segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Décima Dose de Pílulas do Livro...

Segunda metade do mês de Setembro do ano de dois mil e três, continuávamos à procura de um espaço, até que Carla se lembrou de uma pessoa que tinha ajudado imenso o Paraíso Tropical, não só na divulgação do mesmo de todas as maneiras, quer através da imprensa escrita e falada, bem como para todas as pessoas que conhecia e levando sempre que possível os seus amigos e conhecidos que eram formadores de opinião. Essa senhora era amiga de Beto e adorava a sua culinária, principalmente a Torta de Maturì com Creme de Palmito de Coqueiro...
O seu escritório ficava na contorno junto ao Trapiche Adelaide, lá fomos... Eu, Carla e o seu irmão Betinho.

Local aprazível, com uma vista muito bonita.
Entramos no seu escritório, Rés-do-Chão, do lado esquerdo, tinha uma mesa de madeira lindíssima com um tampo de vidro, onde estava sentada uma moça, que ao ver-nos imediatamente nos indagou – bom dia, em que vos posso ser útil! Viemos falar com a Dona Licia Fábio, respondeu Carla. Sentem-se, por favor, posso-vos servir algo! Dona Licia Fábio, já vos atende.
Sentamo-nos nuns pufes brancos que existiam à direita, o gabinete de Licia ficava logo a nossa frente a uns dois metros do local onde nos encontrávamos, era separado por um vidro transparente e por uma porta de madeira, mais para dentro á direita, havia outra sala com funcionários trabalhando, notei uma grande movimentação de pessoas entrando e saindo constantemente.

Havia uma estante de madeira branca, com alguns objetos de decoração e alguns livros, chamou-me a atenção um sobre um francês “Pierre Verger” que era fotógrafo e que se tinha apaixonado pela Bahia e pela religião do “Candomblé”... Que interessante, pensei eu.

Enquanto desfolhava com muita atenção o livro, reparei que na parede estava pendurado um painel grande de cortiça, com imensas fotos de artistas de cinema, de televisão, cantores, políticos, todos com Licia. Entramos no gabinete dessa Senhora, que pela sua grandeza espiritual e de alma nos torna pequenos perto dela. A impressão que tive, foi estar perto de alguma entidade. Ser humano muito sóbrio e objetivo, não perde tempo com nada e vai direto ao assunto, sem grandes delongas. Irradia grandeza e originalidade.
Licia já sabia da minha existência, pois Beto tinha telefonado, solicitando que nos recebesse em seu gabinete. Dei-lhe dois beijos na face;
Seja bem vindo, foram as suas palavras de carinho.

Estava sentada numa poltrona longa e vermelha... Por vezes e durante as reuniões que tivemos, ao longo dos meses, encostava o seu corpo para trás e balançava levemente a poltrona quando estava mais descontraída, ou ficava numa posição mais retilínea com as mãos cruzadas sobre a sua mesa quando o assunto exigia mais concentração.
Falar de Dona Licia Fábio não é fácil pela sua imensa grandeza como mulher, como mãe, mas fundamentalmente como ser humano.
Aqui começava a segunda parte da minha história nesta terra abençoada pelos deuses.
Houve três pessoas que jamais esquecerei, pela amizade, pelo carinho e pelo respeito que sempre tiveram pela minha pessoa, independentemente das contingências e percalços de toda uma vida, vivida tão intensamente em tão pouco tempo.

A primeira foi esta grandiosa mulher, Licia Fábio.

Considerada uma das maiores “Promoters” do Brasil é sem dúvida a mais exigente e qualificada da Bahia.
O que me surpreendeu ao longo dos anos foi a sua visão ampla de negócios, alcança onde poucos conseguem alcançar, vê o que só uma minoria pode ver.
Respeitada por muitos, provoca alguma inveja em alguns, pela sua constante metamorfose mental.
Licia não é somente uma promoter ou alguém que cria e faz festas maravilhosas e selecionadas para uma elite, é muito mais do que isso...
Os seus contatos e os conhecimentos que conquistou com o seu trabalho merecido ao longo dos anos tornaram-na numa empresária de tão grande visão, que onde toca, (segundo dizem alguns) vira ouro...

Excelente articuladora é fundamentalmente uma artista do social e da sociedade... Pinta os momentos, pinta os espaços, pinta o tempo e deixa para os outros a contemplação e o usufruto das suas imensas obras artísticas...

Eu vou ajudar-vos a montar o Restaurante... E assim foi. As idéias surgiam da cabeça daquela mulher de uma forma rápida, umas atrás das outras. Tomava nota daquilo que conseguia, perguntava aquilo que não entendia e o esqueleto e a estrutura foram tomando forma.
Licia era uma conhecedora de toda a culinária do mestre, sabia tudo sobre ele. A sua visão era extremamente profissional em relação ao negócio que queríamos montar.
Sabia as limitações e as virtudes. Opinava constantemente sobre as alterações que deviam ser efetuadas.
Estávamos somente na primeira reunião.

Faltava o espaço, o resto vinha por conseqüência.

Em cima de sua mesa, havia uma agenda telefônica onde existiam todos os seus contatos, que utilizava sempre que necessário fosse e dois aparelhos de celular. Sem nada dizer, procurou na agenda um número de telefone e ligou – Estou aqui com o genro de Beto dono do Paraíso Tropical, ele é Português e casou-se com a filha Carla, eles vão montar um restaurante e estão á procura de um local, estou a ajudá-los – Quando desligou a chamada, olhou para mim, Ricardo falei agora com Reinaldo (era o proprietário da Marina de Salvador, que estava interessado em colocar alguns restaurantes de qualidade na Marina) ele vai-te receber amanhã, mas olha, vai com Beto.
No dia seguinte lá estávamos na Marina de Salvador, para uma reunião com o dono do espaço.
Não fechamos negócio, se bem me lembro o investimento era muito alto e a mensalidade também.
Licia dizia sempre que o restaurante tinha de ser no bairro do Rio Vermelho eu indagava porquê, ao que respondia que era um local de Boemia, centralizado e que estava em crescimento.
Lá íamos os três, pelas ruas do bairro batendo porta a porta e perguntando se havia alguma casa para vender ou alugar.
Procurávamos as casas com espaço suficiente e grande, mas nada de encontrar...
Ela dizia-nos constantemente, lá para dentro, lá para dentro, procurem naquelas ruas de dentro é lá que tem de ser.
Ao fim de uma semana e depois de muita sola gastar, encontramos uma casa enorme, ai de uns setecentos metros quadrados, já com área construída.
A casa ficava em frente a uma praça, abandonada cheia de capim e ervas daninha.
O que me chamou a atenção na casa é que ela ficava num alto – era a casa mãe da praça.

A praça chamava-se “Carlos Batalha” de praça, só o nome numa placa meio comida pelo tempo e uma estátua toda descuidada pela heresia de alguém.

Endereço – Rua Feira de Santana 354.

