era proibido na sua formação religiosa.

Tínhamos passado bons momentos no bar do Zé, tomávamos umas atrás de outras, comíamos uns petiscos feitos pela Senhora dele e ouvíamos umas mornas de Cabo-Verde ao final de tardinha no meio da rua, pois a casa dele ficava em frente ao caís e á praia, Zé punha as caixas de som no passeio e fazíamos grandes farras ao som da música Cabo-Verdiana dos Tubarões, (era um grupo de excelentes instrumentistas, da música de Cabo-Verde)
Cabo verde e um país africano, constituído por dez ilhas e que está localizado no oceano atlântico e que foi colônia de Portugal desde o século XV até á sua independência em mil novecentos e setenta e cinco. O povo cabo-verdiano é conhecido pela sua musicalidade.
Morna é um estilo de música mais calmo – mais introspectivo – idêntico ao que canta hoje Cesária Évora – inclusive á quem diga que o Fado tem as suas raízes na morna, porque os marinheiros Portugueses, nas longas viagens de ida e de volta, ouviam os escravos a sussurrar determinado som triste, melancólico. Outro estilo era a coladera, mais animada que ás vezes Zé perguntava e afirmava – Será que não é lambada – ele próprio dizia – Claro que é ao que eu respondia – é parecido Zé, tudo vem de lá, de áfrica...
Nunca tínhamos comido aquele repasto que a mãe de Zé tinha feito com tanto esmero.
Era Caruru...
Feito de quiabos, camarão seco, castanha de caju, amendoim, gengibre e azeite de dendê, acompanhado de vatapá e feijão fradinho... E regado com um vinho branco que trouxemos de Lisboa... Hummm...
Mãe de Zé discretamente, como mandam as regras, olhava para nós, sem nada dizer esperando é claro o nosso pronunciamento, Calicas sem mais delongas levanta-se e diz com o copo de vinho levantado na mão direita – “Que sejam estas as últimas balas que possam trespassar os nossos depauperados corações” (era uma saudação nossa que utilizávamos em todas as circunstâncias quando brindávamos a algo) que assim seja, disse Zé sem compreender muito bem o que Calicas queria dizer com aquela frase...
Obrigado por tudo amigo Zé, você nos proporcionou momentos muito agradáveis e ao dizer isso dei-lhe um abraço com muita emoção e sinceridade, ao que Fêfê logo em seguida (agradecendo os bons momentos) – pela primeira vez comi aqui na Bahia e penso que é opinião de todos, algo muito saboroso, por que foi feito só para nós com amizade e amor... Os olhos de Zé encheram-se de lágrimas de emoção e a sua mãe disse muito timidamente – é exagero, é exagero meu menino.

De regresso a Lisboa, para nosso desespero as férias tinham acabado, mas para nós tinha ficado o que de melhor poderíamos subtrair.
Talvez dos três, eu tenha ficado mais marcado com aquilo tudo. Éramos três africanos (Féfé Moçambicano, eu e o Calicas Angolanos e da mesma terra – Lobito) indo buscar um pouco das nossas raízes culturais a um Brasil – Baiano cheio de sons, de cores e de cheiros.

Portugal estava a começar a mudar aos poucos, as verbas comunitárias algumas a fundo perdido, tinham alterado a fisionomia do país.
Estruturalmente e organizacionalmente notavam-se mudanças.
Toda a zona portuária de Lisboa junto ao Rio Tejo que banha a capital estava a ser reestruturada, preparava-se a Expo noventa e oito, a exposição universal realizar-se-ia em Lisboa pela primeira vez na história deste país secular. Comemorar-se-ia os quinhentos anos dos descobrimentos Portugueses além mar e a revitalização do pais era inadiável.
Nunca na recente história da Republica Portuguesa, o país tinha recebido tantos fundos financeiros e econômicos e a esperança renascia com a idéia de modernidade. As obras sucediam-se umas atrás das outras, algumas empresas portuguesas, começavam a preparar a sua internacionalização e tentavam aumentar a sua capitalização bolsista. Os bancos de capital privado Português, criados por empresários Portugueses, sistematizavam as suas operações bancárias de crédito.
Os governos abriam oportunidades de investimento, para fomentarem o crescimento econômico do país, resultando um aumento do crédito ao consumo, o crédito á habitação e á aquisição de viaturas generalizava-se por todo o país.

Que felicidade para todos nós... Passageira ou duradoira!
A que preço? Perguntava a mim mesmo.

