terça-feira, 9 de novembro de 2010

Vigésima Segunda Dose de Pílulas do Livro...

O vício do mestre o cigarro conduziram a duas realidades, distintas, mas provocadas ambas pelo fumo.

Beto infelizmente sofreu um infarto em cinco de março desse ano e teve internado algumas semanas...
Deixei de fumar nesse mesmo dia, assim que vi que, mais tarde ou mais cedo poderia acontecer comigo...

Quando tiramos algumas ilações de coisas negativas e as transformamos em exemplos benéficos para nós, estamos a ser no mínimo inteligentes.

O mestre transformava tudo em brincadeira, mesmo as situações complexas se tornavam hilariantes.
Fez um cateterismo e colocou duas argolas nas artérias, a sua alimentação muito natural e o fato de não parar um minuto o ajudaram a ultrapassar este pequeno contratempo, segundo informação médica.
De médicos não gostava nem de ouvir falar, tem algumas mazelas que o incomodavam, mas ninguém consegue levá-lo a uma consulta médica. Um dia nem eu sei como, fui buscá-lo pela manhã ao Cabula e acedeu a ir a uma consulta com um Angioplasta... Milagre.

Naturalista por excelência leva a vida, como a vida o levasse...

Dias após o infarto, começou a querer fumar dentro do hospital, reclamava da comida que não tinha sabor, (era verdade, mas o estado de saúde exigia cuidados) conseguiu ninguém sabe comprar um cigarro por um preço exorbitante e fumá-lo, como se fosse pela primeira vez.
Carla não gostou quando soube da história, eu sorria, porque sabia que aquele homem vivia sempre no seu próprio limite, desafiando alguns paradigmas e conceitos pré-estabelecidos.

Se não fosse um desafiador com uma imaginação fértil e com um conhecimento agregado ao longo dos anos, nunca teria conseguido criar essa maravilhosa culinária experimental baiana.
Voltou a fumar passados algumas semanas, eu parei para sempre, pelo menos até hoje.

Alguns  amigos se juntavam ao final da tarde, para tomar um vinho e fumar um charuto perto da árvore bendita.
Reinava por vezes uma paz uma tranqüilidade naqueles finais de tarde sem chuva e com uma pequena brisa, que refrescava quem ali ficava.
Bel, Dudu, Tom, Rui, por vezes Ivan, quando estava em Salvador, Bruno, Licia, apareciam sempre que o trabalho permitia, para relaxar e jogar conversa fora, ou tratar de assuntos mais sérios.
O espaço mais parecia um SPA que convidava ao relaxamento.
Quem me quisesse encontrar, sabia que quase todos os dias eu me sentava por alguns minutos, naquele preciso lugar, olhando para o nada ou simplesmente pensando em coisa nenhuma.
Ter um restaurante já é bastante cansativo e trabalhoso, mas um Paraíso que movimentava tanta coisa, ainda se tornava mais difícil, então aqueles momentos eram sagrados.

As empresas procuravam-nos com propostas de parcerias, nem sempre vantajosas, para o nosso negócio.

Tínhamos participado da Casa Cor, com um espaço especialmente criado para nós junto ao mar, nos armazéns da Codeba, deu-nos alguma visibilidade e muito trabalho de logística, entramos em alguns eventos e não eram poucos, como parceiros, (sem usufruir de verba alguma) divulgando alguma culinária nossa, ou os nossos famosos sucos ou as nossas famosas Roskas, propunham-nos permutas que não eram do nosso interesse, todos os santos dias aparecia alguma coisa.
Bons negócios são raros, mas existem.

O Hipercard tinha um cartão super popular com pouca penetração nas classes mais favorecidas, o seu departamento de Marketing fez um estudo de mercado e chegou á conclusão que haveria necessidade de agregar algumas marcas de qualidade, como o Paraíso Tropical ao seu nome.
Para o efeito nos contatou, tentando sentir quais seriam as nossas necessidades prementes.
Foquei que no meu ponto de vista, brindes dentro do nosso espaço não agregariam nada de novo, pois levaria o cliente a pensar que era mais uma ação de divulgação como outras anteriormente feitas pela marca.
Perguntaram o que eu sugeria de novo.

Na realidade, se a marca quer adicionar novos elementos que valorizem e que em médio prazo o consumidor olhe para o cartão sem relutância de tê-lo, temos de valorizar a imagem do cartão de crédito.

Sugeri na mesa de reunião com o responsável e diretor regional, que se criassem sete outdoors espalhados pela cidade, onde o artista visual Bel Borba, pintasse ao vivo durante alguns dias intercalados, para criar um impacto na população de Salvador e na mídia.
Para o feito seriam colocadas estruturas em locais chaves, com uma tela em branco, a anunciar que Bel Borba estaria presente no dia tal.
A idéia foi prontamente aceite, pelos responsáveis do cartão Hipercard, só me pediram uns dias para terem o projeto aprovado pela administração em São Paulo.

Vim a conhecer depois, o Administrador e Presidente do Cartão, Ivo Vieitas, com quem tive uma ótima relação pessoal, tornou-se nosso cliente assíduo e mais que pareça estranho, vinha de São Paulo, propositadamente, só para comer o nosso famoso “Arroz de Polvo”.
Marcamos uma próxima reunião, já com a presença de Borba e com a minha agencia de publicidade que tinha criado a logomarca, que chamei para fazerem parte do projeto e ganharem também alguma notoriedade e verba.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Vigésima Primeira Dose de Pílulas do Livro...

Esse verão recebemos algumas personalidades do mundo desportivo, do meio artístico e cinéfilo mundial.
Eusébio da Silva Ferreira o mais importante jogador Português de futebol de todos os tempos, melhor jogador e marcador do Campeonato do Mundo de mil novecentos e sessenta e seis, realizado na Inglaterra em que Portugal treinado por um Brasileiro Otto Glória, se classificou em terceiro lugar, duas vezes Campeão Europeu de clubes pelo Benfica de Lisboa e atual Embaixador Vitalício da Seleção Portuguesa.
Costa Gravas um dos mais importantes e atuais realizadores de cinema da sua geração.
O Espanhol e mais mediático realizador de cinema Pedro Almodóvar.
O vencedor do Oscar e ator Espanhol Javier Bardem.
Quem nos dava a honra e apresentava a nossa culinária a tão ilustres personalidades, chama-se “Caetano Veloso”.
Caetano sempre que vinha a Salvador, passava pelo Rio Vermelho, para degustar alguns pratos da nossa culinária e beber o suco de Jambo, acompanhado de alguns amigos e da sua mulher Paula Lavigne.
Sempre discreto, ficava na parte de baixo da casa, na área externa ou então junto á amendoeira.
Avesso a fleches queria tranqüilidade e sossego, os garçons estavam habituados com a freqüência da casa e sabiam sempre como proceder nas situações mais delicadas.

Certa noite Caetano apareceu para jantar. O Maitre chamou-me eu estava no escritório.

- Sr. Ricardo, Caetano está na casa e quer falar consigo, subi as escadas, Caetano estava junto á árvore sagrada da casa com umas seis pessoas, reparei que alguém que o acompanhava me chamava à atenção. Quem era, eu conhecia aquele individuo, era estrangeiro e estava vestido com calças jeans e camisa azul.