Havia uma placa colocada na área externa perto de uma linda amendoeira – Aluga-se – a casa precisava de reparos, de obras, mas isso não interessava naquele preciso momento.
O que eu queria era ligar para o telefone celular, que estava escrito na bendita placa.
Do outro lado da linha, atendeu-me um senhor simpático, mas com um sotaque estranho, chamava-se Kenichi. Boa tarde chamo-me Ricardo Alves e estou a telefonar-lhe para falarmos sobre um possível aluguer da casa na Rua Feira de Santana, estou chegando, respondeu do outro lado.
Kenichi era Japonês – daí o sotaque – e morava igualmente no Rio Vermelho, pois detinha um negócio que se chamava Lambreta Grill (onde comi deliciosas lambretas, que só ele sabia fazer).
Poucos minutos depois, chegou o nosso estimado amigo Japonês.
A casa não era dele estava alugada á sua pessoa, ele tinha um negocio que pretendia expandir e então tinha alugado a casa a um Senhor que dava pelo nome de Paulo Mota.
Tinha pago três meses de alugueis ao proprietário do imóvel, mas não tinha conseguido Alvará da Prefeitura, para a construção e reformas que eram necessárias fazer no espaço.
Por isso estava prestes a desistir de expandir o seu negócio ou então procuraria outro local, que fosse mais fácil conseguir os respectivos Alvarás.

Fiquei animado com a perspectiva de poder ficar com a casa, era um sonho que perseguíamos há algum tempo e parecia que as insistências de Licia estavam certas... Era ali mesmo, como sempre disse a nossa benfeitora.
Prontamente Kenichi, forneceu-me os telefones de Paulo Mota (que amigo Paulo Mota foi até ao ultimo minuto, sempre com compreensão e respeito pela minha pessoa, bem haja).

Tínhamos conseguido...
Fiz uma ligação para Licia contando o sucedido, perguntei-lhe se ela estaria disponível para ir olhar a casa, prontamente disse que sim, então combinei com o portador das chaves Kenichi, para o dia seguinte.

Assim fizemos, pela manhã fui buscar Licia com Carla e a levamos até o imóvel.
O aspecto era de abandono, folhas secas da Amendoeira espalhadas por toda a área externa, o gradeamento que circundava o espaço estava enferrujado, as portas e janelas completamente estragadas, o telhado necessitava de ser substituído, o passeio em frente e na lateral todo levantado (calçada Portuguesa), enfim isto se via a olho visto, o resto era mais complexo, pois necessitava de alguém especializado que pudesse opinar.
Entramos pela porta da frente, que dava diretamente para dentro da casa, havia outra entrada pela lateral, uma que acessava o jardim e a última dava acesso á garagem e ficava na parte de baixo em frente á praça.
Na entrada tínhamos um salão de chão de madeira, á esquerda havia uma porta, que aberta acessávamos á varanda e a toda a área externa, bem como á parte de baixo e á garagem.
Em frente ao salão descíamos umas escadas e estávamos supostamente nuns cômodos que seriam os quartos.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Nona Dose de Pílulas do Livro...

Tínhamos mudado para o Canela, apartamento novo e estávamos aos poucos a organizar e a estruturar a nossa vida em comum. Fui olhar alguns terrenos na estrada do côco, para possíveis negócios, analisei igualmente algumas casas (que um amigo me mostrou) na zona histórica de Salvador – Pelourinho, que estavam disponíveis para pousadas, fui para o interior recôncavo, verificar focos de negócios e conversei com algumas pessoas amigas e com a família de Beto, pessoas muito bem conceituadas e relacionadas. Diga-se de passagem, que os tios de Carla prontamente se puseram à minha disposição, para ajudarem naquilo que fosse necessário.
Ao longo de todo o processo estreitei laços familiares muito intensos e profícuos, com todos os membros da família. O que notei de muito positivo, foi à união existente entre todos os membros dessa tradicional família baiana descendente de Portugueses e Italianos.

O meu telefone de casa tocou deveria ser meio dia, acho eu; a secretária do lar atendeu, era o pai de Carla – Beto. Estávamos em Setembro de dois mil e três, solicitou-me que eu fosse á tarde com Carla ao Cabula, depois do almoço, queria falar conosco.
Almoçamos e dirigimo-nos ao Paraíso Tropical, estacionei o carro, como sempre fazia perto da entrada do restaurante. Entrei cumprimentei Beto e pedi um suco de Morango sentei-me com Carla, ao meu lado ficou Beto que prontamente chamou a sua companheira, para fazer parte da conversa.
O mestre estava com uma cara séria, mas ao mesmo tempo tranqüilo o que denota paz de espírito – Não era nada de grave, pensei eu, algum problema! Talvez... Curiosos estávamos os dois.
Tenho pensado muito, em vocês e de que forma poderão utilizar o dinheiro que trouxeste – refletiu Beto – bem vos aviso que o dinheiro acaba e rápido, Ricardo és o marido da minha filha, deixaste a tua vida para vires para Salvador viver com Carla, isto que tenho é dos meus filhos, comecei do nada, como tu bem sabes, com muito trabalho cheguei até aqui – continuava Beto – gostava que Carla e Betinho (irmão de pai e mãe de Carla) tomassem conta de tudo, quando eu já não puder mais, gostaria de ter alguém que ficasse com isto, calmamente eu olhava para aquele homem e pensava, onde é que ele queria chegar, eu precisava reformar isto tudo, de comprar mesas, cadeiras, fazer obras, informatizar todo o restaurante, precisava investir aqui, como vês o terreno é grande, só precisa de uns ajustes – dizia – eu continuava calado escutando, bem como Carla – porque em vez de comprares a tal pousada que tanto queres, não fazemos uma sociedade!
Olhei para Carla, o semblante de Beto tinha alterado estava mais sério e continuava, fazemos uma sociedade nova, com outra razão social, ou então alteramos a atual, que está com o nome de Carla e Betinho. Sinceramente não esperava que Beto fizesse tamanha proposta, até pelo simples fato de ele ser o capitão de todo o processo criativo e o seu temperamento especial em relação ao que era seu.
Raramente admitia intromissões ou alterações ás suas decisões.

