sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Décima Quarta Dose de Pílulas do Livro...

Artistas, Políticos, Cantores, Formadores de opinião – A nata estava toda presente. Que orgulho para todos nós, tínhamos conseguido o nosso objetivo. O mestre sorria, Carla mais parecia uma criança de tanta felicidade, os irmãos e irmãs de Beto irradiavam orgulho do seu irmão artista e artesão gastronômico.

Fleches e fleches sorrisos e sorrisos, só alegria...

Aquela noite mágica tinha sido organizada por uma senhora Sergipana de nascença, mas Baiana de alma e coração.

Eu também já me sentia soteropolitano.

Os garçons mal conseguiam movimentar-se no meio de tanta gente convidada, circulava no ar um bouquet intenso de perfume de mulher, as senhoras elegantemente vestidas, eu, Carla, Beto e sua companheira, ficamos juntos no meio da escadaria, que dava para a parte de baixo do restaurante, perto do pergolado.

A casa estava soberbamente decorada, o esmero e a qualidade do trabalho eram evidentes.
Só palavras de apreço e elogios a todo o segundo. Muitos parabéns, sucesso – diziam os convidados que chegavam a todo o momento, junto de nós – abraços, apertos de mão. Quanta felicidade.

Parecia uma casa de campo, no meio da cidade, num bairro ligado ás artes, ás letras e á cultura.

As mesas eram de madeira todas feitas por encomenda, com pé de alumínio na parte interna (salão) e na varanda, as cadeiras também de madeira com estofo num tecido branco e vermelho ás riscas. 
A parte externa era composta por um pergolado de pinho, onde havia umas mesas com tampo de mármore e pé de alumínio acompanhadas de cadeiras brancas igualmente de alumínio.
O paisagista esmerou-se tentando recriar o ambiente de uma chácara, colocou vasos enormes cor de tijolo, com pés de capim-santo, hortelã grossa, abil, limão, pitanga, dracena, boldo, arruda, tapete de oxalá e buganvílias. A volta do gradeamento que circundava a casa plantou várias espécies de flores e plantas, que criavam um ambiente campestre. Na área do pergolado, existiam várias luzes, que saiam do chão, iluminando a noite e tornando-a mais bela.

Mas o lugar mais apaixonante da casa, sem dúvida era a “AMENDOEIRA” existente, junto á grade.

Toda a área próxima da árvore foi decorada com quatro conjuntos de madeira, constituídos por mesa redonda pequena e quatro cadeiras cada, espalhados uniformemente. O chão estava todo decorado com pedras pequenas. Havia igualmente quatro espreguiçadeiras e dois bancos de jardim, com molas.
Este espaço que rodeava a amendoeira tornou-se o local mais concorrido do Restaurante.
E não era para menos. A artista plástica Luiza Olivetto, criou uma obra de arte que envolvia a árvore, como se de um abraço se tratasse. Fez uma Cobra de garfos e facas, soldados entre si, que se enrolava pela amendoeira até ao topo. Iluminada a amendoeira com focos de luzes, resultava numa beleza estética fora do comum, que despertava a curiosidade das crianças, adultos e de todos os transeuntes

Era mágico sentar-se ao final da tarde perto daquela árvore, tomando um vinho tinto e fumando um charuto, jogando conversa fora.

A festa continuava com muita animação.

Beto tinha escolhido um cardápio super especial, pois o momento assim o exigia;

Caldo de Sururu, de Camarão e de Polvo.
Casquinha de Siri.
Carne do Sol com Farofa de Aipim e Manteiga de Garrafa.
Arroz de polvo.
Moqueca de Camarão, Lagosta e Polvo (o famoso Calapolvo).
E famosa Torta de Maturí com Creme de Palmito de Coqueiro.

Este maravilhoso menu era regado e bem regado com Água, Refrigerante, Roskas de vários sabores, Vinho Branco, Vinho Tinto, Whisky e Espumante. Os nossos patrocinadores e fornecedores de bebidas, não impuseram nenhuma restrição ao consumo daquela noite.
Nós é que tivemos de limitar... Senão seria um pouco complicado... Uma boa farra de quando em quando é ótimo.
Durante a festa o mestre vestiu-se a rigor, com uma bata, com o seu nome que tinha sido criada por Lara, para esse dia tão especial e acompanhado pelos garçons, desceu pela escadas, com uma travessa grande de Torta de Maturí nas mãos e ofereceu-a no meio dos fleches e câmaras á madrinha de todo este projeto, como forma de agradecimento, realçando em voz alta, o papel primordial que ela teve.
Por momentos ouviu-se uma salva de palmas. Beto estava emocionado.
Todos nós estávamos os que tinham participado deste projeto desde o início e os que por simples amizade, desejavam que o mesmo tivesse o merecido sucesso. Muito obrigado a todos, disse.

Uma nova fase uma nova vida, novos desafios outras propostas.
Agora sim, o capitão e nosso mestre tinha um novo desafio, já não era um simples barco, mas um navio que tinha de dirigir juntamente com a sua tripulação e o meu papel seria de coadjuvante, tentando cumprir as regras já existentes e evitando que possíveis tempestades, o derrubassem.
O restaurante era um sucesso garantido.
Todos os dias da semana aos almoços e jantares, o movimento era intenso.
Novidade num local super aprazível e com muito boa localização e o Baiano, adora o que é novo. Principalmente durante o mês de Maio e aos finais de semana, tínhamos filas de espera incríveis.
Todos queriam conhecer a culinária de Beto, beber os sucos que eram autênticas obras de arte e provar algumas das suas iguarias naturais.
Evidente que os Soteropolitanos, não comem Moqueca todos os dias, até porque existe uma pequena aversão ao dendê, derivado das calorias e da eventual saturação provocada, comecei a aperceber-me disso lentamente.
A freqüência no primeiro mês após a abertura era especialmente de clientes baianos, alguns turistas poucos, ainda não tínhamos começado a divulgação junto dos hotéis espalhados pela cidade.
O nosso espaço agradável teria de ser o chamariz, juntamente com a gastronomia, para isso comecei com Carla e a Via press, a fazer um trabalho muito incisivo sobre a culinária do Paraíso Tropical, mostrando que a mesma seria inovadora e diferente, devido aos produtos light que o mestre criara e colocava na sua gastronomia.
Não seria fácil... Existe até hoje certo preconceito em relação ao óleo de dendê... Tentaríamos desmistificar um pouco essa questão.
Os clientes adoravam as frutas que oferecíamos nos finais das refeições, era um charme que Beto tinha criado. No Cabula os clientes levavam após as refeições, no Rio Vermelho também, só que comecei a verificar alguns custos extras exagerados.
Comprávamos quase diariamente uma verba avultada para serem oferecidas, já que agora com dois restaurantes e com a diversidade existente nas travessas doadas, não havia frutas que chegasse.
Por vezes, havia alguns comentários, não sei se verdadeiros ou se era intriga, que os clientes reclamavam; No Cabula levamos sacos de plástico cheios de frutas e no Rio Vermelho não – Tentava equilibrar essa situação, até porque as nossas despesas eram muito elevadas, não só com o pessoal, mas também com todo um processo de estoque de mercadoria e produtos.
Utilizávamos a parte de baixo da casa, garagem onde guardávamos uma parte da mercadoria.
A quantidade de polpas de frutas existente em estoque e guardada em freezers é enorme, até para que o cliente tivesse uma opção.
Não poderíamos falhar com nada, senão viria logo de seguida a comparação com o Cabula.
E infelizmente algumas pessoas, adoravam esse tipo de comparação para provocarem desunião.
Várias vezes tanto clientes, como pessoas que se tornaram amigas, conversavam conosco, alertando para algumas situações que originavam comentários... Ricardo, vocês juntos funcionam como equipe, portanto não dêem ouvido aquilo que poucos dizem.
Escutava com atenção e mantinha-me em silencio.

No meio do ano Licia comemorou o seu aniversário no Paraíso Tropical no Rio Vermelho, oferecemos uma festa linda para ela. Mais uma vez, o mestre se recriou e fez os convidados da aniversariante, saborearem as suas autênticas iguarias. Convidados e amigos de todo o Brasil, selecionadissimos.
Várias revistas de tiragem nacional estavam presentes, para além de toda a mídia e sites.
A Revista Caras, Flash de Amaury Jr. e outras, fizeram reportagens fotográficas do evento.
O aniversário de Licia era um acontecimento na Bahia e não só e tínhamos o privilégio de organizá-lo.

Na nossa equipe de garçons, treinados por nós havia um moço negro muito peculiar e inteligente, que se tornou uma das atrações do Rio Vermelho, seu nome Edinaldo, era gago, gaguejava mais, quando estava nervoso, o seu trabalho era feito com dedicação e requinte, todos o adoravam pela sua educação e atenção. Tinha um dom e uma paixão; a música.
Tocava trombone. Certo dia vi-o entrar com uma espécie de caixa preta, indaguei – o que é isso? Um Trombone Sr. Ricardo.
Você toca Trombone! Estou tendo umas aulas para aprender.

Achei aquilo fantástico e resolvi apoiá-lo...

Ofereci uma verba ao nosso Garçom músico, para que pudesse adquirir o instrumento que era alugado de um amigo e assim desenvolver mais, a sua veia musical.
Teria uma condição exigida por mim, aprender uma ou duas músicas, para tocar para os clientes sempre que fosse necessário e saber de cor e salteado uma: Emoções de Roberto Carlos, para presentear á nossa amiga e aniversariante, naquele dia tão especial.
Do alto das escadas que davam para a área externa e pergolado, o nosso Garçom com dotes musicais, um pouco introvertido é claro, perante tão ilustre platéia, começou os acordes da música preferida.
O sucesso foi tanto que os clientes iam para o restaurante comemorar aniversários e festas e pediam para o Garçom Músico estar presente...
Quantos Parabéns a Você, o nosso Edinaldo tocou!... Muitas vezes. Ah! E ganhou ainda o Garçom do ano.
Parabéns para ti também Edinaldo...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Décima Terceira Dose de Pílulas do Livro...

Propus-me dignificar, acrescentar, ao que de bom já existia há longos anos, a intenção sempre foi melhorar. Talvez por isso abraçasse tudo, com tanta paixão.

