quarta-feira, 21 de julho de 2010

Quarta Dose de Pilulas do Livro...

A Baia de todos os santos é a maior do Brasil e uma das maiores do mundo. Tem uma área de mais ou menos 970 km2, trinta ilhas, imensas praias e enseadas que formam belíssimas paisagens e diversos rios e riachos.

A beleza da cidade – salvador- confunde-se com o seu mar e com a extensão do mesmo.
Águas calmas, tranqüilas, como se os santos, nos quisessem dizer..., algo.
Velejar, pelas águas da baia, nos remete para momentos únicos de tranqüilidade e paz interior.
Soube mais tarde, o significado desta vivência, profícua.
Regressei a Salvador, em dois mil e um, para assistir “in loco” aquilo que só ouvia falar através da mídia. O carnaval de Salvador é uma festa indescritível e única, que só pode ser retratada através da vivência pessoal de cada um.
Cheguei, numa Quinta-Feira pela noite e fui diretamente para um apartamento alugado, perto de um dos circuitos do carnaval – Campo Grande...
Pela manhã do dia seguinte, uns amigos foram buscar-me para me mostrarem a folia carnavalesca.
Passamos os dois dias que se seguiu á minha chegada, divertindo-nos e conhecendo o que de bom esta festa mágica tem para nos mostrar. É interessante tentar descrever, a alegria, a satisfação, que se vê nos rostos das gentes, espalhadas por essa Salvador mágica e verdadeira...
Viver a Bahia em período especial de alegria é algo que tem a ver com magia... Magia é o sorriso das gentes – das crianças – dos pais – das avós... Enfim de todos nós, que procuramos, sempre e constantemente, aquele momento especial de felicidade, mais que não seja aquele momento...

“A vida é feita de pequenos nadas e são os nadas que constrói o todo”
E o que são os nadas, senão os momentos, somados e elevados á sensação prazerosa de eventualmente, podermos ser um pouco felizes... Algures.

Por volta das treze horas de Domingo, dirigi-me á concentração do trio elétrico – Bloco Eva – com quem? Adivinhem claro Ivete Sangalo.
Jamais imaginaria e o digo com plena convicção, que pudesse vivenciar algo tão diferente do que estava habituado.
Não imaginava o que era um bloco de carnaval, nem nunca tinha visto um trio elétrico – o que passava em Portugal através da televisão era o carnaval do Rio – Sambódromo.
Jamais, tinha a noção do que era a folia.
As pessoas se concentram e esperam que o bloco - número de pessoas junto ao trio - que adquirem um abada, saia pela avenida. O percurso dura em média umas cinco a seis horas.
Ao longo do trajeto, a sensação de felicidade está estampada nos rostos destas gentes, cantam, dançam, gritam... Olhava para as casas e via cartazes – dizendo: eu te amo Ivete – eu te adoro Ivete – o som e a música, faziam estas gentes, se deliciarem com o ritmo e com o suingue constante e ritmado... Que delícia.
Ficava imaginando, os meus estimados amigos em Lisboa, com uma temperatura de cinco seis graus – frio pra carago – e eu nesse bem bom eufórico e vivenciando, momentos únicos de satisfação.
Olhava e via pessoas nas árvores – ao longo do percurso, nas varandas das casas, nos passeios... E toda a bela gente dançando e vibrando...

Como é bom ser baiano... Pensava.
Como devem imaginar, nos dois dias subseqüentes, já me sentia perfeitamente em casa – como se diz em bom Português.