Beto antes de mais obrigado pelo convite, mas preciso pensar sobre tudo isto, como deve calcular, tenho alguma verba, mas o investimento deve ser bem calculado, até porque o negócio já existe e é de família, o meu desejo é começar algo de novo, noutro local.
Fui para casa refletir sobre o assunto.
A opinião de Carla era que eu consultasse primeiro os tios, irmãos de Beto que o conheciam extremamente bem e sabiam talvez aconselhar-me.
A opinião dela era que eu abrisse outro restaurante, noutro local da cidade, aproveitando todo o conhecimento e saber do pai e fizesse uma sociedade, com um contrato escrito e devidamente reconhecido pelo cartório, onde pagaria mensalmente, a estipular uma quantia, pela utilização do nome e de todo o conhecimento, mas a razão social seria diferente.
Como ela era sócia do Paraíso Tropical do Cabula, ela se desvincularia do mesmo e em nome dela abrir-se-ia uma nova razão social - uma nova empresa e assim ajudávamos o pai e o irmão, trabalhando em sociedade e dividindo todos os lucros, dando Beto uma assessoria constante, tanto na formação do cardápio, bem como no contínuo acompanhamento da nova fase do projeto a ser criado.
Achei a idéia interessante, mas ainda não tinha tomado nenhuma decisão.
Não tinha qualquer idéia de como funcionava um restaurante, ainda mais de comida Baiana, nem como poderia geri-lo, estava seriamente preocupado com toda aquela movimentação repentina e súbita.
Não tinha qualquer experiência na área em questão, sempre trabalhei na área financeira ligado a reestruturações de crédito financeiro, por outro lado, sempre fui um homem de desafios e a idéia de ajudar Beto, a catapultar o seu nome e a sua culinária para outras galáxias me entusiasmava muito e deixava-me intrigado. Eu só sabia o que era boa comida e bom vinho,quando me sentava á mesa de um restaurante, para comer e beber, disso percebia eu... Agora comprar e fazer para os outros, era algo desconhecido.
O espaço que o mestre possuía no Cabula, que com tanto amor criou e recriou ao longo dos anos, tinha uma clientela muito especial, apesar de ser um local simples.
Eu sabia disso e ás vezes pensava, durante este período de indecisão, que se juntássemos a maravilhosa culinária já existente, a um novo espaço, mais requintado, com um bom serviço de cozinha de garçons, uma boa carta de vinhos, manobrista, enfim um serviço de extrema qualidade, o sucesso estaria perfeitamente garantido.
Falei com algumas pessoas, a maioria aconselhava-me favoravelmente, com algumas ressalvas jurídicas, já que todo o capital a ser investido no possível negócio era todo da minha parte.
Beto não possuía situação financeira, para investir qualquer quantia no novo negócio.
Entraria com o nome e conhecimento e eu com o investimento financeiro.
Carla e Betinho, como tinham trabalhado com o pai, possuíam igualmente algum conhecimento, tanto na área de compras e aquisição de produtos, como na área de relações públicas e marketing e divulgação do negócio... Culinária só o mestre ou então a sua companheira.

O Paraíso Tropical no Cabula, tinha uma freqüência bastante especial.
Beto tinha um álbum de fotos, onde com muito orgulho exibia os seus clientes globais e não só.
Formadores de opinião: (a exp.: Arnaldo Jabor, Licía Fábio, Duda Mendonça) Atores: (a exp.: Luana Piovani, e tantos outros) Músicos: (a exp.: Ed Motta, Paralamas do Sucesso, Daniela Mercury) e muitos mais. Beto constantemente dava entrevistas aos órgãos de comunicação social, sobre a sua culinária inovadora e natural ou então apareciam artigos sobre si em revistas nacionais sobre a sua gastronomia.
Tinha sido escolhido, para representar o Brasil em Porto Seguro – nos Quinhentos anos dos Descobrimentos Portugueses em mil novecentos e noventa e oito.
Tudo isto acontecia com a maior naturalidade, sem o mínimo de snobismo ou presunção.
Conversei longamente, com os irmãos (as) de Beto que o conheciam extremamente bem...
A opinião era generalizada. Devia fazer o negócio, mas com os devidos cuidados de salvaguarda de contrato, evitando no futuro situações que pudessem vir a acontecer.

Apesar de tudo, aceitei. Era um desafio e que desafio. Começamos a planificar toda a estrutura do novo restaurante. Havia muito trabalho a desenvolver e o capitão de todo o projeto estava bem ciente das dificuldades que esperavam por nós.

Tivemos algumas reuniões preparatórias sobre como criar novos pratos ou alterar a culinária tornando-a mais célere.
Decidimos manter tudo como estava com algumas alterações que seriam implementadas ao longo do processo de criação.
A primeira questão a ser resolvida era arranjar um espaço suficientemente grande e confortável, onde pudéssemos adequar às características estruturais do projeto já existente no Cabula, ao novo restaurante. Começamos a indagar com alguns indivíduos ligados a imóveis se havia alguma casa, residência que estivesse á venda ou para alugar dentro da cidade de Salvador.
Não encontramos nada que nos servisse e que fosse ao encontro das nossas idéias.
Até que soubemos que Klaus Peter, que desenvolveu a atual Praia do Forte e que era o dono do Resort estava interessado em movimentar e revitalizar o espaço subjacente ao “Castelo Garcia de Ávila”.

(No ano de mil quinhentos e quarenta e nove, Tomé de Souza foi nomeado o primeiro Governador Geral do Brasil. Anos mais tarde, o seu filho, Garcia D’Ávila recebeu de seu pai quatorze léguas de terras de sesmarias, que iam desde Itapoá até Tatuapara (Praia do Forte). Nesse local Garcia D’Ávila construiu em mil quinhentos e cinqüenta e um, o Castelo da Torre de Garcia D’Ávila. Em poucos anos, tornou-se o maior latifundiário do mundo, administrando as suas terras da Casa da Torre que foi a primeira construção de grande porte do Brasil e o único castelo medieval das Américas).

O projeto era criar um restaurante perto do Castelo que tivesse uma boa culinária e que levasse os turistas que estavam hospedados na Praia do Forte e não só.
Tivemos algumas reuniões com os responsáveis, do Castelo – fomos várias vezes ao local – o espaço era bem localizado com uma vista deslumbrante, talvez um pouco pequeno para as nossas intenções, mas o que originou a nossa desistência foi à distância de Salvador e os problemas de logística que teríamos, tanto de funcionários como de materiais.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Oitava Dose de Pílulas do Livro...

Como a culinária do restaurante é toda artesanal e feita na hora, (é super exigente com os produtos que adquire) torna-se um pouco demorada, ás vezes bastante demorada, o que provocava situações complexas que Beto tentava resolver a todo custo, principalmente quando o restaurante enchia.
Os atrasos eram freqüentes e era preciso um jogo de cintura, para que os clientes ficassem calmos e não entrassem em situação de desespero. A mão de obra, infelizmente também deixava a desejar.
Garçons pouco preparados ou nada preparados, os ajudantes de cozinha sem qualificação aparente, quem segurava o barco, era a companheira de Beto responsável pela cozinha na ausência do mestre...
Bem ele, tentava estar em todo o lado, mas era impossível e estas situações repetiam-se dia a dia, o que originava um stress continuo, naquele ser humano.
Comecei a notar que o mestre do barco, tinha muitas dificuldades para levar a bom porto toda a tripulação. Era sem dúvida, uma tarefa diária extremamente complicada e difícil.
Ás vezes sentava-me com ele e comíamos uma deliciosa carne do sol com pirão de aipim, enquanto ele reclamava da vida e da falta de apoio das pessoas dos funcionários que o rodeavam.
Falava e coordenava todos que apareciam á sua frente, era o rapaz que tomava conta dos galos de briga, o moço que não tinha comprado a ração certa, para a sua paixão – seu hobie – as polpas que estavam mal despolpadas, ou porque tinham azedado o camarão que estava pequeno e não tinha qualidade nenhuma, a lagosta tinha sido comprada muito cara, o maturí (castanha de caju verde) tinha de ser comprado até ao próximo final de semana, em grande quantidade, para ser estocado para o ano inteiro.
Como mestre e capitão do navio, chamava para si toda a direção do negócio, deixando pouca abertura para o seu filho e companheira tomarem algumas decisões, que o levariam a ficar um pouco mais tranqüilo e á vontade. Esta necessidade de controlar todo o processo criativo e gerencial deve-se ao fato de ser uma pessoa bastante perfeccionista... A tentativa de chegar à perfeição levou-o a criar e a conceber a mais pura culinária experimental de toda a Bahia – “La Nouvelle Cuisine Baiana”