Durante a reforma num dia pela tarde, estavam os operários a trabalhar na varanda, (área externa) onde existia uma parede toda pintados de branco, e ficava o candeeiro de “Mário Cravo Jr.” qual não é o meu espanto, quando observo que por baixo da tinta, existia uma parede de azulejos Portugueses de tonalidade azul e branca da década de cinqüenta. Aquela descoberta tornou-se um dos ex-líbris do restaurante.

A história da casa mistura-se com a do Rio Vermelho, bairro boêmio, onde viveram durante anos, “Jorge Amado” e a sua eterna companheira “Zélia Gattai”.
A estrutura da casa foi levantada por um dos maiores artistas plásticos da sua geração “Carybé”, amigo intimo de “Jorge Amado” que queria construir a sua residência e atelier naquele espaço.
Por motivos desconhecidos “Carybé” não acabou a construção da casa e vendeu-a para a família Ferraz, que edificou o espaço e viveu lá por mais de quarenta anos, até Paulo Mota a adquirir.

Algumas semanas poucas para a inauguração.
Previsão inicio da segunda quinzena do mês de Abril.
Muita coisa para fazer e tudo ao mesmo tempo.
As psicólogas tinham selecionado mais ou menos noventa hipotéticos colaboradores para serem entrevistados. Formatamos de acordo com diretrizes do mestre, uma estrutura que fosse viável, tendo em consideração os condicionalismos e as características da gastronomia experimental de Beto.
Passamos algumas horas entrevistando os selecionados e escolhemos cerca de trinta colaboradores, para fazerem parte do novo Paraíso Tropical.
Uma agitação.
A filial do Rio Vermelho funcionaria nos mesmos moldes da matriz, ininterruptamente em dois turnos. Tanto os garçons, que inicialmente eram dezasseis, como o pessoal da cozinha em número de dez, estiveram uns dias no Cabula em formação a fim de beberem toda a informação necessária e adequada.

Lara Nepomuceno – criadora de moda – desenhou as roupas de todos os colaboradores.

Os garçons e os maitres vestiam uma calça castanha clara com bolsos laterais, calcavam umas sandálias também castanhas, fechadas á frente e as camisetas eram de manga curta em várias cores, de acordo com o dia da semana. Por cima colocavam um avental azul claro lindíssimo, amarrado á cintura e ao pescoço, com a logomarca do restaurante estampada na parte da frente, o Galo rodeado com as cores do sol, céu, terra e mar (que os clientes adoravam). Os cardápios eram vermelho tinto e amarelo torrado de papel reciclado grosso.
Informatizamos todo o restaurante e codificamos todos os produtos, tentei que o mesmo fosse feito no Cabula, mas o mestre apesar de mostrar interesse, nunca efetivou a sua vontade.
A casa era rodeada de um passeio, que já tinha sido calcada Portuguesa e que estava completamente estragada, sem as pedras nem os desenhos simbólicos.
Infelizmente tinha de gastar mais alguma verba e não era pouco, na reconstrução de todo o passeio. A praça em frente á casa estava um verdadeiro caos, não podia inaugurar o Restaurante sem contratar o serviço de alguém, para pelo menos, cortar aquele capim e mato, que cobria toda a área.
Não era minha obrigação, mas já que ninguém o fazia eu teria de fazê-lo.

Estava quase tudo a postos, parte final.
Segurança vinte e quatro horas e manobrista no horário de maior movimento.
Contratação de mídia – televisão, jornais revistas, folders e outdoors de rua.
Imprensa escrita, dizia respeito á Via Press.
Comprei por sugestão e aconselhamento, dois espaços em programas de televisão que cobriam eventos e que obtinham boa audiência, junto ao público que pretendíamos alcançar, Michele Marie e Tom Mercury.
Selecionamos um fotógrafo, sugestão da nossa agência de publicidade e fomos até ao Cabula com uma equipe, filmar e fotografar, todo o tipo de imagens relacionadas com frutas e pratos, para que pudéssemos escolher como ficariam os folders e os seis outdoors que iriam para a rua.
O resultado foram materiais de alta qualidade gráfica e de imagem.
Haveria duas inaugurações: dia dezanove de Abril, para a imprensa e dia Vinte e um de Abril para convidados.

A idéia dos publicitários era criar um impacto com os outdoors espalhados pela cidade de Salvador.

Far-se-ia do seguinte modo: Na primeira semana ficariam os outdoors na rua com uma pergunta; Já conhecem o Cambucá? Já ouviram falar do bacupari? Já provaram o Ingá? (todas, frutas exóticas).

Nas duas semanas que antecediam a inauguração aparecia a logomarca com o Galo e o nome do Restaurante Paraíso Tropical dizendo: Se não conhecem, então venham conhecer a filial do Paraíso no Rio Vermelho; Se um Paraíso é bom, dois melhor ainda. Por baixo o endereço e o telefone dos dois Restaurantes, com a indicação da matriz e da filial, que abria ao público.

Toda a imprensa Baiana estava presente em peso, no dia dezanove de Abril, na pré-abertura.
Dois dias depois e eis chegado o momento das nossas vidas.
Todo o mailing de convidados tinha sido feito por D. Licia Fábio, só ela poderia ter reunido tantas pessoas num mesmo espaço, numa só noite.
Uma única palavra... Deslumbrante.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Décima Segunda Dose de Pílulas do Livro...

O mês de Novembro estava a chegar ao fim, o verão de Salvador irradiava energia de todos os lados.
Não somente o sol aquecia a cidade, mas o constante reboliço das pessoas procurando divertir-se.
Festas, shows, eventos, praias, este é o quotidiano das gentes de Salvador e dos visitantes durante os meses de verão.
No cheiro sobressai o acarajé e o abará espalhado pelos muitos cantos desta cidade, pelas mãos das mulheres tradicionalmente vestidas com os seus trajes brancos - As Baianas...
Eu fazia parte desse imenso reboliço, não só pelo frenesi dos meus dias de trabalho, mas também pela necessidade de me inteirar de tudo o que se passava em Salvador, afinal de contas, tinha em mãos um ótimo projeto.
Quem se encarregava de nos apresentar á sociedade baiana e Brasileira era a nossa madrinha (como chamavam alguns, que denotavam certo ciúme) que nunca se esquecia de nos convidar para os eventos que tão bem organizava.
Fiquem sempre que possível junto de mim, dizia a nossa benfeitora e assim íamos conhecendo, muitas pessoas que seriam nossos possíveis clientes.
Formadores de opinião de todo o Brasil e não só.
Licia ficava sempre sentada, em local estratégico, para que pudesse ter uma visão global daquilo que se passava ao seu redor.
Fumando o seu charuto “Le Cigar” – robusto, cumprimentava gentilmente os convidados, que se lhe dirigiam – aproveitava o ensejo e apresentava-nos com muito rigor – Ricardo é Português e genro de Beto, vai abrir com o sogro uma filial do Paraíso Tropical – os convidados logo se interessam pela notícia, o que normalmente resultava num dialogo mais longo.

Aos poucos a notícia foi-se espalhando... Estava dada a partida, como seria o trajeto.
Tudo acontecia muito rápido.

Uma das características da Bahia é a rapidez com que as coisas acontecem e o reflexo que isso trás para as nossas vidas.
É preciso saber dirigir canalizar toda essa alta voltagem, com calma com tranqüilidade.
Hoje sei disso, na altura não tinha a noção da força energética em que estava envolvido.
Tudo era de uma intensidade enorme, o envolvimento torna-se um abraço gigantesco de grandes proporções e eu tinha destapado a tampa de uma imensa panela e não sabia como misturar os condimentos que tinha em mãos.

Resolvemos casar no civil no dia onze de dezembro de dois mil e três. A cerimônia foi rápida e simples, pela manha, no fórum de Salvador, e á noite fizemos uma pequena confraternização com alguns amigos e família.
O momento não era para grandes gastos e a nossa energia estava canalizada num único objetivo.
Sempre que possível aos finais de semana tomava o rumo da estrada, algures para a praia do forte ou Bom Jesus dos Pobres, onde a família possuía uma fazenda, aproveitando os poucos momentos de disponibilidade.
O mar de Bom Jesus dos Pobres não tem ondas é surpreendente a calma do lugar. Colocávamos umas mesas e umas cadeiras dentro da água e lá ficávamos horas a conversar a comer e a beber, até o sol dizer adeus, até amanhã...
O palmito que se utilizava na culinária do paraíso, vem da fazenda, como o preguari e o siri mole. Para utilizar o palmito da árvore, tem de se retirar o olho da palmeira e ao fazê-lo ela morre. Sabendo disso, o mestre dava ordens constantes ao caseiro para replantar e assim evitar o desaparecimento das palmeiras que dão origem ao palmito.

Vinte e quatro de dezembro de dois mil e três, primeiro Natal no Brasil e longe da minha família. Lá vem aquela palavra que só existe em Português e que ás vezes nos persegue e quase tritura a nossa mente.
Em família ficamos nós a época natalina. Muito calor e eu não estava habituado.
Tomei uns ótimos vinhos Portugueses com um tio da minha mulher, que era apaixonado assim como eu, por vinho.
Encontrei um parceiro, pensava eu.
Réveillon fomos para a Marina – Licia organizava uma festa grandiosa, onde convidava alguns globais, compramos uma mesa e com amigos e família, assistimos o nascer do ano de dois mil e quatro.
Abraçamo-nos fortemente durante alguns segundos, bastantes.
O pensamento estava no futuro que vinha a passos largos. Incertezas algumas, definições muitas. Novo ano...
As obras não decorriam como se esperava os problemas e os atrasos resultantes criavam em mim um stress latente... Não estava a gostar do desenrolar da reforma.
O indivíduo contratado e já devidamente remunerado, não apresentava soluções viáveis para as eventualidades que surgiam a cada pedra derrubada.
O tempo corria e não esperava. A verba inicialmente prevista, quase dobrou, estava a ficar deveras preocupado.
O contratado era pessoa talentosa, mas desorganizada e vim a notar que lhe faltava estrutura profissional e organizativa, falhava constantemente aos encontros e reuniões agendadas ou então marcava ás nove da manhã e chegava ás onze horas. Isso me deixava fora de mim. A minha mulher também preocupada, tentava acalmar os ânimos e várias vezes dizia para eu relaxar. Como podia relaxar com o dinheiro investido as obras atrasadas e a verba duplicada. Tentava...
O objetivo era aproveitar o verão...
O indivíduo contratado por nós para liderar todo o processo, desde o projeto até á decoração final, tinha Sub-Contratado uma firma de dois engenheiros civis, super competentes e profissionais que tentavam a todo custo resolver as situações prementes.
Mas a decisão final era sempre do responsável por nós escolhido.