Retornei no ano a seguir pelos mesmos motivos – á procura de algo! O quê? – e a minha vida começou a ser alterada, minuto a minuto eu me reencontrava com o meu sentido/destino/vida.
Vim, a saber, mais tarde, (alguém me confidenciou) que o meu “regresso” á Bahia-Salvador, tinha a ver com uma questão espiritual de resgate, com alguém, com algo...
O que era esse resgate? Indagava constantemente... Sabem aquela noção de insatisfação constante..., Deixou de existir a partir do momento em que vim para a Bahia.
Meu querido e amado pai Roldão e minha querida e amada mãe Zita (já desencarnada) me mostraram o caminho da espiritualidade, e do amor.
Desde miúdo, com outros entes familiares, que me são muito queridos, buscávamos intensamente a verdade, através da doutrina e do racionalismo cristão.
Fui educado sabendo, que um dia, certo dia, abandonaria esta fisionomia, para aceder a outros campos energéticos, onde pudesse continuar a evoluir.
Por isso quando alguém me disse – Ricardo tu estás aqui hoje e agora, para cumprir aquilo que não terminaste um dia! Nada respondi, simplesmente acedi á constatação.
Vim a verificar que realmente, as coisas foram se avolumando ao longo dos anos, de uma forma intrínseca e verdadeira... E quando dei por mim estava em Salvador, casado e apaixonado pela mulher baiana – que segundo me disseram, fazia parte do meu resgate de vidas passadas.

Estranho!... Mas verdadeiro e verossímil.
Olhava e procurava talvez, algum olhar no meio de tantos olhares, de tantas dissertações de tudo o que é possível procurar e verificar.
Talvez pudesse encontrar – ou sentir – os sentidos nos dão a orientação dos momentos precisos, nos transportam para além – e estávamos no meio do carnaval, num camarote em algum local da Barra.

Encontrámo-nos no meio desses olhares, mas aqueles olhos eram únicos e talvez fosse o momento.
Depois daquele minuto, tudo mudou...
Aquele minuto se transformou em minutos e os minutos em horas, paixão, amor, meses, casamento. Sim, casei-me mais tarde, com Carla em Dezembro de dois mil e três em Salvador... Que loucura deliciosamente louca.
Alguns dias depois, tinha de viajar para Natal, para me encontrar com uns amigos e regressaria para Lisboa, via Recife.
Só que a “saudade” era mais forte... A palavra “Saudade” só é conhecida em Galego-Português e mostra a mistura dos sentimentos de perda, amor e distância, define a mágoa que se sente pela ausência... E quando matamos a “Saudade” sentimos alegria.
De Lisboa, falava todos os dias com Carla – via telefone, até que tomamos uma decisão, que penso ter sido a mais sensata... (até pelos custos inerentes... telefônicos!).
Carla foi viver para Portugal – assim estávamos mais perto um do outro e poderíamos desfrutar daquilo que sonhávamos há já alguns meses.

Terceira Dose de Pílulas do Livro...

Em vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro, deu-se uma revolução em Portugal, revolução pacífica – chamada de revolução dos cravos – ela acontece devido ao descontentamento de um pequeno grupo de oficiais do exército Português (movimento dos capitães de Abril) que descontentes com a sua situação, resolvem tomar o poder.

A mudança política e social em Portugal desencadeia o que já se espera á bastante tempo – a descolonização dos países africanos de expressão portuguesa – Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
Eu fui para Portugal com os meus pais em Outubro de mil novecentos e setenta e cinco, com nove anos de idade.
Toda a minha formação e todo o meu crescimento foram passados em Lisboa.
Foi em Lisboa, que fui adolescente, que me formei e aprendi a ser homem a ser marido e por último pai.

Foi em Portugal que aprendi a amar e ser amado...

Lisboa a cidade das sete colinas.
A história confunde-se com a própria vida das pessoas e Lisboa tem essa capacidade de fazer que constantemente nos lembremos dela – cidade. Bairro alto, Mouraria, Madragoa, Alfama – bairros típicos que por si só são a história desta cidade cheia de luz, cidade branca, banhada pelo rio Tejo – e que tantas vezes foi cantada através dos poetas.
Cidade dos poetas – cidade do FADO – cidade de Santo António (que nasceu em Lisboa no bairro da graça e não em Pádua, como muitos querem fazer crer) Cidade dos Fados/Destinos – Capital do grande império que foi Portugal, país á beira mar plantado que um dia ousou conquistar os mares e desafiar os velhos do Restelo.
Cresci, nessa mudança política constante entre a esquerda e a direita – entre o socialismo e a chamada socialdemocracia que afinal não é mais que um neoliberalismo/ ou capitalismo camuflado. Durante muitos anos o rumo do país parecia descambar para um precipício (como disse um dia "João Alves da Costa” um manicômio em auto-gestão” exagero ou não um célebre dia de mil novecentos e oitenta e cinco, no Mosteiro dos Jerónimos, em Belém – foi assinado o tratado de adesão de Portugal á Comunidade Econômica Européia.