O criador da nova cozinha experimental Baiana tinha um hobie (os galos de briga) uma paixão (a natureza) e um vício (o cigarro).
É impressionante vê-lo fumar, principalmente quando está nervoso ou estressado.
Fumava um cigarro atrás do outro, enquanto me contava os problemas relativos ao seu negócio.
A criação de todo esse processo, foi feito naturalmente e espontaneamente, sem nunca pensar em tornar-se num dos maiores chefes de cozinha da Bahia e conseqüentemente do Brasil.
Toda a sua culinária foi gerada ao longo dos anos, intuitivamente.
Nunca imaginou que o seu restaurante fosse um negocio como outro qualquer e que para além de criar e recriar constantemente a sua culinária era um empresário, que tinha na mão algo de extraordinário que precisava de uma gestão cuidada e profissional. Todos os produtos utilizados no restaurante e na sua gastronomia eram adquiridos, por vezes em locais distantes, pela raridade dos mesmos e a dificuldade em consegui-los, o que tornava a sua culinária bastante onerosa.
O mestre sabia disso, mas eram os produtos raros que faziam a diferença na sua culinária.
O nome do Paraíso Tropical começou a ficar conhecido – como ele dizia – boca a boca.
O criador da culinária tinha a noção, da dificuldade em manter sistematicamente, durante o ano inteiro a mesma freqüência de clientela, que tinha nos meses de verão de Outubro a Março, logo quando chegava ao inverno, acumulavam-se algumas questões  para resolver e aí começavam as dores de cabeça.
O movimento reduzia drasticamente, o local – Cabula – fora do centro da cidade, as noites de inverno tornavam-se solitárias e faziam os clientes ausentarem-se por longo tempo.
O capitão do barco tentava arranjar alternativas viáveis, mas a situação por vezes se complicava bastante e isso fazia com que o mesmo, não soubesse como resolver os problemas mais prementes.
Mesmo assim, a sua bondade prevalecia sempre.
Estava sempre disposto a ajudar alguém, que lhe pedia uma participação de comida em alguma festa ou evento, ou em dar quantidades de frutas apreciáveis, que ele mesmo tinha comprado para uso do seu restaurante... Notava que por vezes havia clientes, que quase nada consumiam de comida e que no fim levavam um ou dois sacos de frutas, para além da bandeja que era cortesia do restaurante.
Beto não sabia dizer não a ninguém, que lhe solicitasse ou pedisse algo.
Fazia amigos com extrema rapidez e os “amigos” sabendo da sua exclusiva bondade, tentavam aproveitar ao máximo, a mesma... Fazia parcerias com jornais locais, revistas, empresas, através de permutas de refeições no seu restaurante. Por vezes negócios pouco lucrativos para si e para a sua excelente gastronomia.
Neste meu curto tempo de permanência em Salvador, apercebi-me de várias questões relacionadas ao comando do negócio e das tentativas do mestre em tentar resolvê-las.
Fui criando respeito, carinho e amizade por esse homem, lutador e mentor de toda uma operacionalidade, que ele próprio não controlava na totalidade, já que sem se dar conta, o negócio era maior do que ele tinha imaginado. Tinha concebido um mundo de gastronomia, que rapidamente se multiplicava.

Mas faltava algo... E eu nunca descobri o quê. Pensei um dia ter descoberto, mas estava redondamente enganado. Andei lá perto, muito perto mesmo.







sexta-feira, 30 de julho de 2010

Sétima Dose de Pílulas do Livro...

Próximo o regresso a Salvador, o tempo urge e quando nos damos conta, ultrapassamos às vezes os nossos limites.
Santo, convidou-nos para almoçarmos em casa, que satisfação.
A senhora dele, fez uma feijoada sagrada – bendita feijoada, naquele fogão á lenha em plena tarde domingueira.

Pela manhã daquela Segunda-Feira, fomos para a estrada no sentido da capital baiana.
Tinha a noção que tudo ia mudar, ao volante refletia sobre o que me tinha acontecido e o que eventualmente poderia acontecer em termos de futuro.
O que iria fazer! Pensava talvez em montar um negócio. O quê! Não sabia; nem imaginava nada...
O carro ia deslizando ao longo da estrada, passando por fazendas, riachos e sítios, olhava e tentava memorizar a paisagem através do vidro meio fusco.
Alugamos um apartamento num flat, décimo primeiro andar, no corredor da vitória.
Ficamos por lá uns três meses, até irmos para o nosso apartamento, no bairro da canela.
Ao longo dos meses apareceram-me várias propostas de investimentos, algumas interessantes, outras nem por isso. Eu tinha em mente, montar uma pousada, algures pelo litoral norte e poder tranquilamente usufruir de paz e calma. Sonhos...! Quem não os tem. Sonhar é uma constante da vida.

Carla é filha mais velha de Beto e Célia, que faleceu quando Carla tinha dezanove anos de idade e deixou um legado de amor e carinho para toda a família. O carinho e amor que Carla transporta no seu coração, advêm em parte da sua querida e amada mãe.
Conheci Beto, na sua chácara lá pelos lados do Cabula (um bairro popular de Salvador), Beto foi criado com os seus pais e irmãos (família super carinhosa e amiga do amigo), em São Paulo e na fazenda em Bom Jesus – Saubara – a seguir a Santo Amaro – terra de Dona Cano, Caetano e Bethânia. A sua paixão pela terra, pela natureza, pelas arvores, pelos frutos é inquestionável.
Adora subir as árvores (como uma criança) e retirar Seriguela, Jambo, Manga, Cupuaçu, Bacupari e outros tantos frutos exóticos, que só ele conhece e oferece aos amigos e visitantes.
Conheci-o assim mesmo... Em cima de um pé de Jambo, no seu terreno no Cabula.
Cultiva dezenas de árvores de frutos e é um apaixonado pela culinária natural sem agro-tóxicos...
Que personagem!
Junto ao terreno, tem um espaço que é o seu restaurante, um dos mais famosos da Bahia e do Brasil.
O espaço do restaurante era muito simples, mesas e cadeiras de plástico, mas a culinária criada e inventada por Beto é excepcional.
Culinária Baiana é sem dúvida o grande inovador da cozinha Baiana.
Se há alguém que reinventou a cozinha Baiana, foi esse homem simples, e grande contador de histórias.
Não utiliza o óleo de dendê saturado nas moquecas, criou toda a cozinha experimental que hoje se faz na Bahia, mistura frutos e frutas, utiliza o bíri-bíri (em vez do limão) maturí (castanha de caju-verde), é um estudioso de toda a culinária do recôncavo baiano.
A sua cozinha, é leve, experimental, natural e saborosa, os seus sucos são autênticos sorvetes (frozens), as suas roskas (o nome que se dá à vodka com fruta) são néctares – só provando (as várias variedades de frutas são despolpadas à mão e guardadas, para depois serem utilizadas).
Para além da culinária, a sua outra paixão são os galos de briga – Homem integro e verdadeiro, nunca escondeu as suas particularidades nem paixões, doa a quem doer... Beto é o que é, sem máscaras, nem subterfúgios.
Entrei no restaurante, chão cimentado, nas paredes ao longo da entrada, molduras de alguns prêmios; chamou-me a atenção, “Le Commanderie des Cordons Bleus de France” em 2003.
Espaço simples, mas aconchegante, Beto estava no pomar, onde gosta de ficar. Meu pai chamou Carla – lá estava aquele homem em cima de um pé de Jambo, escolhendo a dedo, as frutas para serem colocadas na bandeja, que no final das refeições oferece aos clientes e amigos. Então Português! Na Bahia... Sim, respondi um pouco acanhado – vim para ficar, tentar algo – e já sabes o que vais fazer aqui? Que ocupação? Ainda não – olhando para o alto e verificando a sua agilidade em cima do tronco da árvore.
Desceu das alturas e veio-me dar um abraço.
Começamos a andar e a dirigimo-nos para o restaurante, logo começou a contar uma piada de Português. Beto tem uma peculiaridade muito especial, é um grande contador de histórias, adora fazer os outros rirem... Grande comunicador com uma capacidade de extroversão imensa.
Já sabia que situações idênticas iriam acontecer, pois da mesma forma que em Portugal, nós contamos piadas dos Alentejanos (região ao sul de Portugal – Alentejo), aqui se contam imensas piadas de Portugueses.
Estava preparado para o fato, já que uns dias antes de vir, fui calmamente á internet e procurei piadas sobre os Alentejanos e transformei-as uma a uma, em piadas sobre os Baianos.
A calma e a lentidão que o Alentejano tem de fama em Portugal, o baiano tem-na aqui no Brasil e eu sabia disso. Quando terminou de contar a história sobre os Portugueses, deu aquela gargalhada, que lhe é bastante peculiar e tentou iniciar uma série de piadas – ri-me com vontade e disse – agora é a minha vez – o meu repertório, não era tão vasto, nem qualificado quanto o de Beto, mas dava para brincar e nos divertirmos por alguns minutos. Assim fiz, puxei pela memória (nunca fui grande coisa a contar piadas), lembrei-me de uma bastante interessante e soltei-a – nessa altura já a companheira de Beto e alguns funcionários, se aproximavam de nós, pela curiosidade de conhecerem o marido da filha do patrão, bem como ouvirem de perto, alguém que falava a mesma língua, mas que tinha um sotaque bastante diferente e carregado.
A nossa relação, desde o início sempre foi à melhor possível.