Haveria outro problema a resolver e que me tirava o sono.

O alvará de funcionamento do restaurante.
Tínhamos em nosso poder a autorização da reforma que estava acontecendo, mas faltava a autorização para o Restaurante funcionar, quando estivesse tudo pronto.
O pai da minha esposa estava preocupadíssimo com essa questão e tinha feito uns contatos para tentar a obtenção do documento.
Não foi possível, já que havia certa resistência por parte do responsável do órgão emitente da autorização. Fizemos algumas petições por escrito, demonstrando o interesse para a cidade da abertura de um espaço de culinária baiana de qualidade e diferenciado. Vinha indeferido. Não compreendíamos porquê, já que perto de nós, havia várias casas comerciais abertas e funcionando dentro da normalidade exigida pela lei.
Tiramos algumas fotos que levamos ao responsável do órgão competente, mostrando a existência de restaurantes perto da Rua Feira de Santana. Indeferido...!
O que fazer! Não podia parar as obras... Significava dinheiro perdido, deitado fora. Decidimos em conjunto, continuar.
Nunca entendi essa relutância conosco. Essa dificuldade...!
Através de muitas insistências e alguns contatos, finalmente conseguimos o alvará de funcionamento.
O meu sono melhorou um pouco, mas só mesmo pouco. Outras vicissitudes me aguardavam.

Finalzinho de Janeiro eu tinha um sonho e acreditava que era verossímil. Abrir as portas uns dias antes do carnaval.
Previsões, finais de Março, começo de Abril.

Dia dois de Fevereiro, milhares de pessoas se dirigem ao Rio Vermelho e fazem as suas oferendas à Rainha dos Mares “Yemanjá” é o sincretismo religioso de mãos dadas com as tradições desta cidade “D Oxum”.
Festa popular pronuncio de mais um carnaval que se aproxima.
Seria diferente dos outros que eu tinha presenciado, quando ainda morava na cidade dos Alfacinhas.
Tivemos a chance de passar todos os dias da festa, no camarote de Daniela Mercury, criado e organizado por Licia Fábio, desde mil novecentos e noventa e cinco.
É um desfile de gente bonita de sexta a Terça-Feira.
- De certa forma, o nosso momento tinha chegado.
Apresentados a todos os que faziam parte, desse movimento contínuo de que tudo é novo e tudo é belo – Claro que não é bem assim –
O que me interessava chamava-se conhecimento e comunicabilidade.
Fotos atrás de fotos, algumas entrevistas breves, para sites e órgão de comunicação social. Carla irradiava beleza e simpatia e eu me sentia o Ricardo filho do Roldão e da Zita.
Com todas as pessoas que conversava, abordava sempre a criação do espaço e da maravilhosa e inovadora, culinária do grande “Chef Beto”.

O objetivo de toda a minha política empresarial e de negócio, sempre foi o investimento e a divulgação da pessoa e da imagem do mestre Beto.
Desde o dia em que me convidou para ser seu sócio, dirigi todas as minhas energias no engrandecimento pessoal e profissional do homem.
Tudo fiz nesse sentido...
Necessitávamos de trabalhar a imagem do “Chef Beto”, torná-la mais profissional e objetiva.
Então contratamos os serviços da Via Press, sem dúvida na altura a melhor Assessoria de Imprensa da Bahia. Vários profissionais colaboraram conosco, ressalvo Elaine Hazim e Jamil.

O papel da assessoria de imprensa foi primordial no lançamento do novo projeto e também na valorização do trabalho e imagem do mestre, do criador desta gastronomia, que se pretendia internacional.

Trabalhamos juntos e com afinco.
Atingiram-se os nossos objetivos? Boa pergunta! Não sei...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Décima Primeira Dose de Pílulas do Livro...

Prestei atenção na varanda, já que havia uma parede pintada de branco e por cima um candelabro de ferro, que vim mais tarde, a saber, tinha sido criado, pelo grande artista baiano Mário Cravo Jr.
A nossa benfeitora durante toda a visita á casa, pouco se manifestou.
Olhava com muita atenção, tudo o que se lhe deparava e só abanava positivamente com a cabeça aos comentários que eu ou Carla fazíamos.
A casa ainda estava alugada a Kenichi, ele é que tinha as chaves de todos os cômodos, por isso acompanhou-nos durante a visita.
Teria de levar Licia ao escritório, pois os seus compromissos eram inadiáveis.
Acomodando-se á frente e assim que coloquei a marcha e comecei a deslocar-me com a viatura, interrompeu o silêncio.
Gostei do que vi – muito boa localização, ampla, era isto – disse, sorrindo para mim e demonstrando certo bem estar e realização. Agora só falta falarem com o proprietário, para saberem o preço do imóvel – como se chama? Indagou, chama-se Paulo Mota, respondi prontamente. Franziu os olhos, como se estivesse a pensar ou a tentar descobrir algo. A possibilidade de conhecer o dono do imóvel facilitaria o negócio.

Deslocamo-nos ao escritório de Paulo Mota na zona do Comercio.
Tem um negócio de família muito prospero que era do Senhor seu pai e que agora geria com um irmão.
A empresa era distribuidora de laticínios em toda a Bahia. Paulo é um individuo extremamente educado e correto que preserva aquilo que o ser humano tem de mais importante: a palavra e a honra.
Não foi difícil fazer qualquer negócio com ele, pois facilmente nos tornamos amigos.
Vender o imóvel não era sua idéia, tinha-o comprado como forma de investimento em longo prazo.
Sendo homem de negócios há já alguns anos, sabia que a zona do Rio Vermelho, onde ficava o seu imóvel, valorizava dia a dia e que a procura por casas na região é muito superior á oferta.
Só venderia se aparecesse uma proposta irrecusável.
A solução seria o aluguer. Acordamos o preço, mediante um contrato de quatro anos, com renovações automáticas. Paulo sabia que o seu imóvel ia ser beneficiado, não só estruturalmente devido ás obras que seriam efetuadas, bem como a valorização econômica do mesmo.
Pôs-me à vontade dizendo: o seu sucesso é o meu sucesso e enquanto você quiser ficar com o imóvel alugado, ele é seu.
Ainda havia a questão das obras e o tempo que demoraria, assim como o problemão do Alvará da Prefeitura/Sucom – soubemos que dificuldades existiriam para a autorização da abertura de um Restaurante naquele espaço, não só pelo o que tinha acontecido com o dono do Lambreta Grill, mas também porque se dizia que ali não podia haver qualquer casa comercial, por ser zona residencial.
Então solicitei um prazo de três meses de carência, que seria o tempo previsto por nós para a reforma, ao que prontamente acedeu.

Agora começava a fase mais trabalhosa, desgastante, exaustiva de todo o processo que se tinha iniciado há algum tempo atrás.

Obras, reformas, é igual a – chatices... Foram tantas.

Tudo já estava em movimento.
O universo conspirava a nosso favor, com a ajuda de algumas estimadas e sempre dedicadas pessoas, Licia era uma delas, talvez a principal naquele momento, sem a sua ajuda teria sido impossível formatar aquilo que formatamos e fazer aquilo que fizemos.
Claro que teríamos criado um restaurante, mas nunca “O Restaurante”.

Tardes e tardes passei sentado em frente á Senhora Dona Licia Fábio, no seu gabinete ouvindo os seus conselhos, as suas opiniões e montando um negócio que viria a tornar-se um sucesso.
Sentada naquela poltrona vermelha, comandava toda a operacionalidade que estava a ser criada, orientava-me, conduzia e sugeria-me situações.

Aquela agenda em cima da mesa era mágica.

Desde o decorador, passando pela contadora, representantes de marcas de bebidas, patrocinadores, tudo fazia para eu conhecesse os meandros do negócio e as reuniões fossem conclusivas.
Discava um número e aparecia um possível interessado no projeto. O resto era comigo.
Vai falar com Ricardo Alves, genro e sócio de Beto que está abrindo uma filial do restaurante Paraíso Tropical, aquele do Cabula – e do outro lado da linha lá estava alguém.
As reuniões sucediam-se e as negociações também.
Ao mesmo tempo, Licia nos apresentou um individuo que era muito original nos seus projetos e que tinha criado alguns espaços bastante agradáveis em Salvador.
Tínhamos conhecido outros arquitetos de nomeada, mas optamos pelo mais novo e que nos dava também certo conforto em termos de proposta apresentada.
Acertamos a questão financeira, com a pessoa contratada e as questões contratuais e de tempo que a reforma ia demorar.
Apresentou-nos um projeto juntamente com a questão decorativa. Discutimos ao longo dos dias, algumas alterações e quantificações possíveis, para que tudo desse certo.

O prazo acordado com o responsável de todo o projeto para que as obras acabassem e o restaurante fosse inaugurado, era a semana do carnaval do ano de dois mil e quatro.
A nossa idéia, era inaugurar em pleno verão, para aproveitarmos o movimento de turistas que acontece na cidade de Salvador e assim começarmos a viabilizar a verba investida.
Estávamos em Outubro de dois mil e três a meio do mês, precisamente dia dezanove, a reforma começava.
Tínhamos três meses e meio para montar toda uma estrutura, desde a colher de chá ao chefe de cozinha.

Desdobrávamo-nos em várias funções e ao mesmo tempo entrelaçávamos os vários fios, que originariam o produto final.

Idéias muitas...

O mestre tinha imensas revistas, cortes de jornais com reportagens sobre a sua gastronomia amontoadas e guardadas, como estávamos constantemente em reuniões, com parceiros, patrocinadores, fornecedores, seria boa política, criarmos um book, onde reuníssemos toda a informação existente durante anos, sobre o Restaurante. E assim fizemos.
Reunimos toda a informação existente e selecionamos aquilo que nos parecia de melhor qualidade e objetividade.
Fizemos dois books e começamos a distribuir um menor com as melhores reportagens de jornais e revistas e outro maior com fotos quase em tamanho real dos prêmios existentes, colocando em destaque a “Commanderie de Cordon Blue de France”
A partir daquele momento e aos poucos, começava a criar e a vender a imagem do “Chef Beto” – O grande inovador da culinária baiana e da cozinha experimental.