Comunidade Econômica Européia! Perguntávamos nós, o que é isso, será que o país vai beneficiar também no aspecto social!
Diga-se de passagem, que todas as pessoas que me conhecem, sabem bem que eu sempre fui um céptico em relação aos objetivos finais da CEE, como era conhecida a sigla.
A adesão de Portugal foi efetuada em três fases, na primeira fase o objetivo era uma união agrícola – uniformização dos processos agrícolas dos doze países (na altura) pertencentes á CEE.
Na segunda fase, uma união econômica – critérios de convergência econômicos, moeda única Euro e uma terceira fase que levanta e levantará mais polêmica ao longo dos anos que é a união política, fazer uma confederação de estados europeus – naturalmente que para nós estudantes universitários e jovens irreverentes e contestatários, isto tudo nos cheirava a esturro. Eu viria a ter razão.
Claro que com a quantidade de dinheiro enviado a fundo perdido, os governos foram ao longo dos anos, construindo estradas, hospitais, escolas e camuflando um pouco as questões sociais, desemprego, baixos ordenados, custo dos produtos essenciais muito elevados, preço da habitação super inflacionado, custo dos transportes, gasolina a um preço exorbitante, a mais cara da Europa, impostos elevadíssimos – claro que a comunidade européia tinha um preço e nós estávamos a começar a pagar por esse preço de uma forma muito elevada.
Portugal praticamente importa tudo, excetuando alguns bens de consumo de primeira necessidade.
O país produz vinho, azeite e cortiça, a indústria salvo raras exceções, não se preparou convenientemente para a competitividade que aí vinha. Os mais preparados tomariam conta do mercado.
A salvação era o turismo, devido ao litoral que Portugal detém e também por causa do clima ameno existente, em comparação com outros países da Europa. Mas nem no turismo se conseguiu atingir os objetivos a que se propunham.
Os nossos vizinhos espanhóis, melhor preparados começaram a tomar conta de alguns sectores da economia portuguesa e aproveitando o espaço econômico livre, sem restrições, foram aos poucos comprando o que de melhor havia no país. As multinacionais de grandes empresas mundiais que tinham sede em Lisboa e no Porto foram fechando e transferindo-as para Madrid – a nova capital da península ibérica.

Não querendo ser muito céptico Portugal transformou-se num país de serviços...
A população inicialmente sentia-se indignada, depois quase que atraiçoada e finalmente angustiada.

– É o fado / destino dos portugueses...!

A melancolia dava lugar á alegria e á satisfação, as pessoas deixaram de ter poder de compra e refugiavam-se nas suas casas, a taxa de endividamento bancário é muito elevada no país, à população trabalha para pagar o empréstimo da casa durante trinta anos e o carro durante cinco anos, com os ordenados mais baixos da Europa e com a carga tributária mais elevada o português tornou-se angustiado e com a entrada do Euro (moeda única) a situação agravou-se ainda mais, porque os bens de consumo ficaram todos mais caros.
O português com as regras impostas por Bruxelas - economicistas e tecnocráticas tornou-se mais solitário, só pensando em si próprio e não tendo tempo sequer para a família quanto mais para os seus amigos e conterrâneos é o sistema capitalista funcionando da forma mais atroz.