Comecei a freqüentar com alguma assiduidade o restaurante de Beto (almoçava e jantava algumas vezes) e onde Carla tinha trabalhado com o pai, antes de ir para Portugal.
O Paraíso Tropical, assim se chamava o restaurante, tinha começado anos antes, com Célia e Beto, (era um restaurante familiar) que esporadicamente fazia comida para os amigos que se reuniam todos os dias.
O espaço era uma simples rinha de galos, que se tornou com a dedicação e trabalho num dos restaurantes mais admirados da Bahia e do Brasil. 

As famosas receitas exclusivas, (Preguari-tipo de molusco de casca mole, Tarioba-espécie de mexilhão, Siri mole), os sucos naturais, as Moquecas de Camarão, Lagosta e Polvo, a Torta de Maturí com Creme de Palmito de Coqueiro, a Galinha ao Molho Pardo, o Dandá de Camarão e as famosas Travessas de Frutas como Cortesia, (com Abis-espécie de pinha, Cagaita-fruta típica do cerrado de tamanho pequeno e agridoce, Cherimólia/Tamoia-tipos de pinhas do peru, Ingá-fruta comprida como fava, com caroços recobertos por polpa esponjosa e tantas outras), eram algumas das tentações que Beto tinha criado.

Notava a facilidade com que ele chegava ás mesas e iniciava conversas esporádicas e rápidas com os clientes, alguns antigos outros recentes.
Todos o adoravam e o respeitavam, pela sua espontaneidade e comunicabilidade.
Perguntava pela comida, se estava tudo bem e de mesa em mesa, ia contando “causos”: que tinha vinte e dois filhos, de várias mulheres, que o apelido dele era “Beto pau puro” porque de dia ficava na agricultura e á noite na criatura, perguntava se as pessoas conheciam o Ingá Rolão, (e mostrava uma fruta comprida de formato fálico), que o Genro dele, Ricardo, era Alentejano e Português... Histórias e mais histórias, que encantavam os clientes e que os faziam sorrir.
Por perto, ninguém ficava triste... Por vezes as pessoas soltavam gargalhadas...Descontração Total. 

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Sexta Dose de Pílulas do Livro...

Sexta-Feira Santa voltei a escrever.

Hoje, talvez pela necessidade espontânea de expressar aquilo que dentro de nós, de mim, de tudo o que me rodeia. Tenho falado da minha pessoa, em espaços temporais muitos grandes, preciso viver antes de escrever. O retrato de toda a minha passagem baiana tem de ser interiorizada e refletida para poder expressá-la e criar esta vontade verdadeira.

“Há sempre alguém que nos diz tem cuidado, há sempre alguém que nos faz pensar um pouco, há sempre alguém que nos faz falta...”

Nas nossas viagens pelo redor de Porto Seguro, fomos a Eunápolis, cidade pequena, onde comprei o meu carro, que me transportou, para lugares inimagináveis e impensáveis.
Tínhamos alugado uma viatura em Arraial de Ajuda, mas o custo era elevado, então talvez para evitar extras, adquirimos o carro.
Dos momentos preciosos em Arraial com os nossos amigos alemães, fomos para Itararé – Vila de Surfistas em plena mata atlântica – praias e locais cobertos por vegetação espessa e verde. Encontramos um pequeno resort/tipo pousada hotel, onde fizemos amizade com o proprietário; Paulista dos seus trinta anos, empresário que investiu com o seu pai (residente em São Paulo) alguns recursos, na divulgação do seu negócio.
Pessoalmente, já tinha estado em Itararé em mil novecentos e noventa e quatro, agora era tudo diferente – mais civilização, mas as ruas ainda são de terra batida e a população tentava a todo o custo, manter as tradições locais – de não à invasão exagerada e ambígua.
Fizemos alguns passeios diferenciados, apesar de eu não ser adepto de desportos muito radicais, ainda andamos de caiaque pelos afluentes e descemos algumas correntezas, para além de termos conhecido Maraú –
Alugamos um quadriciclo e com um guia, passamos o dia todo, procurando, buscando, espaços entre os já existentes de terra batida, de lama.
Acabamos no meio de umas dunas e o nosso olhar só alcançava – beleza.
Província de Maraú – Barra Grande – um dos paraísos desta terra santa, que se chama Bahia. (uns anos mais tarde, tive a satisfação de desfrutar daquele espaço)
Paulo o dono da pousada/hotel, passava sempre que podia, algum tempo conosco mostrando os arredores de Itararé.

Programávamos a nossa ida para o próximo destino.

Um local que eu recomendo, a qualquer ser humano, que goste de viver neste mundo cheio de coisas belas e de belas coisas.
Como é bom conhecer o desconhecido, amar o belo e fazer do que é menos bonito, lindo...
Saber sentir os sentimentos, que os nossos sentidos nos dão a cada descoberta momentânea de vida...

- Chapada Diamantina.

Quando Deus criou o mundo, procurou fazer daquele cantinho da Bahia, o seu local de descanso e de meditação.