A noite estava soberba, o ar circulava pelas flores e plantas que decoravam o restaurante, o céu estava claro e especialmente estrelado, as luzes em volta da amendoeira davam um ar de penumbra iluminada, Caetano explicava em inglês o que era o restaurante e que tipo de culinária se fazia ali, o indivíduo abanava ligeiramente a cabeça como que concordando com o que estava ouvindo, esperei que a conversa acabasse, estendi a mão cumprimentei-o, Ricardo queríamos jantar aqui perto da amendoeira podes colocar umas mesas, o restaurante estava cheio, ouvi uns cochichos, clientes olhavam para nós, não havia mesas junto á Amendoeira para jantar, servia de área de espera, mas Caetano solicitou queria um pouco de privacidade com os seus convidados.
Chamei o Maitre meu xará e colocamos os lugares para todos se sentarem confortavelmente.
Após alguns minutos lembrei-me quem seria aquele individuo.

O ator Norte Americano “Matt Dilon”. Não queria acreditar que Matt Dilon estava em Salvador e logo ali no Paraíso Tropical.
Chamei os garçons e recomendei que só um, os servisse para evitar incômodos e que evitassem que alguém se aproximasse, para tirar fotos.
O jantar decorreu otimamente bem e prolongou-se por bastante tempo.
Estavam no restaurante dois jornalistas da Folha de São Paulo, que assim que Caetano chegou, chamaram-me para confirmar quem era o homem vestido de camisa azul.
No final da refeição pedi a Caetano, se podia tirar umas fotos com ele e Matt Dilon, disse que sim, mas só com uma condição, que eu não publicasse as fotos em nenhum órgão de comunicação social, já que Matt tinha pedido a maior descrição na sua passagem por Salvador.
Dia seguinte pela manhã comecei a receber várias chamadas telefônicas, tanto para o meu aparelho móvel, como para o restaurante, questionando se eu me importava de entregar as fotos para publicação em algumas revistas de âmbito nacional.
Confirmei que possuía as fotos, mas por motivos de compromisso e de palavra com Caetano Veloso, não poderia fazê-lo.
As fotos ficaram expostas junto ás outras no nosso painel de clientes ilustres que visitavam o nosso templo gastronômico.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Vigésima Dose de Pílulas do Livro...

Aconteciam quase todos os dias telefonemas, para acedermos a entrevistas e reportagens sobre a nossa culinária experimental.
A Televisão Bandeirantes em São Paulo contatou-nos no sentido de fazerem uma reportagem, mostrando como nos tínhamos conhecido. Queriam divulgar um pouco da nossa história de vida.
Em pleno verão seria ótimo para o negócio. Queriam ir a nossa casa, para conhecerem mais de nós.
A entrevista decorreu com a maior descontração, quem conduziu a entrevista e conversou conosco foi à artista e cantora Baiana Gilmelândia; super divertida e simpática.
O Discovery Chanel em espanhol veio a Salvador conhecer os restaurantes do Cabula e do Rio Vermelho e fazer algumas filmagens nos nossos espaços, aproveitando o ensejo para conversar e gravar.

Nesse verão de dois mil e cinco, tudo funcionava em prol do nosso negócio: Os órgãos de comunicação social a tudo o custo queriam saber quais as novidades que aconteciam no nosso espaço.
A assessoria de imprensa trabalhava a todo o gás, para a confirmação da excelência da gastronomia do mestre Beto e da sua imagem de Grande Chef da culinária experimental Baiana.

Fomos convidados para um almoço na casa que Filomena tinha arrendado durante a sua permanência como Cônsul de Portugal. Ficava no Morro da Paciência no Rio Vermelho, a vista era deslumbrante, pois tinha sido construída de frente para aquele mar imenso e infinito.
Diversas pessoas confraternizavam naquela tarde ensolarada de verão.

Rubens Gershman fazia parte desse grupo tão especial.
Fui apresentado ao grande artista visual Brasileiro. Viveu nos tempos da ditadura em Nova York e a sua casa tinha abrigado muitos dos exilados políticos de então.
No dia seguinte fomos para uma feijoada, das muitas que aconteciam um pouco por toda a cidade e á noite convidei-o para conhecer o Paraíso Tropical.
A sua sensibilidade e observância em relação ao que nos rodeava, chamou-me a atenção. Despediu-se de mim com um abraço caloroso.

Já não se encontra neste planeta, partiu para uma viagem mais longa...

Encontrar-nos-emos um dia.

Desde pequeno e muito novo o que mais me interessava eram as histórias que a senhora minha mãe e a senhora minha avó materna me contavam.
Fui crescendo e as conversas se tornaram mais amplas.

Para isso contribuiu um senhor que se chama Roldão e que é o meu progenitor.

Com ele aprendi a conhecer e a respeitar o saber. A ouvir e ser ouvido a falar e a escutar o que aqueles que sabiam mais, tinham para dizer...
Longas conversas com esse sábio senhor meu pai.
Homem de poucas palavras, poucas falas, mas de grande saber intelectual.
Ser de grande cultura e de imensa espiritualidade superior.
Digo sempre, que o senhor meu pai, já não retornará para evoluir após esta encarnação.

Aquela casa sempre teve um quê de mágica.

Sentado na varanda estava um senhor aparentando longa vida de conhecimento, ao seu lado esquerdo a sua lindíssima esposa.
Normalmente e sempre que podia, passava pelas mesas, perguntando se estava tudo bem, ou se precisavam algo.
Nessas minhas triangulações deparei com esse ser de olhar profundo e meigo com uma leve deficiência na postura dos ombros e cabeça.
Indaguei se estava tudo ótimo, respondeu que sim e sentindo o meu sotaque de Português de Portugal afirmou: você é Alfacinha! Mais ou menos, respondi.
Cresci em Lisboa e vivi lá desde mil novecentos e setenta e cinco até aos meus trinta e sete anos de idade, mas nasci em Angola na cidade do Lobito. Como soube que eu era Lisboeta? Pelo sotaque, respondeu aquele homem de olhar inteligente e perspicaz.

À hora era de almoço, num domingo inicio da tarde.

Quem era aquele senhor que pelo sotaque, sabia que eu tinha absorvido a forma rápida e aberta de falar dos Lisboetas.

Convidou-me para sentar na sua mesa.
Sebastião Nery era o seu nome.
Quem alguma vez teve a oportunidade de conversar com este homem simples, mas de um conhecimento doutrinário da vida, sabe a que me refiro.
Começamos a conversar e as palavras saiam dele naturalmente sem esforço algum de memória.
A sua linguagem é acessível e simples, conversa, como quem conta levemente os números de um a dez.

A percepção do seu discurso é leve e fácil...

Um dos maiores e mais respeitados intelectuais brasileiros, Jornalista, Político, Escritor, Baiano de nascimento, lutador antifascista, de formação católica e teológica, enfim uma verdadeira enciclopédia de conhecimento vivo. E eu estava ali sentado e ouvindo.

Para mim aqueles momentos de aprendizagem lembravam as dissertações do senhor meu pai.

Sebastião Nery sabia tudo sobre a história recente e menos recente de Portugal. Amigo de várias personalidades portuguesas de nomeada, Mário Soares que foi Presidente da Internacional Socialista, Primeiro Ministro e Presidente da República de Portugal, Álvaro Cunhal durante muitos anos Presidente do Bureau Político do PCP e um dos grandes lutadores antifascistas, José Saramago escritor de renome mundial e Prêmio Nobel da Literatura.
Conhecia todas as personalidades que fizeram a história nos últimos quarenta anos neste planeta e tinha também participado de algumas mudanças que aconteceram por esse mundo afora.

Para mim era uma honra...

Eu tentava emitir a minha opinião sobre alguns assuntos, com muito cuidado é claro, para não parecer presunçoso, até porque á minha frente estava um verdadeiro “Magíster”.
A prosa foi acontecendo naturalmente e as horas foram passando.
Por vezes concordava comigo e levava o meu raciocínio para outras paragens. Sebastião Nery tem histórias incríveis que fazem parte da vivencia de muitos indivíduos.