Esta é a essência do Portugal que eu conheço e vivi até bem pouco tempo atrás.
Não gosto deste Portugal, queria aquele Portugal humano, social e tranqüilo onde as pessoas se cumprimentavam na rua sem estarem preocupadas se terão dinheiro para pagar a renda da casa e a prestação do carro (porque os juros vão subir) e iam á padaria comprar pão feito no forno á lenha, sem pensarem em abastecer o carro hoje, (porque amanhã a gasolina aumentará outra vez).

Que saudades do Portugal Português de todos nós e que indiferença ao Portugal Pseudo Europeu... De alguns; muito poucos.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Segunda Dose de Pílulas do Livro...

No dia seguinte, retornamos a Itaparica, para os últimos três dias em terras de Pedro Álvares Cabral...

Itaparica é uma ilha que fica em frente a salvador a mais ou menos cinqüenta minutos de ferry-boat, é algo tão tranqüilo, tão calmo, tão reconfortante, que se as pessoas soubessem, iriam para a ilha para curar dos seus esgotamentos e sairiam concerteza completamente refeitos e recuperados.
A freqüência da ilha é fundamentalmente de nativos, somente aos finais de semana vêm outras gentes, aqueles que habitam na cidade-Salvador.

Por vezes, encontra-se João Ubaldo, passeando de calções e chinelos, juntos ao caís de Itaparica, cumprimentado por todos aqueles que passam ao seu redor, senta-se junto ao muro observando o lento e silencioso bater das ondas.

O único stress em determinados dias, é o cantar dos pássaros e o bater das ondas...

Estávamos no caís observando a Ilha de Madre - de Deus que fica bem á nossa frente, quando Zé Gordão (habitante e nativo da ilha-homem de sete actividades-Professor, Técnico de Futebol, dono de Bar e principalmente homem com um objetivo social dentro da comunidade – fundou uma escolinha de futebol juvenil, sem ajuda de ninguém só de Deus – segundo ele dizia. Meninos – como ele nos chamava – Gostaria de fazer um jantar para vocês, o que acham. Hoje á noite está bom... Claro, respondemos quase que em uníssono, Zé tinha um barzinho que funcionava só para os amigos, em dias especiais, quem cozinhava era a Senhora dele e ás vezes a mãe.
Meninos, a minha mãe quer fazer algo para vocês, ela é que insistiu, podemos levar um vinhozinho Português, perguntei – claro Ricardo para vocês, tu sabes que eu não bebo – Zé era evangélico e o álcool era proibido na sua formação religiosa.

Tínhamos passado bons momentos no bar do Zé, tomávamos umas atrás de outras, comíamos uns petiscos feitos pela Senhora dele e ouvíamos umas mornas de Cabo-Verde ao final de tardinha no meio da rua, pois a casa dele ficava em frente ao caís e á praia, Zé punha as caixas de som no passeio e fazíamos grandes farras ao som da música Cabo-Verdiana dos Tubarões, (era um grupo de excelentes instrumentistas, da música de Cabo-Verde)
Cabo verde e um país africano, constituído por dez ilhas e que está localizado no oceano atlântico e que foi colônia de Portugal desde o século XV até á sua independência em mil novecentos e setenta e cinco. O povo cabo-verdiano é conhecido pela sua musicalidade.
Morna é um estilo de música mais calmo – mais introspectivo – idêntico ao que canta hoje Cesária Évora – inclusive á quem diga que o Fado tem as suas raízes na morna, porque os marinheiros Portugueses, nas longas viagens de ida e de volta, ouviam os escravos a sussurrar determinado som triste, melancólico. Outro estilo era a coladera, mais animada que ás vezes Zé perguntava e afirmava – Será que não é lambada – ele próprio dizia – Claro que é ao que eu respondia – é parecido Zé, tudo vem de lá, de áfrica...
Nunca tínhamos comido aquele repasto que a mãe de Zé tinha feito com tanto esmero.
Era Caruru...
Feito de quiabos, camarão seco, castanha de caju, amendoim, gengibre e azeite de dendê, acompanhado de vatapá e feijão fradinho... E regado com um vinho branco que trouxemos de Lisboa... Hummm...
Mãe de Zé discretamente, como mandam as regras, olhava para nós, sem nada dizer esperando é claro o nosso pronunciamento, Calicas sem mais delongas levanta-se e diz com o copo de vinho levantado na mão direita – “Que sejam estas as últimas balas que possam trespassar os nossos depauperados corações” (era uma saudação nossa que utilizávamos em todas as circunstâncias quando brindávamos a algo) que assim seja, disse Zé sem compreender muito bem o que Calicas queria dizer com aquela frase...
Obrigado por tudo amigo Zé, você nos proporcionou momentos muito agradáveis e ao dizer isso dei-lhe um abraço com muita emoção e sinceridade, ao que Fêfê logo em seguida (agradecendo os bons momentos) – pela primeira vez comi aqui na Bahia e penso que é opinião de todos, algo muito saboroso, por que foi feito só para nós com amizade e amor... Os olhos de Zé encheram-se de lágrimas de emoção e a sua mãe disse muito timidamente – é exagero, é exagero meu menino.