Nunca mais me esquecerei daquela viagem. Saímos de Itararé, cedo por volta das seis e trinta da manhã, procurei saber o melhor caminho, indagando, tomando notas, para chegar á Chapada Diamantina.
Diga-se de passagem, que a experiência da viagem na estrada, foi traumatizante: As estradas péssimas, cheias de buracos... Desculpem, crateras, o meu carro novinho em folha, caia constantemente em buracos, buracões – só me apetecia sair do carro e colocá-lo sobre as minhas costas, para os pneus não furarem – e furaram... Prejuízo – dois pneus estragados foi o custo da viagem.
Chegamos pela noite cerrada, por volta das dez horas, estava exausto, já não raciocinava de cansaço, tinha de ter uma atenção redobrada ao longo de todo o trajeto (por vezes demoramos duas horas para fazer trinta quilômetros).
Chateado, dirigi-me á prefeitura de Lençóis no dia seguinte, queria explanar a minha indignação, por ter viajado durante horas a fio, em estradas, que mais pareciam crateras lunares.
A região é uma zona turística, que devia dar condições aos visitantes de acessibilidade...
Não consegui falar com ninguém de direito, a quem pudesse mostrar a minha opinião.

Reclamações á parte, o dia prometia.
Contratamos um guia turístico... Diogo Santo era o seu nome.
A chapada é um lugar mágico e místico – sabem aqueles espaços que nós criamos nas nossas mentes, que presumimos existirem um dia, algures, para além da nossa imaginação... Sabemos no nosso intimo, que é possível existir.
A cidade mais importante da região é Lençóis – toda a estrutura econômica vive á base de um turismo ecológico/ecoturismo.
Durante muitos anos, se fez a extração desenfreada de pedras preciosas, hoje é proibido, mas ainda assim, encontramos sempre alguém, procurando no fundo das entranhas desta terra, o sustento do dia a dia.
Terra de garimpeiros que comeram “o pão que o diabo amassou”.

Hoje, ontem, talvez amanhã encontremos o momento o passado e o futuro unidos, na tentativa de recriar este Brasil – Brasileiro, de conquistas e desenganos, de lutas, derrotas e vitórias, mas acima de tudo, de muitas virtudes... E honras.

Diogo Santo, pessoa humilde, gentil, disponível – sempre – Santo de nome e não só – de caráter e bondade. Em duas semanas, conhecemos tudo o que era possível conhecer, Santo se desdobrava para nos agradar e mostrar toda a informação que guardava com ele, desde os treze anos, idade que começou a levar os turistas que visitavam a Chapada Diamantina.
Conhecemos montes, vales, cachoeiras, onde tomávamos banhos ininterruptos, o morro do pai Inácio, rios, grutas e grutas... Natureza.

Paz, descoberta constante, a tranqüilidade, o silêncio – introspecção – meditação.

Vale do Capão – Onde Deus descansava todo o sétimo dia...
Para irmos até á cachoeira da fumaça, andam-se umas duas horas, subindo, subindo, até se chegar ao topo de uma montanha.
Exaustos, chega quem consegue subir, sôfregos, respirando com certa dificuldade...
Recuperado, olho para baixo e tenho uma visão indescritível – vejo um vale imenso, cheio de verde e somente verde... Onde estou? Ricardo lá em baixo é o Vale do Capão – responde Santo.
As lágrimas vieram-me aos olhos, pelo momento de alegria e paz que vivenciava. Fiquei uns minutos em silêncio... Abracei Carla e ficamos longos instantes contemplando talvez Shangrilá – onde o ser humano nunca envelhece e fica eternamente jovem de espírito e de mente.

O momento que nunca acaba existe sem dúvida, mais que não seja nas nossas mentes, enquanto a nossa memória não se apaga...






segunda-feira, 26 de julho de 2010

Quinta Dose de Pílulas do Livro...

Lisboa é a maior cidade de Portugal e possuí uma área metropolitana que ocupa cerca de 2.870 km2 com cerca de 2,9 milhões de habitantes.
Os seus bairros típicos, com as suas ruelas estreitas e castiças, são ímpares.
Morava num dos bairros mais típicos de Lisboa – a Graça – junto ao Castelo de São Jorge e do Miradouro de Santa Luzia – recordo-me das nossas finais de tardes de outono, um friozinho, acompanhado de uma bica (como se chama um café expresso em Lisboa) e de uns pasteis de Belém.

O Outono faz-me lembrar (não sei porquê) Outubro, talvez seja porque é quando começa o frio – e Outubro lembra-me “Amália Rodrigues” que morreu em Outubro de mil novecentos e noventa e nove.
Eu sou um apaixonado por “Amália Rodrigues” que representa o Portugal – Português.
“Amália Rodrigues” era uma diva que tinha o sentido do trágico e elevou o canto à condição de poesia, ela soube cruzar o fado com a mais elevada arte poética, trouxe a poesia erudita para o fado, remetia o seu gênio a uma condição natural – a intuição - e foi à intuição que trouxe para o fado poetas que não eram do fado, era maravilhoso para “Amália”, o fado se confundir com um estado de alma, carregado de emoções e que leva a um destino...!
Há fado na sua própria vida, “uma estranha forma de vida”.

E o meu destino. O que seria?...
Estaria o meu fado traçado?
Dava comigo, às sete e meia da manhã, naquele trânsito caótico da cidade das outras eras - Lisboa – falando sozinho e xingando o indivíduo que estava na viatura ao lado da minha, mas que, por portas e travessas, tinha tido a esperteza saloia de avançar uns metros a mais, naquele caos, que eu gostaria que fosse ordem.
Ordem/caos ou vice-versa. Que confusão sem solução aparente...
Isto se repetia todos os dias durante meses.
O pior da alma humana, é o sentimento de desilusão e ineficácia, quando achamos que temos a possibilidade de sermos um pouco felizes, mas infelizmente, não o somos.
Por vezes, existem condicionalismos que apressam/limitam as nossas atitudes as nossas tomadas de decisões.
Sem saber, Carla foi sem dúvida a passagem para a outra margem da ponte.
Cheguei, eram umas vinte e trinta da noite, Carla estava assistindo a novela (acho que brasileira), sentada no sofá da sala, com o aquecedor ligado e de coberta sobre as pernas ligeiramente dobradas, tirei o casaco e coloquei-o á entrada (no hall), dirigi-me ao toillet que ficava em frente á porta de entrada e ouvi uma boa noite amor... Retorqui... Boa noite querida, como foi o teu dia – indagou Carla – normal querida, (enquanto lavava as mãos, pensava seriamente de que forma abordaria o assunto) lembrei-me instantaneamente de convidá-la para irmos jantar fora, talvez fosse mais fácil, para mim – Carlinha vamos comer algo em algum restaurante, Rick (como ela me chamava) eu fiz jantar para nós, além disso, não achas que está um pouco de frio para sairmos! Fiquei sem resposta, mas ao mesmo tempo satisfeito, pela tentativa óbvia de Carla tentar agradar-me com o seu repasto, até porque sinceramente não me apetecia sair muito menos com o frio que estava – claro, claro, ficamos jantamos hoje em casa na boa. Carla levantou-se do sofá da sala e dirigiu-se ao meu encontro – estava saindo do toillet, quando ela me abraçou –
Carlinha precisamos conversar – vamos para Salvador...
Salvador! Porquê Ricardo, não entendi de férias?... O rosto mudou, os olhos ficaram parados, a olhar para mim, á espera de uma resposta.
Olhei, tirei o terno e a gravata e dirigi-me para o quarto (anteriormente e já por algumas vezes, eu tinha falado levemente sobre o assunto de irmos viver para Salvador) não de férias, mas definitivamente, acho que é o nosso destino, algo me diz...
A decisão estava tomada, a compreensão foi importante para a minha vinda definitiva para terras da Bahia.