O pai de Bruno Nunes foi Deputado Federal e era homem de muita coragem e determinação.
No meio da ditadura Sebastião Nery estava a ser perseguido pela policia por toda a Bahia, na tentativa de o prenderem. Estava escondido e fugido há alguns dias.
Paulo Nunes soube que o amigo precisava de ajuda e arriscando a sua própria liberdade, prontificou-se a levá-lo no seu carro, durante horas, até Minas Gerais, onde possivelmente poderia escapar de ser preso.
Contava esta e outras histórias mostrando um agradecimento a quem o tinha ajudado a chegar até ali.

Os amigos nunca se devem esquecer, dizia... Devemos honrá-los.

Aquele domingo tinha passado já se fazia noite, como o tempo fluiu quando as palavras são soltas naturalmente sem preconceitos e não tínhamos a percepção.

Estivemos juntos mais algumas vezes, mas aquela tarde ficará guardada na magia do templo da Rua Feira de Santana.



quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Décima Nona Dose de Pílulas do Livro...

Este ano de dois mil e cinco a cerimônia de Yemanjá, dia dois de Fevereiro calhava numa Quarta-feira véspera de carnaval.
O sagrado e o profano juntos... Só mesmo nesta terra maravilhosa algo assim poderia acontecer. Aguardava-se que as duas festas se misturassem transformando Salvador na capital religiosa e da alegria...

Comemoraria a data do meu aniversário no dia cinco de Fevereiro Sábado de carnaval.

Meses antes Dona Licia tinha-me chamado ao seu gabinete, para uma reunião, relacionada com o carnaval: Gostariam de participar um dia no camarote de Daniela mostrando a vossa culinária? Prontamente disse sim.
A visibilidade é imensa, por noite passam pelo camarote na Barra cerca de mil pessoas. Teríamos de confeccionar comida para esse número de ilustres convidados vindos de todo o país e não só... Que desafio.
Combinei tudo com Beto escolhi os colaboradores para nos ajudarem na tarefa e eis chegados o dia.

Solicitei a Licia que o dia escolhido para o Paraíso Tropical mostrar a sua gastronomia inovadora fosse o Sábado dia cinco... Era o dia mais concorrido para os restaurantes convidados.

Para mim seria um momento único.

O Paraíso iria fazer um jantar no Camarote de Daniela Mercury, para todos os convidados e logo no dia cinco de Fevereiro data do meu aniversário... Para poucos, pensava eu.

A criadora do camarote uns dias antes da festa começar, fica incomunicável ou no seu escritório ou na sua residência, fazendo a lista de convidados para os cinco dias da folia.
Toda a gente tenta falar com ela, solicitando pedindo camisetas para participar do grande evento.

A organização é impecável a noite toda até altas horas da madrugada, o serviço não para e nada falta. Constante desfile de estrelas...
Licia tinha-nos oferecido camisetas para todos os dias e em especial uma quantidade apreciável para a data do meu aniversário.
Tinha convidado os meus amigos mais íntimos e familiares, alguns ofereci a camiseta a outros solicitava que quando lhes fosse oferecida sugerissem a data de Sábado.
Imaginem o que é estar no camarote em pleno Sábado de carnaval na companhia de muitos estimados amigos e ter a satisfação de escutar os maiores cantores de todo o Brasil em cima dos vários trios elétricos...

Eu pensava a todo o instante. Que show particular; e brincava com os meus convidados dizendo: Chiclete, Ivete, Daniela, Brown e Claudinha estão aqui para nos prestigiar, que privilégio;

Todos sorriam e compreendiam que aquele desabafo era tão só, a expressão simples da minha felicidade.

Com muito trabalho e a ajuda de todos, a nossa culinária foi sendo conhecida e reconhecida e os banquetes tinham dados os seus frutos.
Qual era o custo de tudo isso!
A transformação valeria à pena!...
Talvez só o grande poeta português e universal “Fernando pessoa”, explicasse...
A noite terminou em grande comemoração, alguns presentes cantavam o parabéns a você esperando que eu apagasse as velas do bolo, para poderem provar do mesmo.

Na Segunda Feira estávamos com alguns amigos trocando idéias e fazendo resenhas de tudo o que até então tinha acontecido, quando se aproxima o trio da cantora que dava o nome ao camarote.
Daniela vinha como sempre linda, é de um cuidado fora do comum com o visual e a coreografia.
Sempre a inovar. Bailarina de formação o movimento agregado á sua linda voz fazem sempre dos seus shows algo diferente.
Em cima do seu trio elétrico tudo pode acontecer para delírio dos que têm o prazer de escutá-la.
Mistura musica eletrônica, musica clássica ou uma simples orquestra com axé.

A Rainha do Suingue Baiano, ou simplesmente a “Eterna menina da Bahia.
O tempo estava chuvoso, tinha começado a chover no dia anterior, mas o calor mesmo assim se mantinha.
Daniela passa em frente ao seu camarote com o publico vibrando ao som das suas musicas ritmadas.
Fala para o camarote agradece a alguns presentes, como sempre faz e começa a cantar as águas de oxalá, o trio vai deslizando lentamente, afastando-se da sua tribuna de honra, em direção ao bairro de Ondina.
Começa a chover torrencialmente, mais parecia um dilúvio, alguém tinha aberto a torneira lá em cima, talvez São Pedro. A chuva se mistura com o vento, rajadas de vento contínuas, as coberturas e toldos dos camarotes perto de onde nos encontrávamos, rasgavam-se, pareciam feitos de papel.

O toldo do nosso camarote também se solta, chove perto de nós...

O nervosismo se apodera de alguns convidados, a situação está controlada, mas a chuva e o vento tinham estragado aquela Segunda Feira de carnaval.

Fui embora com Carla por volta da meia noite e meia, amanhã haveria a continuação... E houve, a chuva deu uma trégua, o camarote tinha ficado sem condições de funcionar no dia seguinte. Mas a Dona licia não baixou as mãos, antes pelo contrário, ligou para mim na Terça Feira pela manhã pedindo que avisasse as pessoas amigas, inclusive a Cônsul de Portugal Filomena Croft de Moura, que a festa continuaria no Ginásio da Associação Atlética. Lá estava ela organizando tudo e todos.

Daniela nos prestigiou com um pequeno show e ainda chamou alguns artistas, que dividiram o momento daquela Terça Feira de carnaval.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Décima Oitava Dose de Pílulas do Livro...

O estreitar relações humanas é algo muito importante para qualquer de nós, pois através delas a aprendizagem se torna mais fácil e acessível.

Ivan Trilha é um especialista nesse estreitamento energético entre os seres humanos.
Doar, para que essa energia dada com o coração sem falsidade retorne em dobro, através de um simples, muito obrigado.
Combinou comigo, Bel e Bruno certa noite fazermos, aquilo que chama de regadeira de rua.
Regadeira no sentido de regar algo, que depois cresça de uma forma normal e natural.
Regar o carinho a amizade o amor, ou então simplesmente utilizar a doação como uma espécie de regador desse amor.
A nossa experiência foi muito singela e bonita...

Fomos os quatro por aquela noite fora, com o carro carregado de bolachas, pacotes de leite, bombons de chocolate, parando em locais onde encontrávamos pessoas necessitadas sem lar ou simplesmente trabalhando na mais velha profissão do mundo.
- Vamos parar aqui, dizia Ivan. Saia do carro sorridente, sabendo que estava a fazer alguém feliz naquele preciso instante.
- Muito boa noite, cumprimentava os presentes abanando a cabeça de cima para baixo, como que reforçando o cumprimento.
- Isto é para vocês, eu e os meus amigos estamos fazendo uma regadeira de rua, tomem. Estendia a mão á espera que alguém aceitasse aquele gesto simples de carinho.