O Paraíso Tropical do Cabula não tinha uma logomarca definida, por isso era primordial pensarmos na sua criação.

Problema fundamental que logomarca! A idéia subjacente ao Cabula e á sua culinária, tinha relação direta com a natureza, frutas exóticas e uma chácara. Pedimos a três agências de publicidade que criasse baseado nesse conceito uma logomarca, que seria utilizada nos dois Restaurantes.
Havia ainda outro conceito que era controverso e discutido tanto por nós como pelos publicitários.
Os Galos, paixão de Beto ao longo dos anos e que existiam ao seu redor diariamente.
De uma simples Rinha de Galos a um dos restaurantes mais famosos da Bahia.
O que fazer e como misturar estes conceitos!
Depois de muita discussão proveitosa, a decisão estava tomada.

O Galo seria a logomarca de todo o nosso projeto, a agencia contratada ficou de estilizar melhor a logo, alterando um pouco a tonalidade das cores.
O consenso foi generalizado, mas a grande defensora da idéia foi Dona Licia Fábio que achava o Galo, a cara do Paraíso.
A reforma do novo Paraíso avançava com alguns atrasos (nada que não se pudesse recuperar) a empresa do Rio Vermelho já tinha sido criada em nome de Carla, tínhamos entregado a documentação para obtenção do alvará junto á Prefeitura/Sucom, solicitamos ao Senac-Salvador nomes de possíveis colaboradores e através da nossa amiga e contadora Vitória Souto contratamos uma equipe de psicólogas, para analisarem os currículos e fazerem o recrutamento de todo o pessoal do novo restaurante.

Política da boa vizinhança.
Tínhamos um vizinho um senhor de idade avançada que aparecia de quando em quando á porta da casa, indagando com certa severidade os trabalhadores que estavam na reforma, sobre o que iria acontecer naquele espaço. Parecia o auto nomeado proprietário da Rua Feira de Santana.
Outra questão a ser resolvida e não seria nada fácil, mas nada que uma boa conversa sincera e amigável não resolvesse. E tivemos muitas.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Décima Dose de Pílulas do Livro...

Segunda metade do mês de Setembro do ano de dois mil e três, continuávamos à procura de um espaço, até que Carla se lembrou de uma pessoa que tinha ajudado imenso o Paraíso Tropical, não só na divulgação do mesmo de todas as maneiras, quer através da imprensa escrita e falada, bem como para todas as pessoas que conhecia e levando sempre que possível os seus amigos e conhecidos que eram formadores de opinião. Essa senhora era amiga de Beto e adorava a sua culinária, principalmente a Torta de Maturì com Creme de Palmito de Coqueiro...
O seu escritório ficava na contorno junto ao Trapiche Adelaide, lá fomos... Eu, Carla e o seu irmão Betinho.

Local aprazível, com uma vista muito bonita.
Entramos no seu escritório, Rés-do-Chão, do lado esquerdo, tinha uma mesa de madeira lindíssima com um tampo de vidro, onde estava sentada uma moça, que ao ver-nos imediatamente nos indagou – bom dia, em que vos posso ser útil! Viemos falar com a Dona Licia Fábio, respondeu Carla. Sentem-se, por favor, posso-vos servir algo! Dona Licia Fábio, já vos atende.
Sentamo-nos nuns pufes brancos que existiam à direita, o gabinete de Licia ficava logo a nossa frente a uns dois metros do local onde nos encontrávamos, era separado por um vidro transparente e por uma porta de madeira, mais para dentro á direita, havia outra sala com funcionários trabalhando, notei uma grande movimentação de pessoas entrando e saindo constantemente.

Havia uma estante de madeira branca, com alguns objetos de decoração e alguns livros, chamou-me a atenção um sobre um francês “Pierre Verger” que era fotógrafo e que se tinha apaixonado pela Bahia e pela religião do “Candomblé”... Que interessante, pensei eu.

Enquanto desfolhava com muita atenção o livro, reparei que na parede estava pendurado um painel grande de cortiça, com imensas fotos de artistas de cinema, de televisão, cantores, políticos, todos com Licia. Entramos no gabinete dessa Senhora, que pela sua grandeza espiritual e de alma nos torna pequenos perto dela. A impressão que tive, foi estar perto de alguma entidade. Ser humano muito sóbrio e objetivo, não perde tempo com nada e vai direto ao assunto, sem grandes delongas. Irradia grandeza e originalidade.
Licia já sabia da minha existência, pois Beto tinha telefonado, solicitando que nos recebesse em seu gabinete. Dei-lhe dois beijos na face;
Seja bem vindo, foram as suas palavras de carinho.

Estava sentada numa poltrona longa e vermelha... Por vezes e durante as reuniões que tivemos, ao longo dos meses, encostava o seu corpo para trás e balançava levemente a poltrona quando estava mais descontraída, ou ficava numa posição mais retilínea com as mãos cruzadas sobre a sua mesa quando o assunto exigia mais concentração.
Falar de Dona Licia Fábio não é fácil pela sua imensa grandeza como mulher, como mãe, mas fundamentalmente como ser humano.
Aqui começava a segunda parte da minha história nesta terra abençoada pelos deuses.
Houve três pessoas que jamais esquecerei, pela amizade, pelo carinho e pelo respeito que sempre tiveram pela minha pessoa, independentemente das contingências e percalços de toda uma vida, vivida tão intensamente em tão pouco tempo.

A primeira foi esta grandiosa mulher, Licia Fábio.

Considerada uma das maiores “Promoters” do Brasil é sem dúvida a mais exigente e qualificada da Bahia.
O que me surpreendeu ao longo dos anos foi a sua visão ampla de negócios, alcança onde poucos conseguem alcançar, vê o que só uma minoria pode ver.
Respeitada por muitos, provoca alguma inveja em alguns, pela sua constante metamorfose mental.
Licia não é somente uma promoter ou alguém que cria e faz festas maravilhosas e selecionadas para uma elite, é muito mais do que isso...
Os seus contatos e os conhecimentos que conquistou com o seu trabalho merecido ao longo dos anos tornaram-na numa empresária de tão grande visão, que onde toca, (segundo dizem alguns) vira ouro...

Excelente articuladora é fundamentalmente uma artista do social e da sociedade... Pinta os momentos, pinta os espaços, pinta o tempo e deixa para os outros a contemplação e o usufruto das suas imensas obras artísticas...

Eu vou ajudar-vos a montar o Restaurante... E assim foi. As idéias surgiam da cabeça daquela mulher de uma forma rápida, umas atrás das outras. Tomava nota daquilo que conseguia, perguntava aquilo que não entendia e o esqueleto e a estrutura foram tomando forma.
Licia era uma conhecedora de toda a culinária do mestre, sabia tudo sobre ele. A sua visão era extremamente profissional em relação ao negócio que queríamos montar.
Sabia as limitações e as virtudes. Opinava constantemente sobre as alterações que deviam ser efetuadas.
Estávamos somente na primeira reunião.

Faltava o espaço, o resto vinha por conseqüência.

Em cima de sua mesa, havia uma agenda telefônica onde existiam todos os seus contatos, que utilizava sempre que necessário fosse e dois aparelhos de celular. Sem nada dizer, procurou na agenda um número de telefone e ligou – Estou aqui com o genro de Beto dono do Paraíso Tropical, ele é Português e casou-se com a filha Carla, eles vão montar um restaurante e estão á procura de um local, estou a ajudá-los – Quando desligou a chamada, olhou para mim, Ricardo falei agora com Reinaldo (era o proprietário da Marina de Salvador, que estava interessado em colocar alguns restaurantes de qualidade na Marina) ele vai-te receber amanhã, mas olha, vai com Beto.
No dia seguinte lá estávamos na Marina de Salvador, para uma reunião com o dono do espaço.
Não fechamos negócio, se bem me lembro o investimento era muito alto e a mensalidade também.
Licia dizia sempre que o restaurante tinha de ser no bairro do Rio Vermelho eu indagava porquê, ao que respondia que era um local de Boemia, centralizado e que estava em crescimento.
Lá íamos os três, pelas ruas do bairro batendo porta a porta e perguntando se havia alguma casa para vender ou alugar.
Procurávamos as casas com espaço suficiente e grande, mas nada de encontrar...
Ela dizia-nos constantemente, lá para dentro, lá para dentro, procurem naquelas ruas de dentro é lá que tem de ser.
Ao fim de uma semana e depois de muita sola gastar, encontramos uma casa enorme, ai de uns setecentos metros quadrados, já com área construída.
A casa ficava em frente a uma praça, abandonada cheia de capim e ervas daninha.
O que me chamou a atenção na casa é que ela ficava num alto – era a casa mãe da praça.

A praça chamava-se “Carlos Batalha” de praça, só o nome numa placa meio comida pelo tempo e uma estátua toda descuidada pela heresia de alguém.

Endereço – Rua Feira de Santana 354.

Havia uma placa colocada na área externa perto de uma linda amendoeira – Aluga-se – a casa precisava de reparos, de obras, mas isso não interessava naquele preciso momento.
O que eu queria era ligar para o telefone celular, que estava escrito na bendita placa.
Do outro lado da linha, atendeu-me um senhor simpático, mas com um sotaque estranho, chamava-se Kenichi. Boa tarde chamo-me Ricardo Alves e estou a telefonar-lhe para falarmos sobre um possível aluguer da casa na Rua Feira de Santana, estou chegando, respondeu do outro lado.
Kenichi era Japonês – daí o sotaque – e morava igualmente no Rio Vermelho, pois detinha um negócio que se chamava Lambreta Grill (onde comi deliciosas lambretas, que só ele sabia fazer).
Poucos minutos depois, chegou o nosso estimado amigo Japonês.
A casa não era dele estava alugada á sua pessoa, ele tinha um negocio que pretendia expandir e então tinha alugado a casa a um Senhor que dava pelo nome de Paulo Mota.
Tinha pago três meses de alugueis ao proprietário do imóvel, mas não tinha conseguido Alvará da Prefeitura, para a construção e reformas que eram necessárias fazer no espaço.
Por isso estava prestes a desistir de expandir o seu negócio ou então procuraria outro local, que fosse mais fácil conseguir os respectivos Alvarás.