Embarcamos em finais de Julho de dois mil e três, com destino – rumo a Salvador via São Paulo.
Tinha conseguido uma licença sem vencimento durante dois anos e com alguma dificuldade, até pela rapidez de todo o processo, vender o meu apartamento, por um preço bastante agradável, o que me dava à partida, condições e tempo suficiente, para analisar propostas de negócios, bem como formas de investimento possíveis.
Todo o resto que eu trazia, eram problemas emocionais e familiares que até hoje, tenho ainda alguma dificuldade em resolver.
A minha família, nunca aceitou bem a idéia, que eu tinha em mente, mas de uma forma ou de outra, foram lentamente dizendo sim – sem nunca dizerem amen.

Gerir, isso tudo, foi no início muito complicado e deveras problemático, até pelas saudades inerentes a todo o processo... Situações á parte, até que sou um felizardo, pelo fato de imensas vezes durante o ano, quando não me é possível ir a Portugal, alguém de família ou amigos, vem visitar-me e abraçar-me, o que me dá certo conforto e confiança.
Até porque existe um meio de transporte, bastante rápido que é o avião e que só são oito horas sentadas, sem quase se poder mover, bastante apertado – porque a distância da poltrona da frente, não nos permite sequer esticar as nossas pernas, quanto mais viajar confortável...

Amar e ser amado – eis a questão...

Chegamos finalmente a Salvador, deixamos as malas num Apart-hotel e seguimos viagem para Arraial de Ajuda – perto de Porto Seguro.

Arraial de Ajuda – é um vilarejo super aconchegante – rodeado de excelentes praias – e lugares ainda calmos e tranqüilos, pode-se desfrutar de dias e dias sem fim de sol e águas quentes – Trancoso – Praia do Espelho.
No início, ficamos hospedados numa pousada perto da Villa, o conforto não era lá grande coisa, então resolvemos procurar, algo de diferente, que nos desse mais tranqüilidade e sossego.
Depois de muito procurarmos, ainda demoramos uns três dias, presumo eu, batemos na porta certa. Angélica e Richard – que casal maravilhoso – tornamo-nos amigos ao primeiro contacto.
Eles são alemães que um dia, há Vinte anos, vieram de férias para Arraial da Ajuda – cansados da vida na Europa resolveram no ano seguinte, vender tudo e comprar um terreno junto ao mar e construíram a sua linda casa – com mais três casas, bastante aconchegantes, que alugam só para os amigos que vêm de fora. Nós não éramos conhecidos muito menos amigos... Mas a empatia aconteceu.
Angélica era estilista de moda – alta costura européia – Milão, Roma, Paris, Berlin – amiga de Karl Lagarfeld – que pessoa fantástica, extrovertida, estilosa, sempre bem vestida e super maquiada e pintada – chiquérrima – até quando colocava biquíni se tornava chique.
Richard é professor catedrático de Física Nuclear – vai uma vez por mês para o Recife, corrigir as teses de Doutoramento, daqueles que tentam fazer da física o seu modus vivendi.

Que casal, que pessoas de uma personalidade e simpatia extraordinária.
Ficamos algum tempo, bastante tempo hospedados em casa deles...
Eles adoravam receber os amigos dentro de casa... O mobiliário de sua casa era todo em acrílico – misturado com imensas antiguidades – aparadores –arte sacra - relógios antiqüíssimos – de um gosto aprumado e soberano.
A sua sala de jantar era bastante ampla e aproveitávamos os jantares que nos eram oferecidos, com muita prosa salutar e agradável.
Estávamos em lua de mel, todos os momentos se tornavam únicos e aprazíveis, tudo para mim era novidade, as praias lindíssimas, o convívio com as pessoas, o simples acordar e tomar o café matinal junto ao mar, ouvindo o som das pequenas ondas junto á areia.
O nosso pequeno lar ficava juntinho á praia... Era bom de mais...
Angélica, não bebia bebidas alcoólicas, mas Richard, de quando em vez acompanhava-me, num vinho branco bem gelado (de preferência Português) ou então num belo e borbulhoso espumante...
Estes eram os nossos finais de tarde, depois de longos passeios (tínhamos alugado um carro) pelas praias ao redor – acho que percorremos todas as praias que foram sugeridas, num redor de cinqüenta kilometros.

Ás vezes atravessávamos de barco e íamos até Porto Seguro – conhecer um pouco da História – da Bahia e do Brasil, indagando quem tinha sido fulano ou beltrano – qual o seu papel na construção deste Brasil – Indígena, Português e Africano.
Constantemente, penso sobre a epopéia dos descobrimentos Portugueses e o que levou os meus antepassados, a desbravarem esses mares nunca antes navegados. A coragem a determinação de um povo, que procurando sobreviver, encontrou novos povos, novas culturas novas gentes... Gentes diferentes por esse globo terrestre fora.
Tento imaginar o que seria no século XV e XVI viajar dentro de uma nau, atravessando durante meses e meses os oceanos perfeitamente desconhecidos, com intempéries e passando por lugares que se julgavam inultrapassáveis, porque os relatos anteriores diziam que havia monstros (enfim lendas que foram desmistificadas pelos bravos e destemidos marinheiros Portugueses).

Acho que sem convencimento algum, nem melindrando ninguém, posso afirmar, com as devidas proporções temporais, que podemos comparar a importância dos descobrimentos Portugueses, á viagem do primeiro homem á lua...
Agora estava junto, ao que foi o primeiro local de desembarque dos marinheiros Portugueses, quando resolveram aportar em terras de Porto Seguro.


quarta-feira, 21 de julho de 2010

Quarta Dose de Pilulas do Livro...

A Baia de todos os santos é a maior do Brasil e uma das maiores do mundo. Tem uma área de mais ou menos 970 km2, trinta ilhas, imensas praias e enseadas que formam belíssimas paisagens e diversos rios e riachos.

A beleza da cidade – salvador- confunde-se com o seu mar e com a extensão do mesmo.
Águas calmas, tranqüilas, como se os santos, nos quisessem dizer..., algo.
Velejar, pelas águas da baia, nos remete para momentos únicos de tranqüilidade e paz interior.
Soube mais tarde, o significado desta vivência, profícua.
Regressei a Salvador, em dois mil e um, para assistir “in loco” aquilo que só ouvia falar através da mídia. O carnaval de Salvador é uma festa indescritível e única, que só pode ser retratada através da vivência pessoal de cada um.
Cheguei, numa Quinta-Feira pela noite e fui diretamente para um apartamento alugado, perto de um dos circuitos do carnaval – Campo Grande...
Pela manhã do dia seguinte, uns amigos foram buscar-me para me mostrarem a folia carnavalesca.
Passamos os dois dias que se seguiu á minha chegada, divertindo-nos e conhecendo o que de bom esta festa mágica tem para nos mostrar. É interessante tentar descrever, a alegria, a satisfação, que se vê nos rostos das gentes, espalhadas por essa Salvador mágica e verdadeira...
Viver a Bahia em período especial de alegria é algo que tem a ver com magia... Magia é o sorriso das gentes – das crianças – dos pais – das avós... Enfim de todos nós, que procuramos, sempre e constantemente, aquele momento especial de felicidade, mais que não seja aquele momento...