Uns anos mais tarde soube a resposta.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Primeiras Pílulas do Livro...

Final de tarde, agosto, o cheiro de terra úmida exalava do chão.

Umidade misturada com a terra vermelha, os sentidos afloravam de uma forma inexplicável...

Sensação de “deja vu” (já estive aqui)? Quando? Será que a excitação provocada pelo momento, é suficiente para alterar todos os meus sentidos!

Calicas e Féfé chegaram um belo dia, lá para os meados de Maio, (sim Maio de mil novecentos e noventa e quatro) estava eu a beber um café com uma amarguinha, (licor de amêndoa amarga) na nossa gelataria, onde o pessoal se encontrava quase que sistematicamente.

A Gelataria era uma espécie de café, ponto de encontro de todos nós, Passagem obrigatória para colocar a prosa em dia...
Ricardo vamos para o Brasil...
(Aqui começou toda a minha história e o que me levou a escrever este livro). 

A desconfiança surgiu do nada, até então nada suporia que algo como o que estava a acontecer pudesse surgir sem nenhuma justificação. O porquê do convite! Recordo-me perfeitamente – Cara de admiração...! Eram meus amigos, curtíamos para valer, tivemos momentos ótimos, mas passar férias no Brasil os três sozinhos! Sem as namoradas! Que estranho...!

Na altura eu namorava com Rita, que veio a ser mãe dos meus dois únicos filhos. (gêmeos)

O nome Brasil, por si só cheirava a tropical uma mistura de áfrica (Angola) com Portugal e com os povos indígenas. Veio-me á mente a grande questão da colonização e talvez o que de mais importante os Portugueses fizeram nas ex-colônias, a mistura de raças, miscigenação. Nenhum outro povo conseguiu criar esta irmandade hoje em dia tão respeitada, como os Portugueses.

Nascido em Angola, falar do Brasil era falar de África... Do som, do cheiro, da tonalidade e das tonalidades das gentes, das prosas, do mar... Imenso mar, águas quentes, pôr do sol, noites longas, luar, acordar...

Enfim, era verdade íamos para o Brasil... E logo para a Bahia – Salvador... Quem diria...

Bahia, mais tarde vim a descobrir que realmente é a terra da magia e da alegria.

O sentimento de já ter estado em determinado lugar, ocorre de uma forma intrínseca e imediata. O momento é vivido em duplicado e naquele final de tarde eu sentia que já tinha passado por ali.

Desembarcamos e fomos para um local...
Vim, a saber, um dia, que era Itaparica, terra de João Ubaldo Ribeiro.
A minha relação com Itaparica veio a tornar-se muito intensa... É uma ilha que fica na Bahia de todos os Santos e onde nada acontece por acaso, mas onde tudo existe, através da energia duradoura.

O tempo parou em Itaparica, mas parou de uma forma solene e benéfica... Que beleza, poder desfrutar do tempo... E utilizá-lo sem pensar em gastá-lo...
O nosso desejo era que as nossas férias se prolongassem por dias a fio, sem a necessidade nem a preocupação do retorno.

Viajamos imenso, conhecemos alguma parte do litoral da Bahia – Morro de São Paulo – Itacaré e em Ilhéus assistimos ao sete de setembro, coincidência ou não, dia da Independência do Brasil.

Havia em nós já nessa altura, a noção de uma aculturação.
Refiro-me á quantidade de novos sinais identificativos que aprendemos a utilizar através da televisão.

As novelas Brasileiras vieram sem margem para dúvida, agregar ao quotidiano dos Portugueses novos sinais de identificação cultural.

Claro que estávamos receptivos a descobrir, novos ritmos, novos sons e novas formas de vivência, que aprendemos a respeitar a partir do momento que Jorge Amado – com a sua linguagem realista entrou nas nossas casas através da novela “Gabriela Cravo e Canela” a primeira novela Brasileira a passar em Portugal.

Ilhéus – Terra do Cacau – Recorda-me perfeitamente como se fosse hoje – tínhamos alugado em Valença (perto do Morro de São Paulo) um Fiat Uno e ao chegarmos – pairava no ar, um cheiro tão agradável de cacau – naquele momento preciso, eu identifiquei, o que Jorge Amado sempre nos quis dizer através da sua escrita. Eu estava ali sentindo através do cheiro – o que a Bahia tinha para mostrar.
Ás vezes basta uma descrição, para quando vivenciamos o momento sabermos que é verdadeiro.

Que extraordinário termos a possibilidade de viajar, mais que não seja através da imaginação.