Fiquei animado com a perspectiva de poder ficar com a casa, era um sonho que perseguíamos há algum tempo e parecia que as insistências de Licia estavam certas... Era ali mesmo, como sempre disse a nossa benfeitora.
Prontamente Kenichi, forneceu-me os telefones de Paulo Mota (que amigo Paulo Mota foi até ao ultimo minuto, sempre com compreensão e respeito pela minha pessoa, bem haja).

Tínhamos conseguido...
Fiz uma ligação para Licia contando o sucedido, perguntei-lhe se ela estaria disponível para ir olhar a casa, prontamente disse que sim, então combinei com o portador das chaves Kenichi, para o dia seguinte.

Assim fizemos, pela manhã fui buscar Licia com Carla e a levamos até o imóvel.
O aspecto era de abandono, folhas secas da Amendoeira espalhadas por toda a área externa, o gradeamento que circundava o espaço estava enferrujado, as portas e janelas completamente estragadas, o telhado necessitava de ser substituído, o passeio em frente e na lateral todo levantado (calçada Portuguesa), enfim isto se via a olho visto, o resto era mais complexo, pois necessitava de alguém especializado que pudesse opinar.
Entramos pela porta da frente, que dava diretamente para dentro da casa, havia outra entrada pela lateral, uma que acessava o jardim e a última dava acesso á garagem e ficava na parte de baixo em frente á praça.
Na entrada tínhamos um salão de chão de madeira, á esquerda havia uma porta, que aberta acessávamos á varanda e a toda a área externa, bem como á parte de baixo e á garagem.
Em frente ao salão descíamos umas escadas e estávamos supostamente nuns cômodos que seriam os quartos.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Nona Dose de Pílulas do Livro...

Tínhamos mudado para o Canela, apartamento novo e estávamos aos poucos a organizar e a estruturar a nossa vida em comum. Fui olhar alguns terrenos na estrada do côco, para possíveis negócios, analisei igualmente algumas casas (que um amigo me mostrou) na zona histórica de Salvador – Pelourinho, que estavam disponíveis para pousadas, fui para o interior recôncavo, verificar focos de negócios e conversei com algumas pessoas amigas e com a família de Beto, pessoas muito bem conceituadas e relacionadas. Diga-se de passagem, que os tios de Carla prontamente se puseram à minha disposição, para ajudarem naquilo que fosse necessário.
Ao longo de todo o processo estreitei laços familiares muito intensos e profícuos, com todos os membros da família. O que notei de muito positivo, foi à união existente entre todos os membros dessa tradicional família baiana descendente de Portugueses e Italianos.

O meu telefone de casa tocou deveria ser meio dia, acho eu; a secretária do lar atendeu, era o pai de Carla – Beto. Estávamos em Setembro de dois mil e três, solicitou-me que eu fosse á tarde com Carla ao Cabula, depois do almoço, queria falar conosco.
Almoçamos e dirigimo-nos ao Paraíso Tropical, estacionei o carro, como sempre fazia perto da entrada do restaurante. Entrei cumprimentei Beto e pedi um suco de Morango sentei-me com Carla, ao meu lado ficou Beto que prontamente chamou a sua companheira, para fazer parte da conversa.
O mestre estava com uma cara séria, mas ao mesmo tempo tranqüilo o que denota paz de espírito – Não era nada de grave, pensei eu, algum problema! Talvez... Curiosos estávamos os dois.
Tenho pensado muito, em vocês e de que forma poderão utilizar o dinheiro que trouxeste – refletiu Beto – bem vos aviso que o dinheiro acaba e rápido, Ricardo és o marido da minha filha, deixaste a tua vida para vires para Salvador viver com Carla, isto que tenho é dos meus filhos, comecei do nada, como tu bem sabes, com muito trabalho cheguei até aqui – continuava Beto – gostava que Carla e Betinho (irmão de pai e mãe de Carla) tomassem conta de tudo, quando eu já não puder mais, gostaria de ter alguém que ficasse com isto, calmamente eu olhava para aquele homem e pensava, onde é que ele queria chegar, eu precisava reformar isto tudo, de comprar mesas, cadeiras, fazer obras, informatizar todo o restaurante, precisava investir aqui, como vês o terreno é grande, só precisa de uns ajustes – dizia – eu continuava calado escutando, bem como Carla – porque em vez de comprares a tal pousada que tanto queres, não fazemos uma sociedade!
Olhei para Carla, o semblante de Beto tinha alterado estava mais sério e continuava, fazemos uma sociedade nova, com outra razão social, ou então alteramos a atual, que está com o nome de Carla e Betinho. Sinceramente não esperava que Beto fizesse tamanha proposta, até pelo simples fato de ele ser o capitão de todo o processo criativo e o seu temperamento especial em relação ao que era seu.
Raramente admitia intromissões ou alterações ás suas decisões.

Beto antes de mais obrigado pelo convite, mas preciso pensar sobre tudo isto, como deve calcular, tenho alguma verba, mas o investimento deve ser bem calculado, até porque o negócio já existe e é de família, o meu desejo é começar algo de novo, noutro local.
Fui para casa refletir sobre o assunto.
A opinião de Carla era que eu consultasse primeiro os tios, irmãos de Beto que o conheciam extremamente bem e sabiam talvez aconselhar-me.
A opinião dela era que eu abrisse outro restaurante, noutro local da cidade, aproveitando todo o conhecimento e saber do pai e fizesse uma sociedade, com um contrato escrito e devidamente reconhecido pelo cartório, onde pagaria mensalmente, a estipular uma quantia, pela utilização do nome e de todo o conhecimento, mas a razão social seria diferente.
Como ela era sócia do Paraíso Tropical do Cabula, ela se desvincularia do mesmo e em nome dela abrir-se-ia uma nova razão social - uma nova empresa e assim ajudávamos o pai e o irmão, trabalhando em sociedade e dividindo todos os lucros, dando Beto uma assessoria constante, tanto na formação do cardápio, bem como no contínuo acompanhamento da nova fase do projeto a ser criado.
Achei a idéia interessante, mas ainda não tinha tomado nenhuma decisão.
Não tinha qualquer idéia de como funcionava um restaurante, ainda mais de comida Baiana, nem como poderia geri-lo, estava seriamente preocupado com toda aquela movimentação repentina e súbita.
Não tinha qualquer experiência na área em questão, sempre trabalhei na área financeira ligado a reestruturações de crédito financeiro, por outro lado, sempre fui um homem de desafios e a idéia de ajudar Beto, a catapultar o seu nome e a sua culinária para outras galáxias me entusiasmava muito e deixava-me intrigado. Eu só sabia o que era boa comida e bom vinho,quando me sentava á mesa de um restaurante, para comer e beber, disso percebia eu... Agora comprar e fazer para os outros, era algo desconhecido.
O espaço que o mestre possuía no Cabula, que com tanto amor criou e recriou ao longo dos anos, tinha uma clientela muito especial, apesar de ser um local simples.
Eu sabia disso e ás vezes pensava, durante este período de indecisão, que se juntássemos a maravilhosa culinária já existente, a um novo espaço, mais requintado, com um bom serviço de cozinha de garçons, uma boa carta de vinhos, manobrista, enfim um serviço de extrema qualidade, o sucesso estaria perfeitamente garantido.
Falei com algumas pessoas, a maioria aconselhava-me favoravelmente, com algumas ressalvas jurídicas, já que todo o capital a ser investido no possível negócio era todo da minha parte.
Beto não possuía situação financeira, para investir qualquer quantia no novo negócio.
Entraria com o nome e conhecimento e eu com o investimento financeiro.
Carla e Betinho, como tinham trabalhado com o pai, possuíam igualmente algum conhecimento, tanto na área de compras e aquisição de produtos, como na área de relações públicas e marketing e divulgação do negócio... Culinária só o mestre ou então a sua companheira.

O Paraíso Tropical no Cabula, tinha uma freqüência bastante especial.
Beto tinha um álbum de fotos, onde com muito orgulho exibia os seus clientes globais e não só.
Formadores de opinião: (a exp.: Arnaldo Jabor, Licía Fábio, Duda Mendonça) Atores: (a exp.: Luana Piovani, e tantos outros) Músicos: (a exp.: Ed Motta, Paralamas do Sucesso, Daniela Mercury) e muitos mais. Beto constantemente dava entrevistas aos órgãos de comunicação social, sobre a sua culinária inovadora e natural ou então apareciam artigos sobre si em revistas nacionais sobre a sua gastronomia.
Tinha sido escolhido, para representar o Brasil em Porto Seguro – nos Quinhentos anos dos Descobrimentos Portugueses em mil novecentos e noventa e oito.
Tudo isto acontecia com a maior naturalidade, sem o mínimo de snobismo ou presunção.
Conversei longamente, com os irmãos (as) de Beto que o conheciam extremamente bem...
A opinião era generalizada. Devia fazer o negócio, mas com os devidos cuidados de salvaguarda de contrato, evitando no futuro situações que pudessem vir a acontecer.

Apesar de tudo, aceitei. Era um desafio e que desafio. Começamos a planificar toda a estrutura do novo restaurante. Havia muito trabalho a desenvolver e o capitão de todo o projeto estava bem ciente das dificuldades que esperavam por nós.

Tivemos algumas reuniões preparatórias sobre como criar novos pratos ou alterar a culinária tornando-a mais célere.
Decidimos manter tudo como estava com algumas alterações que seriam implementadas ao longo do processo de criação.
A primeira questão a ser resolvida era arranjar um espaço suficientemente grande e confortável, onde pudéssemos adequar às características estruturais do projeto já existente no Cabula, ao novo restaurante. Começamos a indagar com alguns indivíduos ligados a imóveis se havia alguma casa, residência que estivesse á venda ou para alugar dentro da cidade de Salvador.
Não encontramos nada que nos servisse e que fosse ao encontro das nossas idéias.
Até que soubemos que Klaus Peter, que desenvolveu a atual Praia do Forte e que era o dono do Resort estava interessado em movimentar e revitalizar o espaço subjacente ao “Castelo Garcia de Ávila”.