De regresso a Lisboa, para nosso desespero as férias tinham acabado, mas para nós tinha ficado o que de melhor poderíamos subtrair.
Talvez dos três, eu tenha ficado mais marcado com aquilo tudo. Éramos três africanos (Féfé Moçambicano, eu e o Calicas Angolanos e da mesma terra – Lobito) indo buscar um pouco das nossas raízes culturais a um Brasil – Baiano cheio de sons, de cores e de cheiros.

Portugal estava a começar a mudar aos poucos, as verbas comunitárias algumas a fundo perdido, tinham alterado a fisionomia do país.
Estruturalmente e organizacionalmente notavam-se mudanças.
Toda a zona portuária de Lisboa junto ao Rio Tejo que banha a capital estava a ser reestruturada, preparava-se a Expo noventa e oito, a exposição universal realizar-se-ia em Lisboa pela primeira vez na história deste país secular. Comemorar-se-ia os quinhentos anos dos descobrimentos Portugueses além mar e a revitalização do pais era inadiável.
Nunca na recente história da Republica Portuguesa, o país tinha recebido tantos fundos financeiros e econômicos e a esperança renascia com a idéia de modernidade. As obras sucediam-se umas atrás das outras, algumas empresas portuguesas, começavam a preparar a sua internacionalização e tentavam aumentar a sua capitalização bolsista. Os bancos de capital privado Português, criados por empresários Portugueses, sistematizavam as suas operações bancárias de crédito.
Os governos abriam oportunidades de investimento, para fomentarem o crescimento econômico do país, resultando um aumento do crédito ao consumo, o crédito á habitação e á aquisição de viaturas generalizava-se por todo o país.

Que felicidade para todos nós... Passageira ou duradoira!
A que preço? Perguntava a mim mesmo.

Uns anos mais tarde soube a resposta.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Primeiras Pílulas do Livro...

Final de tarde, agosto, o cheiro de terra úmida exalava do chão.

Umidade misturada com a terra vermelha, os sentidos afloravam de uma forma inexplicável...

Sensação de “deja vu” (já estive aqui)? Quando? Será que a excitação provocada pelo momento, é suficiente para alterar todos os meus sentidos!

Calicas e Féfé chegaram um belo dia, lá para os meados de Maio, (sim Maio de mil novecentos e noventa e quatro) estava eu a beber um café com uma amarguinha, (licor de amêndoa amarga) na nossa gelataria, onde o pessoal se encontrava quase que sistematicamente.

A Gelataria era uma espécie de café, ponto de encontro de todos nós, Passagem obrigatória para colocar a prosa em dia...
Ricardo vamos para o Brasil...
(Aqui começou toda a minha história e o que me levou a escrever este livro). 