Inolvidável a experiência que todos sentimos a cada ato de doação...

O sorriso das pessoas era o mais importante elemento da nossa satisfação, por vezes ficavam perplexos ao receberem das mãos daquele ser o que quer que fosse.
Sorriam sem saber o que dizer, tudo era tão espontâneo e intenso que as pessoas ficavam a acenar-nos ao longe agradecendo continuamente aqueles segundos de ternura.

O professor era o indivíduo mais feliz naquela noite e tinha-nos ensinado na prática mais uma aula de vida.

O médico ginecologista que acompanha uma mulher desde o primeiro instante da gravidez torna-se de tal maneira importante, que se estabelece, uma relação de interação e de total confiança com a grávida.
Carla tinha essa relação com o médico que escolhera para acompanhá-la até ao ultimo instante. Excelente profissional, bom amigo.
Foi seguida pelo seu médico, com todos os cuidados possíveis, desde o receituário, vitaminas, ácido fólico, assim como as ecografias foram efetuadas nos momentos julgados oportunos e aconselháveis.
E foi através de uma ecografia, estava Carla com mais ou menos vinte e duas semanas de gravidez, que o médico começou a desconfiar de algo.
Ricardo e Carla espero que nada seja de anormal, mas noto o quadril da criança, menor do que o tamanho normal nesta altura; De certeza que não deve ser nada de preocupante, mas mesmo assim, Carla terá de fazer um exame aqui com a minha colega e a recolha do liquido amniótico, será enviada para Belo Horizonte.
Não entendi nada... Belo Horizonte, porque não aqui? O que se passa doutor? Pode-nos explicar? Pode ser mais objetivo, por favor?
Nisto Carla estava extasiada, não sabia sequer o que dizer! Calmamente e vendo o nervosismo que tinha se apoderado de nós, o médico tentava a todo o custo, explicar o que acontecia naquele preciso momento.
Desconfio que estejamos com alguma dúvida em relação ao crescimento do feto, Carla começou a chorar compulsivamente, eu não sabia que fazer, tentar acalmá-la foi o que fiz... Não vai ser nada, tem calma, Deus vai ajudar-nos, não chores, não chores...
A recolha do liquido amniótico foi feita e enviada para Minas Gerais, pois somente lá dariam a resposta em vinte e quatro horas.
A espera do resultado foi algo de inexplicável. A angústia se apoderou de nós, a tristeza tomava conta das nossas mentes. Rezávamos para que o resultado fosse favorável e que nenhuma anomalia existisse. Tínhamos tudo preparado para a vinda da criança.
Como a fé e a esperança, tomam conta das nossas mentes, quando estamos em situações limites e esperamos ansiosamente a ajuda divina.
Infelizmente a fé e a esperança, não foram suficientes.
O nosso mundo começava a desmoronar-se a aos poucos. Tentava consolar a minha mulher, mas não tinha forças para fazê-lo.
A criança estava com malformações múltiplas e não ia sobreviver, até ao final da gravidez, Carla corria grave risco de saúde...
Eu queria pisar o chão, mas não encontrava o piso...
Fomos a outro médico, o maior especialista da Bahia, a conclusão era a mesma, anomalia congênita, malformações múltiplas.
Um caso em cem mil... Meu deus, Meu Bom Deus, logo conosco.
A minha mulher, perdeu a criança em Janeiro do ano de dois mil e cinco.
No dia que perdeu espontaneamente a criança na maternidade, o estado de saúde de Carla agravou-se, por uma súbita febre que teimava em permanecer, apesar da medicamentação.
Liguei para o telefone móvel de Ivan Trilha, estava em Belo Horizonte, no seu consultório atendendo. Professor bom dia preciso da sua ajuda...
Ás quatorze horas desse mesmo dia, fui ao aeroporto buscar aquele ser extraordinário cheio de sapiência e de conhecimento do alto astral.
Tinha respondido ao meu apelo por amizade e respeito.
Foi ao hotel mudar de roupa, vestiu-se de branco pediu uns momentos de silencio, deixei-o sozinho por breves instantes.
Passados uns minutos disse: vamos Ricardo, leve-me, por favor, ao hospital. Assim fiz.
Quando cheguei ao quarto, estavam duas tias e uma prima com Carla.
Ivan solicitou que o deixássemos a sós.
Após uma hora, Ivan saiu, olhou para nós e disse: está tudo bem, Carlinha vai ficar ótima. A Febre baixou o estado de prostração desapareceu e os presentes indagavam: quem era aquele homem? Obrigado amigo...
Alguns dias após liguei para Lícia e disse-lhe que tinha conhecido um ser humano grandioso e que fazia questão que ela conhecesse...

Com todos os precalces inerentes ao desenvolvimento e evolução do ser humano, a vivência e a aprendizagem faziam de mim um ser mais maduro, com um conhecimento e saber de experiência feita.
Olhava para trás e denotava que apesar das contingências, tinha originado uma transformação uma mudança.

Um verdadeiro banquete onde tudo entrelaçava e se unia á volta de algo.

A casa no Rio Vermelho e o restaurante que existia dentro dela, tinham-se tornado um verdadeiro ponto de referência; um templo...

Originaram-se mudanças naturais sem ninguém se aperceber de como tudo ia acontecendo, pouco a pouco. A comida deliciosa e inovadora foi cedendo o lugar á culinária glamorosa e cheia de requintes; Agregamos lentamente e sem sabermos alguns pormenores que alteraram a visibilidade da culinária. O espaço e a logística existente foram primordiais nessa alteração.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Décima Setima Dose de Pílulas do Livro...

Pois foi Bruno Nunes que nos apresentou “o cavaleiro do novo milênio” Ivan Sol Trilha, com quem Bruno tinha convivido anos antes, na cidade maravilhosa cheia de novidades e loucuras.
Falar de Ivan Trilha é muito complexo, devido á sua imensa vivência por esse mundo afora.
Professor, Guru, Mentalista, Terapeuta Holístico, Médium, Vidente, para a maioria...
Para mim é o amigo e verdadeiro irmão de outras vidas passadas.
Sempre disposto a ajudar, porque a sua missão, a que lhe foi incumbida, estará sempre subjacente á sua personalidade e caráter.
A energia é o fator primordial das suas intervenções, trabalha-a, porque segundo ele, tudo o que nos rodeia é energia.
No universo no cosmos ela flui constantemente, devemos aproveitar os momentos que nos são oferecidos.
Bruno contava algumas situações que tinham acontecido no Rio com Ivan anos antes, nós ouvíamos.
O seu poder através da mente, as coisas que tinha feito as tentativas de ajudar sempre, quem deveria ser ajudado, as suas sinergias em prol do bem comum.

Ivan Trilha é um professor em unificar e unir os sentidos das coisas e traçar-lhes rumos certos.