(No ano de mil quinhentos e quarenta e nove, Tomé de Souza foi nomeado o primeiro Governador Geral do Brasil. Anos mais tarde, o seu filho, Garcia D’Ávila recebeu de seu pai quatorze léguas de terras de sesmarias, que iam desde Itapoá até Tatuapara (Praia do Forte). Nesse local Garcia D’Ávila construiu em mil quinhentos e cinqüenta e um, o Castelo da Torre de Garcia D’Ávila. Em poucos anos, tornou-se o maior latifundiário do mundo, administrando as suas terras da Casa da Torre que foi a primeira construção de grande porte do Brasil e o único castelo medieval das Américas).

O projeto era criar um restaurante perto do Castelo que tivesse uma boa culinária e que levasse os turistas que estavam hospedados na Praia do Forte e não só.
Tivemos algumas reuniões com os responsáveis, do Castelo – fomos várias vezes ao local – o espaço era bem localizado com uma vista deslumbrante, talvez um pouco pequeno para as nossas intenções, mas o que originou a nossa desistência foi à distância de Salvador e os problemas de logística que teríamos, tanto de funcionários como de materiais.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Oitava Dose de Pílulas do Livro...

Como a culinária do restaurante é toda artesanal e feita na hora, (é super exigente com os produtos que adquire) torna-se um pouco demorada, ás vezes bastante demorada, o que provocava situações complexas que Beto tentava resolver a todo custo, principalmente quando o restaurante enchia.
Os atrasos eram freqüentes e era preciso um jogo de cintura, para que os clientes ficassem calmos e não entrassem em situação de desespero. A mão de obra, infelizmente também deixava a desejar.
Garçons pouco preparados ou nada preparados, os ajudantes de cozinha sem qualificação aparente, quem segurava o barco, era a companheira de Beto responsável pela cozinha na ausência do mestre...
Bem ele, tentava estar em todo o lado, mas era impossível e estas situações repetiam-se dia a dia, o que originava um stress continuo, naquele ser humano.
Comecei a notar que o mestre do barco, tinha muitas dificuldades para levar a bom porto toda a tripulação. Era sem dúvida, uma tarefa diária extremamente complicada e difícil.
Ás vezes sentava-me com ele e comíamos uma deliciosa carne do sol com pirão de aipim, enquanto ele reclamava da vida e da falta de apoio das pessoas dos funcionários que o rodeavam.
Falava e coordenava todos que apareciam á sua frente, era o rapaz que tomava conta dos galos de briga, o moço que não tinha comprado a ração certa, para a sua paixão – seu hobie – as polpas que estavam mal despolpadas, ou porque tinham azedado o camarão que estava pequeno e não tinha qualidade nenhuma, a lagosta tinha sido comprada muito cara, o maturí (castanha de caju verde) tinha de ser comprado até ao próximo final de semana, em grande quantidade, para ser estocado para o ano inteiro.
Como mestre e capitão do navio, chamava para si toda a direção do negócio, deixando pouca abertura para o seu filho e companheira tomarem algumas decisões, que o levariam a ficar um pouco mais tranqüilo e á vontade. Esta necessidade de controlar todo o processo criativo e gerencial deve-se ao fato de ser uma pessoa bastante perfeccionista... A tentativa de chegar à perfeição levou-o a criar e a conceber a mais pura culinária experimental de toda a Bahia – “La Nouvelle Cuisine Baiana”

O criador da nova cozinha experimental Baiana tinha um hobie (os galos de briga) uma paixão (a natureza) e um vício (o cigarro).
É impressionante vê-lo fumar, principalmente quando está nervoso ou estressado.
Fumava um cigarro atrás do outro, enquanto me contava os problemas relativos ao seu negócio.
A criação de todo esse processo, foi feito naturalmente e espontaneamente, sem nunca pensar em tornar-se num dos maiores chefes de cozinha da Bahia e conseqüentemente do Brasil.
Toda a sua culinária foi gerada ao longo dos anos, intuitivamente.
Nunca imaginou que o seu restaurante fosse um negocio como outro qualquer e que para além de criar e recriar constantemente a sua culinária era um empresário, que tinha na mão algo de extraordinário que precisava de uma gestão cuidada e profissional. Todos os produtos utilizados no restaurante e na sua gastronomia eram adquiridos, por vezes em locais distantes, pela raridade dos mesmos e a dificuldade em consegui-los, o que tornava a sua culinária bastante onerosa.
O mestre sabia disso, mas eram os produtos raros que faziam a diferença na sua culinária.
O nome do Paraíso Tropical começou a ficar conhecido – como ele dizia – boca a boca.
O criador da culinária tinha a noção, da dificuldade em manter sistematicamente, durante o ano inteiro a mesma freqüência de clientela, que tinha nos meses de verão de Outubro a Março, logo quando chegava ao inverno, acumulavam-se algumas questões  para resolver e aí começavam as dores de cabeça.
O movimento reduzia drasticamente, o local – Cabula – fora do centro da cidade, as noites de inverno tornavam-se solitárias e faziam os clientes ausentarem-se por longo tempo.
O capitão do barco tentava arranjar alternativas viáveis, mas a situação por vezes se complicava bastante e isso fazia com que o mesmo, não soubesse como resolver os problemas mais prementes.
Mesmo assim, a sua bondade prevalecia sempre.
Estava sempre disposto a ajudar alguém, que lhe pedia uma participação de comida em alguma festa ou evento, ou em dar quantidades de frutas apreciáveis, que ele mesmo tinha comprado para uso do seu restaurante... Notava que por vezes havia clientes, que quase nada consumiam de comida e que no fim levavam um ou dois sacos de frutas, para além da bandeja que era cortesia do restaurante.
Beto não sabia dizer não a ninguém, que lhe solicitasse ou pedisse algo.
Fazia amigos com extrema rapidez e os “amigos” sabendo da sua exclusiva bondade, tentavam aproveitar ao máximo, a mesma... Fazia parcerias com jornais locais, revistas, empresas, através de permutas de refeições no seu restaurante. Por vezes negócios pouco lucrativos para si e para a sua excelente gastronomia.
Neste meu curto tempo de permanência em Salvador, apercebi-me de várias questões relacionadas ao comando do negócio e das tentativas do mestre em tentar resolvê-las.
Fui criando respeito, carinho e amizade por esse homem, lutador e mentor de toda uma operacionalidade, que ele próprio não controlava na totalidade, já que sem se dar conta, o negócio era maior do que ele tinha imaginado. Tinha concebido um mundo de gastronomia, que rapidamente se multiplicava.

Mas faltava algo... E eu nunca descobri o quê. Pensei um dia ter descoberto, mas estava redondamente enganado. Andei lá perto, muito perto mesmo.







sexta-feira, 30 de julho de 2010

Sétima Dose de Pílulas do Livro...

Próximo o regresso a Salvador, o tempo urge e quando nos damos conta, ultrapassamos às vezes os nossos limites.
Santo, convidou-nos para almoçarmos em casa, que satisfação.
A senhora dele, fez uma feijoada sagrada – bendita feijoada, naquele fogão á lenha em plena tarde domingueira.

Pela manhã daquela Segunda-Feira, fomos para a estrada no sentido da capital baiana.
Tinha a noção que tudo ia mudar, ao volante refletia sobre o que me tinha acontecido e o que eventualmente poderia acontecer em termos de futuro.
O que iria fazer! Pensava talvez em montar um negócio. O quê! Não sabia; nem imaginava nada...
O carro ia deslizando ao longo da estrada, passando por fazendas, riachos e sítios, olhava e tentava memorizar a paisagem através do vidro meio fusco.
Alugamos um apartamento num flat, décimo primeiro andar, no corredor da vitória.
Ficamos por lá uns três meses, até irmos para o nosso apartamento, no bairro da canela.
Ao longo dos meses apareceram-me várias propostas de investimentos, algumas interessantes, outras nem por isso. Eu tinha em mente, montar uma pousada, algures pelo litoral norte e poder tranquilamente usufruir de paz e calma. Sonhos...! Quem não os tem. Sonhar é uma constante da vida.