A magia da Bahia a que eu me refiro, começou a partir deste momento a aparecer ao meu olfato como primeiro sinal do que estava para vir. E o que viria era talvez algo impensável nesta altura.

Retornamos a Salvador.

A cidade toda ela é cheia de Luz de vida e fundamentalmente de cores. Todo o santo dia é dia de festa e que festas.
O baiano é super comunicativo, expansivo, gosta de sentir de tocar de abraçar – igual ao africano – Descobri imensa identificação com Angola, o cheiro de Dendê (em Angola é óleo de Palma – da Palmeira) o pirão, os ritmos constantes nas ruas, a beleza inconfundível da negritude – a cor de ébano a mistura de gentes, mas o que mais me impressionou foi à simplicidade das gentes do povo.

Não existe tristeza, nas faces das pessoas – apesar de algum descaso social por parte de quem de direito, os Baianos são imensamente bonitos, porque são simplesmente alegres.

Fomos a um lugar chamado Pelourinho – que fica no centro Histórico da cidade de Salvador, na parte alta da cidade. O pelourinho é um lugar mágico, onde se encontram todas as confluências culturais e sociais da cidade. Lá habitam músicos, artistas plásticos, artistas de rua, passeando naquelas ladeiras de calçada Portuguesa, encontramos a cada esquina – alguém fazendo tranças no cabelo de algum curioso querendo mudar de visual, alguém pintando, é lá onde fica a Fundação Jorge Amado – e algumas das mais belas igrejas de Salvador.

Um amigo comum conduzia-nos pelas ruelas do Pelo – e a cada olhar fomos descobrindo um pouco de Lisboa – Sem dúvida a identificação é inegável, os parapeitos das janelas, as portas das casas, a cor das mesmas, transportava-nos para a bela e bucólica Alfama. Com um simples olhar estávamos algures na cidade do Tejo...

O nosso cicerone e amigo que vivia em Itaparica, tinha-nos falado que ás terca-feiras, havia um ensaio de um grupo que fazia as pessoas ir ao delírio com as suas batucadas ritmadas, segundo ele era uma mistura de Afro-Reagee e que nós íamos adorar. O ensaio começaria por volta das oito horas da noite.

Aproximamo-nos, era uma casa antiga, a fachada um pouco abandonada, mas para nós era uma excitação imensa, compramos o ingresso, subimos umas escadas e fomos ter a um pátio – uma área aberta, ao ar livre, com imensa gente conversando descontraidamente e aguardando pelo inicio do show.

Querem beber o quê? Cerveja claro - respondeu o nosso cicerone, não devem beber nada destilado, pode ser falsificado, nesse instante já o grande Calicas trazia algumas cervejas de lata com ele – toma Ricardo, obrigado amigão, as próximas são minhas ok! Tu é que mandas, respondeu Féfé com o seu ar de brincalhão feliz e assim continuamos por alguns momentos, aguardando pelo inicio do show. Foram chegando cada vez mais pessoas, estávamos todos de pé, não havia cadeiras nem ordem de posicionamento...

De repente, começo a ouvir uma batucada intensa e ritmada, nunca tinha presenciado nada igual... Era talvez uns quinze homens negros, cada um, com um tambor pendurado através de uma fita ao seu pescoço. Os tambores eram pintados com um grafismo verde e amarelo, lembrando um pouco o desenho das panos que as mulheres negras usam no congo e angola- ou seriam as cores da Jamaica! Não sei, comecei a ficar confuso e lá no fundo (já era noite cerrada o céu carregava algumas estrelas, tinha chovido e a noite estava fresca) surgiu uma voz OH OH OH OH ROSAA, OH OH OH OH ROSAA, ALEGRIA CIDADE CANTAA SALVADOR, OH OH OH OH ROSAA, OH OH OH OH ROSAA, ALEGRIA CIDADE CANTAA SALVADOR, era o Olodum, que loucura, o pessoal começou a dançar a movimentar-se acompanhando o som e o ritmo cada vez mais constante da batucada e que batucada. É um ritmo frenético, os tambores parecem que falam toda a mesma língua, sincronizados acompanhando a voz só com um microfone, a batucada não para, ela é contínua somente com algumas nuances de ritmo, agora é mais intensa e a galera quase que entra em êxtase ou será transe, eu olhava para frente e via os meus amigos dançando continuamente sem parar, transpirando toda aquela energia que existia ali naquele momento, como se o som estivesse em comunhão com as nossas almas.

Que experiência, que energia, jamais esquecerei...