Fala ás vezes por Parábolas ou Metáforas têm por isso de decifrar o verdadeiro sentido das suas sábias palavras. Poucas vezes é direto, só quando pode fazê-lo, mas sempre é objetivo e linear.
Estávamos sentados junto á amendoeira.
Ivan estava acompanhado da sua esposa Mackelene, ouvindo as dissertações de Bruno, contando todas as vivências passadas.
Olhava para o movimento do restaurante sem nada dizer, observava cada detalhe, que lhe despertasse algum sentido adormecido.
Adorava ficar perto da amendoeira – Esta árvore tem uma energia especial, Ricardo este espaço é mágico, dizia o professor, fumando o seu longo charuto especial.
Dialogava comigo a todo o instante como se nos conhecêssemos á longos anos. Ivan não via Bruno, que considerava seu filho há quatorze anos e tinha vindo para Salvador, passar uns dias de descanso com a sua estimada Mackelene.
A história deste homem é repleta de acontecimentos, não gosta de falar dela a não ser para muito poucos, os amigos de casa, como diz.
Filho adotivo do ex-presidente do Brasil, João Goulart, desde muito novo conviveu com os fenômenos psíquicos e extras sensoriais o que levou a ser considerado em mil novecentos e setenta e nove em Bogotá, o primeiro mentalista do mundo, na primeira reunião internacional sobre fenômenos psíquicos.
Percorreu o planeta desenvolvendo uma série de trabalhos sobre a mente humana. Estava agora em Salvador e esta seria a primeira das muitas vezes que nos visitaria.
O restaurante tinha uma clientela muito boa, tinha ganhado nome e estava solidificando a sua freqüência.
Só famosos e famosas, artistas, políticos, publicitários, músicos, estilistas, havia dias de autênticos desfiles de Vips: José Simão, o Pres.do BID- Henrique Iglesias, Duda Mendonça, Paulo Borges, Faus Hauten, Sandra de Sá, Luana Piovani, Ricardo Mansur, Luis Fernando Guimarães, Marisa Orth, D. Zélia Gattai, Senador António Carlos Magalhães, Margareth Meneses e tantos outros...
Freqüentemente contatavam para fazermos eventos para empresas ou queriam utilizar o nosso espaço, muito agradável, como diziam, para festas de aniversários ou datas comemorativas.
Fazíamos alguns orçamentos a preço baixo, com pouco lucro, para ganharmos os clientes e a simpatia dos mesmos. Estávamos ainda no inicio e seria necessário aprender como lidar com algumas novas situações.
Os nossos clientes queriam por vezes, cardápios diferenciados, com frutos do mar, o que encarecia o custo final do evento. Montávamos normalmente três orçamentos diferenciados, para haver uma maior opção de escolha.
Carla sabia como fazê-lo e a sua simpatia conquistava a maioria e a sua gravidez chamava a atenção.
Final do ano em Salvador tem de se ter cuidado para não se perder a forma.
Feijoada atrás de Feijoada, eventos e mais eventos e nós éramos convidados para tudo.
Evitava ao máximo, tornar um habito essas constantes festas, até pelo estado da grávida.
A barriguinha de Carla estava muito bonita, notava-se, era uma grávida linda.
Uma menina, o nome da criança seria Inês, em homenagem á minha avó materna, que eu tanto amava e que tinha desencarnado um ano antes.
Fomos aos poucos comprando o enxoval e recebendo alguns presentes.
No Natal e Réveillon desse ano, a mãe do bebê irradiava felicidade...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Décima Sexta Dose de Pílulas do Livro...

O outro entrevistado para o programa que estava a ser gravado era um artista visual, de tez morena e bigode extenso levemente puxado para os lados, tipo português do início do Século XX.

Com muita boa dicção notava uma rapidez de raciocínio grande e uma postura muito correta perante a entrevistada.
Quem era aquele homem de meia idade que aparentava ser um cavalheiro.
Tinha observado quando da sua chegada, a sua esmerada educação ao cumprimentar todos os presentes com a maior das simplicidades. Estava acompanhado de uma senhora, a qual se sentou à mesa ao lado da minha, gentilmente, este cavalheiro baiano puxou a cadeira para a senhora se sentar.
Eu estava a tomar um Vinho Português (concerteza) da Região de Palmela Reserva João Pires, quando a entrevista terminou.
De seguida Luzia Santana chamou-o pelo nome, Bel vem conhecer o sócio e genro de Beto.
Conversamos à tarde quase toda e tomamos algumas Reservas de Palmela, entre histórias, risos e gargalhadas.
Começava naquela tarde uma amizade que dura até ao dia de hoje.

Alberto José da Costa Borba – refletir sobre este homem que se tornou meu amigo em terras de Salvador, torna-se fácil e difícil ao mesmo tempo. Parece contraditório este raciocínio.
Fácil porque o relacionamento de irmandade existente e a identificação que daí resultou, aproximou o meu olhar e conseqüentemente abriu as portas do conhecimento e da amizade.
Difícil porque esse conhecimento e essa amizade verdadeira fazem com que o meu olhar se torne mais incisivo ás vezes critico, ou ousado.
Já fizemos muita coisa juntos, em termos de criatividade de entre ajuda de lazer e de saber.
Mais uma vez tento colocar a amizade de lado para analisar o Artista Bel Borba. Neutralidade neste caso é difícil.
Unanimidade é a palavra para descrever este homem simples de nome Borba.
A identificação entre as pessoas acontece, quando há algo em comum ás vezes basta um traço simples.
Aquariano verdadeiro extremamente rápido de raciocínio e de ações.
Observar Bel a produzir é extraordinário e interessante, produz e cria,
Com uma rapidez incessante, não pára enquanto a sua criação não está terminada.
Andar pela cidade de Salvador e vê-la decorada pelos trabalhos de Bel é uma satisfação.
Transformou Salvador numa galeria de arte, onde todos possam ter acesso. Paredes, muros, encostas, casas, todo o local possível, Bel faz as suas intervenções de mosaicos de azulejos e de esculturas.
O artista mais multifacetado da sua geração.

A acessibilidade é a grande relevância da sua obra, tornou acessível a todos, aquilo que se presumia que era só para alguns...

Com isso, a imensa visibilidade das suas intervenções. Pinta, esculpe, desenha, trabalha com os mais variados materiais, inovador e criador por excelência, os seus trabalhos sempre surpreendem pela sua contemporaneidade: Madeira, barro, ferro, acrílico, materiais recicláveis, tudo serve para este homem/menino se auto-recriar.
Como ser humano Borba é imenso, idêntico á sua obra...

Carla estava grávida, radiantes e felizes com a notícia estávamos todos.
Momentos únicos na vida de qualquer mulher e ainda o primeiro filho.
Combinamos uma coisa; se fosse menino ela escolhia o nome da criança se fosse menina escolheria eu.
Os meses que se seguiram até Janeiro de dois mil e cinco, foram de extrema felicidade, Carlinha ia ser mãe e toda a sua doçura e carinho transportava para aquele ser que germinava dentro do seu ventre.
O seu rosto começava a mudar aos poucos e a sua fisionomia igualmente, sorria com facilidade, parecendo querer dizer alguma coisa, a quem olhava para si.
Começava a notar com maior freqüência nas outras mulheres grávidas ou com crianças recém nascidas. Olha Ricardo, olha que bebê lindo! Dizia constantemente a futura mãe.
Como que por um passe de mágica, a gravidez veio alterar as nossas vidas, fazendo com que a energia se tornasse única e verdadeira. Iria nascer um ser, resultado de uma união que tinha começado um dia, durante o carnaval.