Carla é filha mais velha de Beto e Célia, que faleceu quando Carla tinha dezanove anos de idade e deixou um legado de amor e carinho para toda a família. O carinho e amor que Carla transporta no seu coração, advêm em parte da sua querida e amada mãe.
Conheci Beto, na sua chácara lá pelos lados do Cabula (um bairro popular de Salvador), Beto foi criado com os seus pais e irmãos (família super carinhosa e amiga do amigo), em São Paulo e na fazenda em Bom Jesus – Saubara – a seguir a Santo Amaro – terra de Dona Cano, Caetano e Bethânia. A sua paixão pela terra, pela natureza, pelas arvores, pelos frutos é inquestionável.
Adora subir as árvores (como uma criança) e retirar Seriguela, Jambo, Manga, Cupuaçu, Bacupari e outros tantos frutos exóticos, que só ele conhece e oferece aos amigos e visitantes.
Conheci-o assim mesmo... Em cima de um pé de Jambo, no seu terreno no Cabula.
Cultiva dezenas de árvores de frutos e é um apaixonado pela culinária natural sem agro-tóxicos...
Que personagem!
Junto ao terreno, tem um espaço que é o seu restaurante, um dos mais famosos da Bahia e do Brasil.
O espaço do restaurante era muito simples, mesas e cadeiras de plástico, mas a culinária criada e inventada por Beto é excepcional.
Culinária Baiana é sem dúvida o grande inovador da cozinha Baiana.
Se há alguém que reinventou a cozinha Baiana, foi esse homem simples, e grande contador de histórias.
Não utiliza o óleo de dendê saturado nas moquecas, criou toda a cozinha experimental que hoje se faz na Bahia, mistura frutos e frutas, utiliza o bíri-bíri (em vez do limão) maturí (castanha de caju-verde), é um estudioso de toda a culinária do recôncavo baiano.
A sua cozinha, é leve, experimental, natural e saborosa, os seus sucos são autênticos sorvetes (frozens), as suas roskas (o nome que se dá à vodka com fruta) são néctares – só provando (as várias variedades de frutas são despolpadas à mão e guardadas, para depois serem utilizadas).
Para além da culinária, a sua outra paixão são os galos de briga – Homem integro e verdadeiro, nunca escondeu as suas particularidades nem paixões, doa a quem doer... Beto é o que é, sem máscaras, nem subterfúgios.
Entrei no restaurante, chão cimentado, nas paredes ao longo da entrada, molduras de alguns prêmios; chamou-me a atenção, “Le Commanderie des Cordons Bleus de France” em 2003.
Espaço simples, mas aconchegante, Beto estava no pomar, onde gosta de ficar. Meu pai chamou Carla – lá estava aquele homem em cima de um pé de Jambo, escolhendo a dedo, as frutas para serem colocadas na bandeja, que no final das refeições oferece aos clientes e amigos. Então Português! Na Bahia... Sim, respondi um pouco acanhado – vim para ficar, tentar algo – e já sabes o que vais fazer aqui? Que ocupação? Ainda não – olhando para o alto e verificando a sua agilidade em cima do tronco da árvore.
Desceu das alturas e veio-me dar um abraço.
Começamos a andar e a dirigimo-nos para o restaurante, logo começou a contar uma piada de Português. Beto tem uma peculiaridade muito especial, é um grande contador de histórias, adora fazer os outros rirem... Grande comunicador com uma capacidade de extroversão imensa.
Já sabia que situações idênticas iriam acontecer, pois da mesma forma que em Portugal, nós contamos piadas dos Alentejanos (região ao sul de Portugal – Alentejo), aqui se contam imensas piadas de Portugueses.
Estava preparado para o fato, já que uns dias antes de vir, fui calmamente á internet e procurei piadas sobre os Alentejanos e transformei-as uma a uma, em piadas sobre os Baianos.
A calma e a lentidão que o Alentejano tem de fama em Portugal, o baiano tem-na aqui no Brasil e eu sabia disso. Quando terminou de contar a história sobre os Portugueses, deu aquela gargalhada, que lhe é bastante peculiar e tentou iniciar uma série de piadas – ri-me com vontade e disse – agora é a minha vez – o meu repertório, não era tão vasto, nem qualificado quanto o de Beto, mas dava para brincar e nos divertirmos por alguns minutos. Assim fiz, puxei pela memória (nunca fui grande coisa a contar piadas), lembrei-me de uma bastante interessante e soltei-a – nessa altura já a companheira de Beto e alguns funcionários, se aproximavam de nós, pela curiosidade de conhecerem o marido da filha do patrão, bem como ouvirem de perto, alguém que falava a mesma língua, mas que tinha um sotaque bastante diferente e carregado.
A nossa relação, desde o início sempre foi à melhor possível.

Comecei a freqüentar com alguma assiduidade o restaurante de Beto (almoçava e jantava algumas vezes) e onde Carla tinha trabalhado com o pai, antes de ir para Portugal.
O Paraíso Tropical, assim se chamava o restaurante, tinha começado anos antes, com Célia e Beto, (era um restaurante familiar) que esporadicamente fazia comida para os amigos que se reuniam todos os dias.
O espaço era uma simples rinha de galos, que se tornou com a dedicação e trabalho num dos restaurantes mais admirados da Bahia e do Brasil. 

As famosas receitas exclusivas, (Preguari-tipo de molusco de casca mole, Tarioba-espécie de mexilhão, Siri mole), os sucos naturais, as Moquecas de Camarão, Lagosta e Polvo, a Torta de Maturí com Creme de Palmito de Coqueiro, a Galinha ao Molho Pardo, o Dandá de Camarão e as famosas Travessas de Frutas como Cortesia, (com Abis-espécie de pinha, Cagaita-fruta típica do cerrado de tamanho pequeno e agridoce, Cherimólia/Tamoia-tipos de pinhas do peru, Ingá-fruta comprida como fava, com caroços recobertos por polpa esponjosa e tantas outras), eram algumas das tentações que Beto tinha criado.

Notava a facilidade com que ele chegava ás mesas e iniciava conversas esporádicas e rápidas com os clientes, alguns antigos outros recentes.
Todos o adoravam e o respeitavam, pela sua espontaneidade e comunicabilidade.
Perguntava pela comida, se estava tudo bem e de mesa em mesa, ia contando “causos”: que tinha vinte e dois filhos, de várias mulheres, que o apelido dele era “Beto pau puro” porque de dia ficava na agricultura e á noite na criatura, perguntava se as pessoas conheciam o Ingá Rolão, (e mostrava uma fruta comprida de formato fálico), que o Genro dele, Ricardo, era Alentejano e Português... Histórias e mais histórias, que encantavam os clientes e que os faziam sorrir.
Por perto, ninguém ficava triste... Por vezes as pessoas soltavam gargalhadas...Descontração Total. 

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Sexta Dose de Pílulas do Livro...

Sexta-Feira Santa voltei a escrever.

Hoje, talvez pela necessidade espontânea de expressar aquilo que dentro de nós, de mim, de tudo o que me rodeia. Tenho falado da minha pessoa, em espaços temporais muitos grandes, preciso viver antes de escrever. O retrato de toda a minha passagem baiana tem de ser interiorizada e refletida para poder expressá-la e criar esta vontade verdadeira.

“Há sempre alguém que nos diz tem cuidado, há sempre alguém que nos faz pensar um pouco, há sempre alguém que nos faz falta...”

Nas nossas viagens pelo redor de Porto Seguro, fomos a Eunápolis, cidade pequena, onde comprei o meu carro, que me transportou, para lugares inimagináveis e impensáveis.
Tínhamos alugado uma viatura em Arraial de Ajuda, mas o custo era elevado, então talvez para evitar extras, adquirimos o carro.
Dos momentos preciosos em Arraial com os nossos amigos alemães, fomos para Itararé – Vila de Surfistas em plena mata atlântica – praias e locais cobertos por vegetação espessa e verde. Encontramos um pequeno resort/tipo pousada hotel, onde fizemos amizade com o proprietário; Paulista dos seus trinta anos, empresário que investiu com o seu pai (residente em São Paulo) alguns recursos, na divulgação do seu negócio.
Pessoalmente, já tinha estado em Itararé em mil novecentos e noventa e quatro, agora era tudo diferente – mais civilização, mas as ruas ainda são de terra batida e a população tentava a todo o custo, manter as tradições locais – de não à invasão exagerada e ambígua.
Fizemos alguns passeios diferenciados, apesar de eu não ser adepto de desportos muito radicais, ainda andamos de caiaque pelos afluentes e descemos algumas correntezas, para além de termos conhecido Maraú –
Alugamos um quadriciclo e com um guia, passamos o dia todo, procurando, buscando, espaços entre os já existentes de terra batida, de lama.
Acabamos no meio de umas dunas e o nosso olhar só alcançava – beleza.
Província de Maraú – Barra Grande – um dos paraísos desta terra santa, que se chama Bahia. (uns anos mais tarde, tive a satisfação de desfrutar daquele espaço)
Paulo o dono da pousada/hotel, passava sempre que podia, algum tempo conosco mostrando os arredores de Itararé.

Programávamos a nossa ida para o próximo destino.

Um local que eu recomendo, a qualquer ser humano, que goste de viver neste mundo cheio de coisas belas e de belas coisas.
Como é bom conhecer o desconhecido, amar o belo e fazer do que é menos bonito, lindo...
Saber sentir os sentimentos, que os nossos sentidos nos dão a cada descoberta momentânea de vida...

- Chapada Diamantina.

Quando Deus criou o mundo, procurou fazer daquele cantinho da Bahia, o seu local de descanso e de meditação.

Nunca mais me esquecerei daquela viagem. Saímos de Itararé, cedo por volta das seis e trinta da manhã, procurei saber o melhor caminho, indagando, tomando notas, para chegar á Chapada Diamantina.
Diga-se de passagem, que a experiência da viagem na estrada, foi traumatizante: As estradas péssimas, cheias de buracos... Desculpem, crateras, o meu carro novinho em folha, caia constantemente em buracos, buracões – só me apetecia sair do carro e colocá-lo sobre as minhas costas, para os pneus não furarem – e furaram... Prejuízo – dois pneus estragados foi o custo da viagem.
Chegamos pela noite cerrada, por volta das dez horas, estava exausto, já não raciocinava de cansaço, tinha de ter uma atenção redobrada ao longo de todo o trajeto (por vezes demoramos duas horas para fazer trinta quilômetros).
Chateado, dirigi-me á prefeitura de Lençóis no dia seguinte, queria explanar a minha indignação, por ter viajado durante horas a fio, em estradas, que mais pareciam crateras lunares.
A região é uma zona turística, que devia dar condições aos visitantes de acessibilidade...
Não consegui falar com ninguém de direito, a quem pudesse mostrar a minha opinião.

Reclamações á parte, o dia prometia.
Contratamos um guia turístico... Diogo Santo era o seu nome.
A chapada é um lugar mágico e místico – sabem aqueles espaços que nós criamos nas nossas mentes, que presumimos existirem um dia, algures, para além da nossa imaginação... Sabemos no nosso intimo, que é possível existir.
A cidade mais importante da região é Lençóis – toda a estrutura econômica vive á base de um turismo ecológico/ecoturismo.
Durante muitos anos, se fez a extração desenfreada de pedras preciosas, hoje é proibido, mas ainda assim, encontramos sempre alguém, procurando no fundo das entranhas desta terra, o sustento do dia a dia.
Terra de garimpeiros que comeram “o pão que o diabo amassou”.

Hoje, ontem, talvez amanhã encontremos o momento o passado e o futuro unidos, na tentativa de recriar este Brasil – Brasileiro, de conquistas e desenganos, de lutas, derrotas e vitórias, mas acima de tudo, de muitas virtudes... E honras.

Diogo Santo, pessoa humilde, gentil, disponível – sempre – Santo de nome e não só – de caráter e bondade. Em duas semanas, conhecemos tudo o que era possível conhecer, Santo se desdobrava para nos agradar e mostrar toda a informação que guardava com ele, desde os treze anos, idade que começou a levar os turistas que visitavam a Chapada Diamantina.
Conhecemos montes, vales, cachoeiras, onde tomávamos banhos ininterruptos, o morro do pai Inácio, rios, grutas e grutas... Natureza.

Paz, descoberta constante, a tranqüilidade, o silêncio – introspecção – meditação.