A desconfiança surgiu do nada, até então nada suporia que algo como o que estava a acontecer pudesse surgir sem nenhuma justificação. O porquê do convite! Recordo-me perfeitamente – Cara de admiração...! Eram meus amigos, curtíamos para valer, tivemos momentos ótimos, mas passar férias no Brasil os três sozinhos! Sem as namoradas! Que estranho...!

Na altura eu namorava com Rita, que veio a ser mãe dos meus dois únicos filhos. (gêmeos)

O nome Brasil, por si só cheirava a tropical uma mistura de áfrica (Angola) com Portugal e com os povos indígenas. Veio-me á mente a grande questão da colonização e talvez o que de mais importante os Portugueses fizeram nas ex-colônias, a mistura de raças, miscigenação. Nenhum outro povo conseguiu criar esta irmandade hoje em dia tão respeitada, como os Portugueses.

Nascido em Angola, falar do Brasil era falar de África... Do som, do cheiro, da tonalidade e das tonalidades das gentes, das prosas, do mar... Imenso mar, águas quentes, pôr do sol, noites longas, luar, acordar...

Enfim, era verdade íamos para o Brasil... E logo para a Bahia – Salvador... Quem diria...

Bahia, mais tarde vim a descobrir que realmente é a terra da magia e da alegria.

O sentimento de já ter estado em determinado lugar, ocorre de uma forma intrínseca e imediata. O momento é vivido em duplicado e naquele final de tarde eu sentia que já tinha passado por ali.

Desembarcamos e fomos para um local...
Vim, a saber, um dia, que era Itaparica, terra de João Ubaldo Ribeiro.
A minha relação com Itaparica veio a tornar-se muito intensa... É uma ilha que fica na Bahia de todos os Santos e onde nada acontece por acaso, mas onde tudo existe, através da energia duradoura.

O tempo parou em Itaparica, mas parou de uma forma solene e benéfica... Que beleza, poder desfrutar do tempo... E utilizá-lo sem pensar em gastá-lo...
O nosso desejo era que as nossas férias se prolongassem por dias a fio, sem a necessidade nem a preocupação do retorno.

Viajamos imenso, conhecemos alguma parte do litoral da Bahia – Morro de São Paulo – Itacaré e em Ilhéus assistimos ao sete de setembro, coincidência ou não, dia da Independência do Brasil.

Havia em nós já nessa altura, a noção de uma aculturação.
Refiro-me á quantidade de novos sinais identificativos que aprendemos a utilizar através da televisão.

As novelas Brasileiras vieram sem margem para dúvida, agregar ao quotidiano dos Portugueses novos sinais de identificação cultural.

Claro que estávamos receptivos a descobrir, novos ritmos, novos sons e novas formas de vivência, que aprendemos a respeitar a partir do momento que Jorge Amado – com a sua linguagem realista entrou nas nossas casas através da novela “Gabriela Cravo e Canela” a primeira novela Brasileira a passar em Portugal.

Ilhéus – Terra do Cacau – Recorda-me perfeitamente como se fosse hoje – tínhamos alugado em Valença (perto do Morro de São Paulo) um Fiat Uno e ao chegarmos – pairava no ar, um cheiro tão agradável de cacau – naquele momento preciso, eu identifiquei, o que Jorge Amado sempre nos quis dizer através da sua escrita. Eu estava ali sentindo através do cheiro – o que a Bahia tinha para mostrar.
Ás vezes basta uma descrição, para quando vivenciamos o momento sabermos que é verdadeiro.

Que extraordinário termos a possibilidade de viajar, mais que não seja através da imaginação.

A magia da Bahia a que eu me refiro, começou a partir deste momento a aparecer ao meu olfato como primeiro sinal do que estava para vir. E o que viria era talvez algo impensável nesta altura.

Retornamos a Salvador.

A cidade toda ela é cheia de Luz de vida e fundamentalmente de cores. Todo o santo dia é dia de festa e que festas.
O baiano é super comunicativo, expansivo, gosta de sentir de tocar de abraçar – igual ao africano – Descobri imensa identificação com Angola, o cheiro de Dendê (em Angola é óleo de Palma – da Palmeira) o pirão, os ritmos constantes nas ruas, a beleza inconfundível da negritude – a cor de ébano a mistura de gentes, mas o que mais me impressionou foi à simplicidade das gentes do povo.