Um sábado á noite um garçom chamou-me e comunicou-me que estava presente no restaurante um senhor que dava pelo nome de Bruno Nunes, que sabia que eu era Português e queria falar comigo.
Na mesa estavam sentados, ele e a sua esposa, uma bonita mulher, elegante e muito bem vestida que chamava a atenção de todos.
Cumprimentei-os e quase de seguida afirmou: Muito bom gosto musical você tem! Sorri e agradeci. Obrigado, porque diz isso? Eu sou músico e é raro irmos a um restaurante e ouvirmos tão boa seleção musical. Agradeci mais uma vez o elogio e solicitei que me trouxessem um cd especial, que eu reservava para momentos como este.
Bruno era músico, compositor e interprete das suas músicas e durante a nossa longa conversa (durou até de manhã) descobri que a sua imensa capacidade de criar era algo inato á sua pessoa.
Ouvimos várias vezes durante a noite esse especial cd: Elis Regina, ao vivo, no Festival de Montreux de setenta e oito... Simplesmente magnífico.
Tornámo-nos amigos do casal passamos muitas noites, jogando buraco e tomando bons vinhos nos nossos respectivos lares.
Daniela Brugni (era modelo) tinha uma filha com Bruno, chamada de Giulia, afeiçoamo-nos imenso a essa criança de dezoito meses, mas que parecia uma adulta.
Questionava tudo e todos, era impressionante a facilidade de comunicação, em tão tenra idade.
Bruno viveu no Rio de Janeiro nos finais da década de oitenta e ficou imbuído do espírito Rock and Roll latente. Conheceu e conviveu com Cazuza e todos da sua geração.
Da sua cabeça saem constantemente criações inusitadas que se tornam realidade.
É um pensador nato de rara subtileza e inteligência.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Décima Quinta Dose de Pílulas do Livro...

Em Portugal por todo o território nacional há uma bebida que é feita da Uva e que foi introduzida pelos Romanos na Península Ibérica.
Digo em todo o território porque existem várias Regiões Demarcadas de produção de Vinho.
A Região Demarcada mais antiga do mundo é a do Douro, no norte de Portugal, perto da cidade do Porto, que dá origem ao nome do vinho mundialmente conhecido e que se bebe antes ou depois das refeições.
Comecei a interessar-me por Vinho aos meus vinte e quatro anos de idade quando um amigo Tó Manuel começou a ensinar-me a “Arte” de tomar vinho... Vinho não se bebe toma-se, dizia o Tó.

Parece estranho, mas é verdade.

Toma-se porque o ato de bebê-lo é antecedido, por todo um ritual que desperta os nossos sentidos primários, cheira-se, molha-se levemente os lábios, deixa-se o vinho respirar e por fim está pronto a ser degustado.
Existem vinhos que são autênticos néctares dos deuses.
“Baco” bem sabia disso...
Tó Manuel Alfacinha de gema e esquerdista nato viveu toda a fase de luta antifascista que antecedeu a Revolução dos Cravos.
Ele e os seus amigos da Boemia Lisboeta circulavam pelas tascas Alfacinhas, provando a essência das Castas vinícolas Portuguesas e discutindo o futuro de Portugal e dos Portugueses, ao som de Zeca Afonso, Vitorino, Adriano Correia de Oliveira e outros.
Para começar a interessar-se por vinho tem de se provar tipos de vinho, de várias castas e sabores e anos, para que o paladar fique apurado e selecionado.
Como evidente é, vão-se descobrindo paladares diferenciados, de acordo com as regiões, solos, sais minerais, tipos de uva, misturas de castas e ano da vindima, a qualidade vai aumentando e a exigibilidade também.
Tendencialmente quanto mais anos estiver o vinho na garrafa, guardado deitado na horizontal, em boas condições de umidade e temperatura e com uma boa cortiça como rolha, melhor a sua qualidade.
O vinho evolui na garrafa ao longo dos anos.
Para uma melhor degustação desse vinho, convém abri-lo no mínimo, uma hora antes, para que ele possa respirar o tempo suficiente e os seus paladares apurarem em contato com o oxigênio.

Com outro amigo de trinta anos de pura e verdadeira amizade, pude viajar por todo o Portugal, visitando as Adegas Cooperativas do Alentejo e não só, adquirindo nas feiras vinícolas, autênticos néctares, enquanto as nossas esposas faziam outras compras, nós dávamos uma escapadela e íamos para o setor dos vinhos, discutir preços e qualidade.

A esse amigo irmão eterno “Miguel Cunha”, saudações vinícolas.

Tive o prazer de tomar e degustar vinhos de boa qualidade de vários países, mas nesse caso eu sou nacionalista nato.
Sem petulância nem arrogância, o que falta aos vinhos de alguns países, tem o português.

“Vinho com alma só o Português”...

Estas informações que adquiri na minha vida, provando e conhecendo vinhos, tentava ensinar aos meus colaboradores, para que pudessem melhor servir os clientes.
E aprenderam um pouco dos meus limitados conhecimentos.
Aos clientes e amigos mais chegados, sempre que possível criava um dia para degustação de vinhos, portugueses e não só, onde aqueles momentos juntos da “Amendoeira” se tornassem únicos e pudesse contribuir, mesmo que em pequena escala, para um melhor conhecimento e aprofundamento dessa bebida dos Deuses.
Consegui que alguns fornecedores utilizassem o espaço, para lançamento e prova de algumas das suas marcas de vinhos.
O Paraíso Tropical estava a tornar-se um ponto de referência, dentro da sociedade baiana e eu sentia-me satisfeito.

Perto do nosso Restaurante foram aparecendo e abrindo aos poucos outros negócios, várias casas comerciais, que davam ao bairro um ar mais alegre vivo e movimentado.
Data certa não me recordo exatamente qual, sei que em meados do mês de Agosto de dois mil e quatro, estava a almoçar com Carla por volta das quatorze horas na varanda e vejo uma senhora elegante, dirigir-se a mim.
Boa tarde, você é o Ricardo? Levantei-me assim que a senhora se aproximou, estendi-lhe a mão e cumprimentei-a, boa tarde, sou; em que posso ser útil? Carla já a conhecia era Luzia Santana – Jornalista da TV Salvador (pertencente á TV Bahia, filial da Globo) – que tinha um programa “Nomes” de enorme sucesso – Começamos a conversar, convidei-a para sentar-se junto a nós, ao que acedeu de imediato. Que espaço maravilhoso vocês têm aqui. Obrigado (a) respondemos quase em uníssono.
Gostaria de fazer uma entrevista, aqui neste local a Lucila Diniz que amanhã vai lançar um livro aqui em Salvador, sobre a sua experiência pessoal de emagrecimento.
Claro, prontamente respondi, será uma satisfação, o espaço é seu, disponha.
A varanda ficava num local estratégico do restaurante, dali se observava toda a área externa e a praça na rua.
Era toda decorada com alguns objetos de artesanato Mineiro.
Existia junto á parede com os azulejos portugueses da década de cinqüenta, um banco grande coberto de almofadas feitas de esponja e de um tecido ás riscas vermelhas brancas e amarelas.
Do mesmo tecido e cor das almofadas, eram as cortinas que cobriam os vidros das duas laterais da varanda.
Em cada canto estavam duas mesas de madeira com tampo redondo e pé de alumínio.
Uma de seis lugares e outra de oito lugares, para além de mais três mesas de tampo quadrado.
Lucilia Diniz chegou passados alguns minutos.
Fomos apresentados por Luzia Santana, Carla fez as honras da casa, falando um pouco da história da nossa gastronomia.
A entrevistada ia lançar um livro sobre emagrecimento e foi logo, para um restaurante de comida baiana... Que contradição.
Antes pelo contrário, o mestre tinha desenvolvido um prato inovador chamado de Moqueca Vegetariana. Explicado como era o prato, Lucilia acedeu experimentar.
A entrevistada respondeu ás perguntas da Jornalista e de seguida, sentou-se á mesa para calmamente desfrutar da sua refeição.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Décima Quarta Dose de Pílulas do Livro...

Artistas, Políticos, Cantores, Formadores de opinião – A nata estava toda presente. Que orgulho para todos nós, tínhamos conseguido o nosso objetivo. O mestre sorria, Carla mais parecia uma criança de tanta felicidade, os irmãos e irmãs de Beto irradiavam orgulho do seu irmão artista e artesão gastronômico.