Vale do Capão – Onde Deus descansava todo o sétimo dia...
Para irmos até á cachoeira da fumaça, andam-se umas duas horas, subindo, subindo, até se chegar ao topo de uma montanha.
Exaustos, chega quem consegue subir, sôfregos, respirando com certa dificuldade...
Recuperado, olho para baixo e tenho uma visão indescritível – vejo um vale imenso, cheio de verde e somente verde... Onde estou? Ricardo lá em baixo é o Vale do Capão – responde Santo.
As lágrimas vieram-me aos olhos, pelo momento de alegria e paz que vivenciava. Fiquei uns minutos em silêncio... Abracei Carla e ficamos longos instantes contemplando talvez Shangrilá – onde o ser humano nunca envelhece e fica eternamente jovem de espírito e de mente.

O momento que nunca acaba existe sem dúvida, mais que não seja nas nossas mentes, enquanto a nossa memória não se apaga...






segunda-feira, 26 de julho de 2010

Quinta Dose de Pílulas do Livro...

Lisboa é a maior cidade de Portugal e possuí uma área metropolitana que ocupa cerca de 2.870 km2 com cerca de 2,9 milhões de habitantes.
Os seus bairros típicos, com as suas ruelas estreitas e castiças, são ímpares.
Morava num dos bairros mais típicos de Lisboa – a Graça – junto ao Castelo de São Jorge e do Miradouro de Santa Luzia – recordo-me das nossas finais de tardes de outono, um friozinho, acompanhado de uma bica (como se chama um café expresso em Lisboa) e de uns pasteis de Belém.

O Outono faz-me lembrar (não sei porquê) Outubro, talvez seja porque é quando começa o frio – e Outubro lembra-me “Amália Rodrigues” que morreu em Outubro de mil novecentos e noventa e nove.
Eu sou um apaixonado por “Amália Rodrigues” que representa o Portugal – Português.
“Amália Rodrigues” era uma diva que tinha o sentido do trágico e elevou o canto à condição de poesia, ela soube cruzar o fado com a mais elevada arte poética, trouxe a poesia erudita para o fado, remetia o seu gênio a uma condição natural – a intuição - e foi à intuição que trouxe para o fado poetas que não eram do fado, era maravilhoso para “Amália”, o fado se confundir com um estado de alma, carregado de emoções e que leva a um destino...!
Há fado na sua própria vida, “uma estranha forma de vida”.

E o meu destino. O que seria?...
Estaria o meu fado traçado?
Dava comigo, às sete e meia da manhã, naquele trânsito caótico da cidade das outras eras - Lisboa – falando sozinho e xingando o indivíduo que estava na viatura ao lado da minha, mas que, por portas e travessas, tinha tido a esperteza saloia de avançar uns metros a mais, naquele caos, que eu gostaria que fosse ordem.
Ordem/caos ou vice-versa. Que confusão sem solução aparente...
Isto se repetia todos os dias durante meses.
O pior da alma humana, é o sentimento de desilusão e ineficácia, quando achamos que temos a possibilidade de sermos um pouco felizes, mas infelizmente, não o somos.
Por vezes, existem condicionalismos que apressam/limitam as nossas atitudes as nossas tomadas de decisões.
Sem saber, Carla foi sem dúvida a passagem para a outra margem da ponte.
Cheguei, eram umas vinte e trinta da noite, Carla estava assistindo a novela (acho que brasileira), sentada no sofá da sala, com o aquecedor ligado e de coberta sobre as pernas ligeiramente dobradas, tirei o casaco e coloquei-o á entrada (no hall), dirigi-me ao toillet que ficava em frente á porta de entrada e ouvi uma boa noite amor... Retorqui... Boa noite querida, como foi o teu dia – indagou Carla – normal querida, (enquanto lavava as mãos, pensava seriamente de que forma abordaria o assunto) lembrei-me instantaneamente de convidá-la para irmos jantar fora, talvez fosse mais fácil, para mim – Carlinha vamos comer algo em algum restaurante, Rick (como ela me chamava) eu fiz jantar para nós, além disso, não achas que está um pouco de frio para sairmos! Fiquei sem resposta, mas ao mesmo tempo satisfeito, pela tentativa óbvia de Carla tentar agradar-me com o seu repasto, até porque sinceramente não me apetecia sair muito menos com o frio que estava – claro, claro, ficamos jantamos hoje em casa na boa. Carla levantou-se do sofá da sala e dirigiu-se ao meu encontro – estava saindo do toillet, quando ela me abraçou –
Carlinha precisamos conversar – vamos para Salvador...
Salvador! Porquê Ricardo, não entendi de férias?... O rosto mudou, os olhos ficaram parados, a olhar para mim, á espera de uma resposta.
Olhei, tirei o terno e a gravata e dirigi-me para o quarto (anteriormente e já por algumas vezes, eu tinha falado levemente sobre o assunto de irmos viver para Salvador) não de férias, mas definitivamente, acho que é o nosso destino, algo me diz...
A decisão estava tomada, a compreensão foi importante para a minha vinda definitiva para terras da Bahia.

Embarcamos em finais de Julho de dois mil e três, com destino – rumo a Salvador via São Paulo.
Tinha conseguido uma licença sem vencimento durante dois anos e com alguma dificuldade, até pela rapidez de todo o processo, vender o meu apartamento, por um preço bastante agradável, o que me dava à partida, condições e tempo suficiente, para analisar propostas de negócios, bem como formas de investimento possíveis.
Todo o resto que eu trazia, eram problemas emocionais e familiares que até hoje, tenho ainda alguma dificuldade em resolver.
A minha família, nunca aceitou bem a idéia, que eu tinha em mente, mas de uma forma ou de outra, foram lentamente dizendo sim – sem nunca dizerem amen.

Gerir, isso tudo, foi no início muito complicado e deveras problemático, até pelas saudades inerentes a todo o processo... Situações á parte, até que sou um felizardo, pelo fato de imensas vezes durante o ano, quando não me é possível ir a Portugal, alguém de família ou amigos, vem visitar-me e abraçar-me, o que me dá certo conforto e confiança.
Até porque existe um meio de transporte, bastante rápido que é o avião e que só são oito horas sentadas, sem quase se poder mover, bastante apertado – porque a distância da poltrona da frente, não nos permite sequer esticar as nossas pernas, quanto mais viajar confortável...

Amar e ser amado – eis a questão...

Chegamos finalmente a Salvador, deixamos as malas num Apart-hotel e seguimos viagem para Arraial de Ajuda – perto de Porto Seguro.

Arraial de Ajuda – é um vilarejo super aconchegante – rodeado de excelentes praias – e lugares ainda calmos e tranqüilos, pode-se desfrutar de dias e dias sem fim de sol e águas quentes – Trancoso – Praia do Espelho.
No início, ficamos hospedados numa pousada perto da Villa, o conforto não era lá grande coisa, então resolvemos procurar, algo de diferente, que nos desse mais tranqüilidade e sossego.
Depois de muito procurarmos, ainda demoramos uns três dias, presumo eu, batemos na porta certa. Angélica e Richard – que casal maravilhoso – tornamo-nos amigos ao primeiro contacto.
Eles são alemães que um dia, há Vinte anos, vieram de férias para Arraial da Ajuda – cansados da vida na Europa resolveram no ano seguinte, vender tudo e comprar um terreno junto ao mar e construíram a sua linda casa – com mais três casas, bastante aconchegantes, que alugam só para os amigos que vêm de fora. Nós não éramos conhecidos muito menos amigos... Mas a empatia aconteceu.
Angélica era estilista de moda – alta costura européia – Milão, Roma, Paris, Berlin – amiga de Karl Lagarfeld – que pessoa fantástica, extrovertida, estilosa, sempre bem vestida e super maquiada e pintada – chiquérrima – até quando colocava biquíni se tornava chique.
Richard é professor catedrático de Física Nuclear – vai uma vez por mês para o Recife, corrigir as teses de Doutoramento, daqueles que tentam fazer da física o seu modus vivendi.

Que casal, que pessoas de uma personalidade e simpatia extraordinária.
Ficamos algum tempo, bastante tempo hospedados em casa deles...
Eles adoravam receber os amigos dentro de casa... O mobiliário de sua casa era todo em acrílico – misturado com imensas antiguidades – aparadores –arte sacra - relógios antiqüíssimos – de um gosto aprumado e soberano.
A sua sala de jantar era bastante ampla e aproveitávamos os jantares que nos eram oferecidos, com muita prosa salutar e agradável.
Estávamos em lua de mel, todos os momentos se tornavam únicos e aprazíveis, tudo para mim era novidade, as praias lindíssimas, o convívio com as pessoas, o simples acordar e tomar o café matinal junto ao mar, ouvindo o som das pequenas ondas junto á areia.
O nosso pequeno lar ficava juntinho á praia... Era bom de mais...
Angélica, não bebia bebidas alcoólicas, mas Richard, de quando em vez acompanhava-me, num vinho branco bem gelado (de preferência Português) ou então num belo e borbulhoso espumante...
Estes eram os nossos finais de tarde, depois de longos passeios (tínhamos alugado um carro) pelas praias ao redor – acho que percorremos todas as praias que foram sugeridas, num redor de cinqüenta kilometros.

Ás vezes atravessávamos de barco e íamos até Porto Seguro – conhecer um pouco da História – da Bahia e do Brasil, indagando quem tinha sido fulano ou beltrano – qual o seu papel na construção deste Brasil – Indígena, Português e Africano.
Constantemente, penso sobre a epopéia dos descobrimentos Portugueses e o que levou os meus antepassados, a desbravarem esses mares nunca antes navegados. A coragem a determinação de um povo, que procurando sobreviver, encontrou novos povos, novas culturas novas gentes... Gentes diferentes por esse globo terrestre fora.
Tento imaginar o que seria no século XV e XVI viajar dentro de uma nau, atravessando durante meses e meses os oceanos perfeitamente desconhecidos, com intempéries e passando por lugares que se julgavam inultrapassáveis, porque os relatos anteriores diziam que havia monstros (enfim lendas que foram desmistificadas pelos bravos e destemidos marinheiros Portugueses).

Acho que sem convencimento algum, nem melindrando ninguém, posso afirmar, com as devidas proporções temporais, que podemos comparar a importância dos descobrimentos Portugueses, á viagem do primeiro homem á lua...
Agora estava junto, ao que foi o primeiro local de desembarque dos marinheiros Portugueses, quando resolveram aportar em terras de Porto Seguro.