Não existe tristeza, nas faces das pessoas – apesar de algum descaso social por parte de quem de direito, os Baianos são imensamente bonitos, porque são simplesmente alegres.

Fomos a um lugar chamado Pelourinho – que fica no centro Histórico da cidade de Salvador, na parte alta da cidade. O pelourinho é um lugar mágico, onde se encontram todas as confluências culturais e sociais da cidade. Lá habitam músicos, artistas plásticos, artistas de rua, passeando naquelas ladeiras de calçada Portuguesa, encontramos a cada esquina – alguém fazendo tranças no cabelo de algum curioso querendo mudar de visual, alguém pintando, é lá onde fica a Fundação Jorge Amado – e algumas das mais belas igrejas de Salvador.

Um amigo comum conduzia-nos pelas ruelas do Pelo – e a cada olhar fomos descobrindo um pouco de Lisboa – Sem dúvida a identificação é inegável, os parapeitos das janelas, as portas das casas, a cor das mesmas, transportava-nos para a bela e bucólica Alfama. Com um simples olhar estávamos algures na cidade do Tejo...

O nosso cicerone e amigo que vivia em Itaparica, tinha-nos falado que ás terca-feiras, havia um ensaio de um grupo que fazia as pessoas ir ao delírio com as suas batucadas ritmadas, segundo ele era uma mistura de Afro-Reagee e que nós íamos adorar. O ensaio começaria por volta das oito horas da noite.

Aproximamo-nos, era uma casa antiga, a fachada um pouco abandonada, mas para nós era uma excitação imensa, compramos o ingresso, subimos umas escadas e fomos ter a um pátio – uma área aberta, ao ar livre, com imensa gente conversando descontraidamente e aguardando pelo inicio do show.

Querem beber o quê? Cerveja claro - respondeu o nosso cicerone, não devem beber nada destilado, pode ser falsificado, nesse instante já o grande Calicas trazia algumas cervejas de lata com ele – toma Ricardo, obrigado amigão, as próximas são minhas ok! Tu é que mandas, respondeu Féfé com o seu ar de brincalhão feliz e assim continuamos por alguns momentos, aguardando pelo inicio do show. Foram chegando cada vez mais pessoas, estávamos todos de pé, não havia cadeiras nem ordem de posicionamento...

De repente, começo a ouvir uma batucada intensa e ritmada, nunca tinha presenciado nada igual... Era talvez uns quinze homens negros, cada um, com um tambor pendurado através de uma fita ao seu pescoço. Os tambores eram pintados com um grafismo verde e amarelo, lembrando um pouco o desenho das panos que as mulheres negras usam no congo e angola- ou seriam as cores da Jamaica! Não sei, comecei a ficar confuso e lá no fundo (já era noite cerrada o céu carregava algumas estrelas, tinha chovido e a noite estava fresca) surgiu uma voz OH OH OH OH ROSAA, OH OH OH OH ROSAA, ALEGRIA CIDADE CANTAA SALVADOR, OH OH OH OH ROSAA, OH OH OH OH ROSAA, ALEGRIA CIDADE CANTAA SALVADOR, era o Olodum, que loucura, o pessoal começou a dançar a movimentar-se acompanhando o som e o ritmo cada vez mais constante da batucada e que batucada. É um ritmo frenético, os tambores parecem que falam toda a mesma língua, sincronizados acompanhando a voz só com um microfone, a batucada não para, ela é contínua somente com algumas nuances de ritmo, agora é mais intensa e a galera quase que entra em êxtase ou será transe, eu olhava para frente e via os meus amigos dançando continuamente sem parar, transpirando toda aquela energia que existia ali naquele momento, como se o som estivesse em comunhão com as nossas almas.

Que experiência, que energia, jamais esquecerei...