Fleches e fleches sorrisos e sorrisos, só alegria...

Aquela noite mágica tinha sido organizada por uma senhora Sergipana de nascença, mas Baiana de alma e coração.

Eu também já me sentia soteropolitano.

Os garçons mal conseguiam movimentar-se no meio de tanta gente convidada, circulava no ar um bouquet intenso de perfume de mulher, as senhoras elegantemente vestidas, eu, Carla, Beto e sua companheira, ficamos juntos no meio da escadaria, que dava para a parte de baixo do restaurante, perto do pergolado.

A casa estava soberbamente decorada, o esmero e a qualidade do trabalho eram evidentes.
Só palavras de apreço e elogios a todo o segundo. Muitos parabéns, sucesso – diziam os convidados que chegavam a todo o momento, junto de nós – abraços, apertos de mão. Quanta felicidade.

Parecia uma casa de campo, no meio da cidade, num bairro ligado ás artes, ás letras e á cultura.

As mesas eram de madeira todas feitas por encomenda, com pé de alumínio na parte interna (salão) e na varanda, as cadeiras também de madeira com estofo num tecido branco e vermelho ás riscas. 
A parte externa era composta por um pergolado de pinho, onde havia umas mesas com tampo de mármore e pé de alumínio acompanhadas de cadeiras brancas igualmente de alumínio.
O paisagista esmerou-se tentando recriar o ambiente de uma chácara, colocou vasos enormes cor de tijolo, com pés de capim-santo, hortelã grossa, abil, limão, pitanga, dracena, boldo, arruda, tapete de oxalá e buganvílias. A volta do gradeamento que circundava a casa plantou várias espécies de flores e plantas, que criavam um ambiente campestre. Na área do pergolado, existiam várias luzes, que saiam do chão, iluminando a noite e tornando-a mais bela.

Mas o lugar mais apaixonante da casa, sem dúvida era a “AMENDOEIRA” existente, junto á grade.

Toda a área próxima da árvore foi decorada com quatro conjuntos de madeira, constituídos por mesa redonda pequena e quatro cadeiras cada, espalhados uniformemente. O chão estava todo decorado com pedras pequenas. Havia igualmente quatro espreguiçadeiras e dois bancos de jardim, com molas.
Este espaço que rodeava a amendoeira tornou-se o local mais concorrido do Restaurante.
E não era para menos. A artista plástica Luiza Olivetto, criou uma obra de arte que envolvia a árvore, como se de um abraço se tratasse. Fez uma Cobra de garfos e facas, soldados entre si, que se enrolava pela amendoeira até ao topo. Iluminada a amendoeira com focos de luzes, resultava numa beleza estética fora do comum, que despertava a curiosidade das crianças, adultos e de todos os transeuntes

Era mágico sentar-se ao final da tarde perto daquela árvore, tomando um vinho tinto e fumando um charuto, jogando conversa fora.

A festa continuava com muita animação.

Beto tinha escolhido um cardápio super especial, pois o momento assim o exigia;

Caldo de Sururu, de Camarão e de Polvo.
Casquinha de Siri.
Carne do Sol com Farofa de Aipim e Manteiga de Garrafa.
Arroz de polvo.
Moqueca de Camarão, Lagosta e Polvo (o famoso Calapolvo).
E famosa Torta de Maturí com Creme de Palmito de Coqueiro.

Este maravilhoso menu era regado e bem regado com Água, Refrigerante, Roskas de vários sabores, Vinho Branco, Vinho Tinto, Whisky e Espumante. Os nossos patrocinadores e fornecedores de bebidas, não impuseram nenhuma restrição ao consumo daquela noite.
Nós é que tivemos de limitar... Senão seria um pouco complicado... Uma boa farra de quando em quando é ótimo.
Durante a festa o mestre vestiu-se a rigor, com uma bata, com o seu nome que tinha sido criada por Lara, para esse dia tão especial e acompanhado pelos garçons, desceu pela escadas, com uma travessa grande de Torta de Maturí nas mãos e ofereceu-a no meio dos fleches e câmaras á madrinha de todo este projeto, como forma de agradecimento, realçando em voz alta, o papel primordial que ela teve.
Por momentos ouviu-se uma salva de palmas. Beto estava emocionado.
Todos nós estávamos os que tinham participado deste projeto desde o início e os que por simples amizade, desejavam que o mesmo tivesse o merecido sucesso. Muito obrigado a todos, disse.

Uma nova fase uma nova vida, novos desafios outras propostas.
Agora sim, o capitão e nosso mestre tinha um novo desafio, já não era um simples barco, mas um navio que tinha de dirigir juntamente com a sua tripulação e o meu papel seria de coadjuvante, tentando cumprir as regras já existentes e evitando que possíveis tempestades, o derrubassem.
O restaurante era um sucesso garantido.
Todos os dias da semana aos almoços e jantares, o movimento era intenso.
Novidade num local super aprazível e com muito boa localização e o Baiano, adora o que é novo. Principalmente durante o mês de Maio e aos finais de semana, tínhamos filas de espera incríveis.
Todos queriam conhecer a culinária de Beto, beber os sucos que eram autênticas obras de arte e provar algumas das suas iguarias naturais.
Evidente que os Soteropolitanos, não comem Moqueca todos os dias, até porque existe uma pequena aversão ao dendê, derivado das calorias e da eventual saturação provocada, comecei a aperceber-me disso lentamente.
A freqüência no primeiro mês após a abertura era especialmente de clientes baianos, alguns turistas poucos, ainda não tínhamos começado a divulgação junto dos hotéis espalhados pela cidade.
O nosso espaço agradável teria de ser o chamariz, juntamente com a gastronomia, para isso comecei com Carla e a Via press, a fazer um trabalho muito incisivo sobre a culinária do Paraíso Tropical, mostrando que a mesma seria inovadora e diferente, devido aos produtos light que o mestre criara e colocava na sua gastronomia.
Não seria fácil... Existe até hoje certo preconceito em relação ao óleo de dendê... Tentaríamos desmistificar um pouco essa questão.
Os clientes adoravam as frutas que oferecíamos nos finais das refeições, era um charme que Beto tinha criado. No Cabula os clientes levavam após as refeições, no Rio Vermelho também, só que comecei a verificar alguns custos extras exagerados.
Comprávamos quase diariamente uma verba avultada para serem oferecidas, já que agora com dois restaurantes e com a diversidade existente nas travessas doadas, não havia frutas que chegasse.
Por vezes, havia alguns comentários, não sei se verdadeiros ou se era intriga, que os clientes reclamavam; No Cabula levamos sacos de plástico cheios de frutas e no Rio Vermelho não – Tentava equilibrar essa situação, até porque as nossas despesas eram muito elevadas, não só com o pessoal, mas também com todo um processo de estoque de mercadoria e produtos.
Utilizávamos a parte de baixo da casa, garagem onde guardávamos uma parte da mercadoria.
A quantidade de polpas de frutas existente em estoque e guardada em freezers é enorme, até para que o cliente tivesse uma opção.
Não poderíamos falhar com nada, senão viria logo de seguida a comparação com o Cabula.
E infelizmente algumas pessoas, adoravam esse tipo de comparação para provocarem desunião.
Várias vezes tanto clientes, como pessoas que se tornaram amigas, conversavam conosco, alertando para algumas situações que originavam comentários... Ricardo, vocês juntos funcionam como equipe, portanto não dêem ouvido aquilo que poucos dizem.
Escutava com atenção e mantinha-me em silencio.

No meio do ano Licia comemorou o seu aniversário no Paraíso Tropical no Rio Vermelho, oferecemos uma festa linda para ela. Mais uma vez, o mestre se recriou e fez os convidados da aniversariante, saborearem as suas autênticas iguarias. Convidados e amigos de todo o Brasil, selecionadissimos.
Várias revistas de tiragem nacional estavam presentes, para além de toda a mídia e sites.
A Revista Caras, Flash de Amaury Jr. e outras, fizeram reportagens fotográficas do evento.
O aniversário de Licia era um acontecimento na Bahia e não só e tínhamos o privilégio de organizá-lo.

Na nossa equipe de garçons, treinados por nós havia um moço negro muito peculiar e inteligente, que se tornou uma das atrações do Rio Vermelho, seu nome Edinaldo, era gago, gaguejava mais, quando estava nervoso, o seu trabalho era feito com dedicação e requinte, todos o adoravam pela sua educação e atenção. Tinha um dom e uma paixão; a música.
Tocava trombone. Certo dia vi-o entrar com uma espécie de caixa preta, indaguei – o que é isso? Um Trombone Sr. Ricardo.
Você toca Trombone! Estou tendo umas aulas para aprender.

Achei aquilo fantástico e resolvi apoiá-lo...

Ofereci uma verba ao nosso Garçom músico, para que pudesse adquirir o instrumento que era alugado de um amigo e assim desenvolver mais, a sua veia musical.
Teria uma condição exigida por mim, aprender uma ou duas músicas, para tocar para os clientes sempre que fosse necessário e saber de cor e salteado uma: Emoções de Roberto Carlos, para presentear á nossa amiga e aniversariante, naquele dia tão especial.
Do alto das escadas que davam para a área externa e pergolado, o nosso Garçom com dotes musicais, um pouco introvertido é claro, perante tão ilustre platéia, começou os acordes da música preferida.
O sucesso foi tanto que os clientes iam para o restaurante comemorar aniversários e festas e pediam para o Garçom Músico estar presente...
Quantos Parabéns a Você, o nosso Edinaldo tocou!... Muitas vezes. Ah! E ganhou ainda o Garçom do ano.
Parabéns para ti também Edinaldo...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Décima Terceira Dose de Pílulas do Livro...

Propus-me dignificar, acrescentar, ao que de bom já existia há longos anos, a intenção sempre foi melhorar. Talvez por isso abraçasse tudo, com tanta paixão.

Durante a reforma num dia pela tarde, estavam os operários a trabalhar na varanda, (área externa) onde existia uma parede toda pintados de branco, e ficava o candeeiro de “Mário Cravo Jr.” qual não é o meu espanto, quando observo que por baixo da tinta, existia uma parede de azulejos Portugueses de tonalidade azul e branca da década de cinqüenta. Aquela descoberta tornou-se um dos ex-líbris do restaurante.

A história da casa mistura-se com a do Rio Vermelho, bairro boêmio, onde viveram durante anos, “Jorge Amado” e a sua eterna companheira “Zélia Gattai”.
A estrutura da casa foi levantada por um dos maiores artistas plásticos da sua geração “Carybé”, amigo intimo de “Jorge Amado” que queria construir a sua residência e atelier naquele espaço.
Por motivos desconhecidos “Carybé” não acabou a construção da casa e vendeu-a para a família Ferraz, que edificou o espaço e viveu lá por mais de quarenta anos, até Paulo Mota a adquirir.

Algumas semanas poucas para a inauguração.
Previsão inicio da segunda quinzena do mês de Abril.
Muita coisa para fazer e tudo ao mesmo tempo.
As psicólogas tinham selecionado mais ou menos noventa hipotéticos colaboradores para serem entrevistados. Formatamos de acordo com diretrizes do mestre, uma estrutura que fosse viável, tendo em consideração os condicionalismos e as características da gastronomia experimental de Beto.
Passamos algumas horas entrevistando os selecionados e escolhemos cerca de trinta colaboradores, para fazerem parte do novo Paraíso Tropical.
Uma agitação.
A filial do Rio Vermelho funcionaria nos mesmos moldes da matriz, ininterruptamente em dois turnos. Tanto os garçons, que inicialmente eram dezasseis, como o pessoal da cozinha em número de dez, estiveram uns dias no Cabula em formação a fim de beberem toda a informação necessária e adequada.

Lara Nepomuceno – criadora de moda – desenhou as roupas de todos os colaboradores.

Os garçons e os maitres vestiam uma calça castanha clara com bolsos laterais, calcavam umas sandálias também castanhas, fechadas á frente e as camisetas eram de manga curta em várias cores, de acordo com o dia da semana. Por cima colocavam um avental azul claro lindíssimo, amarrado á cintura e ao pescoço, com a logomarca do restaurante estampada na parte da frente, o Galo rodeado com as cores do sol, céu, terra e mar (que os clientes adoravam). Os cardápios eram vermelho tinto e amarelo torrado de papel reciclado grosso.
Informatizamos todo o restaurante e codificamos todos os produtos, tentei que o mesmo fosse feito no Cabula, mas o mestre apesar de mostrar interesse, nunca efetivou a sua vontade.
A casa era rodeada de um passeio, que já tinha sido calcada Portuguesa e que estava completamente estragada, sem as pedras nem os desenhos simbólicos.
Infelizmente tinha de gastar mais alguma verba e não era pouco, na reconstrução de todo o passeio. A praça em frente á casa estava um verdadeiro caos, não podia inaugurar o Restaurante sem contratar o serviço de alguém, para pelo menos, cortar aquele capim e mato, que cobria toda a área.
Não era minha obrigação, mas já que ninguém o fazia eu teria de fazê-lo.

Estava quase tudo a postos, parte final.
Segurança vinte e quatro horas e manobrista no horário de maior movimento.
Contratação de mídia – televisão, jornais revistas, folders e outdoors de rua.
Imprensa escrita, dizia respeito á Via Press.
Comprei por sugestão e aconselhamento, dois espaços em programas de televisão que cobriam eventos e que obtinham boa audiência, junto ao público que pretendíamos alcançar, Michele Marie e Tom Mercury.
Selecionamos um fotógrafo, sugestão da nossa agência de publicidade e fomos até ao Cabula com uma equipe, filmar e fotografar, todo o tipo de imagens relacionadas com frutas e pratos, para que pudéssemos escolher como ficariam os folders e os seis outdoors que iriam para a rua.
O resultado foram materiais de alta qualidade gráfica e de imagem.
Haveria duas inaugurações: dia dezanove de Abril, para a imprensa e dia Vinte e um de Abril para convidados.

A idéia dos publicitários era criar um impacto com os outdoors espalhados pela cidade de Salvador.

Far-se-ia do seguinte modo: Na primeira semana ficariam os outdoors na rua com uma pergunta; Já conhecem o Cambucá? Já ouviram falar do bacupari? Já provaram o Ingá? (todas, frutas exóticas).

Nas duas semanas que antecediam a inauguração aparecia a logomarca com o Galo e o nome do Restaurante Paraíso Tropical dizendo: Se não conhecem, então venham conhecer a filial do Paraíso no Rio Vermelho; Se um Paraíso é bom, dois melhor ainda. Por baixo o endereço e o telefone dos dois Restaurantes, com a indicação da matriz e da filial, que abria ao público.

Toda a imprensa Baiana estava presente em peso, no dia dezanove de Abril, na pré-abertura.
Dois dias depois e eis chegado o momento das nossas vidas.
Todo o mailing de convidados tinha sido feito por D. Licia Fábio, só ela poderia ter reunido tantas pessoas num mesmo espaço, numa só noite.
Uma única palavra... Deslumbrante.