“A vida é feita de pequenos nadas e são os nadas que constrói o todo”
E o que são os nadas, senão os momentos, somados e elevados á sensação prazerosa de eventualmente, podermos ser um pouco felizes... Algures.

Por volta das treze horas de Domingo, dirigi-me á concentração do trio elétrico – Bloco Eva – com quem? Adivinhem claro Ivete Sangalo.
Jamais imaginaria e o digo com plena convicção, que pudesse vivenciar algo tão diferente do que estava habituado.
Não imaginava o que era um bloco de carnaval, nem nunca tinha visto um trio elétrico – o que passava em Portugal através da televisão era o carnaval do Rio – Sambódromo.
Jamais, tinha a noção do que era a folia.
As pessoas se concentram e esperam que o bloco - número de pessoas junto ao trio - que adquirem um abada, saia pela avenida. O percurso dura em média umas cinco a seis horas.
Ao longo do trajeto, a sensação de felicidade está estampada nos rostos destas gentes, cantam, dançam, gritam... Olhava para as casas e via cartazes – dizendo: eu te amo Ivete – eu te adoro Ivete – o som e a música, faziam estas gentes, se deliciarem com o ritmo e com o suingue constante e ritmado... Que delícia.
Ficava imaginando, os meus estimados amigos em Lisboa, com uma temperatura de cinco seis graus – frio pra carago – e eu nesse bem bom eufórico e vivenciando, momentos únicos de satisfação.
Olhava e via pessoas nas árvores – ao longo do percurso, nas varandas das casas, nos passeios... E toda a bela gente dançando e vibrando...

Como é bom ser baiano... Pensava.
Como devem imaginar, nos dois dias subseqüentes, já me sentia perfeitamente em casa – como se diz em bom Português.

Retornei no ano a seguir pelos mesmos motivos – á procura de algo! O quê? – e a minha vida começou a ser alterada, minuto a minuto eu me reencontrava com o meu sentido/destino/vida.
Vim, a saber, mais tarde, (alguém me confidenciou) que o meu “regresso” á Bahia-Salvador, tinha a ver com uma questão espiritual de resgate, com alguém, com algo...
O que era esse resgate? Indagava constantemente... Sabem aquela noção de insatisfação constante..., Deixou de existir a partir do momento em que vim para a Bahia.
Meu querido e amado pai Roldão e minha querida e amada mãe Zita (já desencarnada) me mostraram o caminho da espiritualidade, e do amor.
Desde miúdo, com outros entes familiares, que me são muito queridos, buscávamos intensamente a verdade, através da doutrina e do racionalismo cristão.
Fui educado sabendo, que um dia, certo dia, abandonaria esta fisionomia, para aceder a outros campos energéticos, onde pudesse continuar a evoluir.
Por isso quando alguém me disse – Ricardo tu estás aqui hoje e agora, para cumprir aquilo que não terminaste um dia! Nada respondi, simplesmente acedi á constatação.
Vim a verificar que realmente, as coisas foram se avolumando ao longo dos anos, de uma forma intrínseca e verdadeira... E quando dei por mim estava em Salvador, casado e apaixonado pela mulher baiana – que segundo me disseram, fazia parte do meu resgate de vidas passadas.

Estranho!... Mas verdadeiro e verossímil.
Olhava e procurava talvez, algum olhar no meio de tantos olhares, de tantas dissertações de tudo o que é possível procurar e verificar.
Talvez pudesse encontrar – ou sentir – os sentidos nos dão a orientação dos momentos precisos, nos transportam para além – e estávamos no meio do carnaval, num camarote em algum local da Barra.

Encontrámo-nos no meio desses olhares, mas aqueles olhos eram únicos e talvez fosse o momento.
Depois daquele minuto, tudo mudou...
Aquele minuto se transformou em minutos e os minutos em horas, paixão, amor, meses, casamento. Sim, casei-me mais tarde, com Carla em Dezembro de dois mil e três em Salvador... Que loucura deliciosamente louca.
Alguns dias depois, tinha de viajar para Natal, para me encontrar com uns amigos e regressaria para Lisboa, via Recife.
Só que a “saudade” era mais forte... A palavra “Saudade” só é conhecida em Galego-Português e mostra a mistura dos sentimentos de perda, amor e distância, define a mágoa que se sente pela ausência... E quando matamos a “Saudade” sentimos alegria.
De Lisboa, falava todos os dias com Carla – via telefone, até que tomamos uma decisão, que penso ter sido a mais sensata... (até pelos custos inerentes... telefônicos!).
Carla foi viver para Portugal – assim estávamos mais perto um do outro e poderíamos desfrutar daquilo que sonhávamos há já alguns meses.

Terceira Dose de Pílulas do Livro...

Em vinte e cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro, deu-se uma revolução em Portugal, revolução pacífica – chamada de revolução dos cravos – ela acontece devido ao descontentamento de um pequeno grupo de oficiais do exército Português (movimento dos capitães de Abril) que descontentes com a sua situação, resolvem tomar o poder.

A mudança política e social em Portugal desencadeia o que já se espera á bastante tempo – a descolonização dos países africanos de expressão portuguesa – Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
Eu fui para Portugal com os meus pais em Outubro de mil novecentos e setenta e cinco, com nove anos de idade.
Toda a minha formação e todo o meu crescimento foram passados em Lisboa.
Foi em Lisboa, que fui adolescente, que me formei e aprendi a ser homem a ser marido e por último pai.

Foi em Portugal que aprendi a amar e ser amado...

Lisboa a cidade das sete colinas.
A história confunde-se com a própria vida das pessoas e Lisboa tem essa capacidade de fazer que constantemente nos lembremos dela – cidade. Bairro alto, Mouraria, Madragoa, Alfama – bairros típicos que por si só são a história desta cidade cheia de luz, cidade branca, banhada pelo rio Tejo – e que tantas vezes foi cantada através dos poetas.
Cidade dos poetas – cidade do FADO – cidade de Santo António (que nasceu em Lisboa no bairro da graça e não em Pádua, como muitos querem fazer crer) Cidade dos Fados/Destinos – Capital do grande império que foi Portugal, país á beira mar plantado que um dia ousou conquistar os mares e desafiar os velhos do Restelo.
Cresci, nessa mudança política constante entre a esquerda e a direita – entre o socialismo e a chamada socialdemocracia que afinal não é mais que um neoliberalismo/ ou capitalismo camuflado. Durante muitos anos o rumo do país parecia descambar para um precipício (como disse um dia "João Alves da Costa” um manicômio em auto-gestão” exagero ou não um célebre dia de mil novecentos e oitenta e cinco, no Mosteiro dos Jerónimos, em Belém – foi assinado o tratado de adesão de Portugal á Comunidade Econômica Européia.

Comunidade Econômica Européia! Perguntávamos nós, o que é isso, será que o país vai beneficiar também no aspecto social!
Diga-se de passagem, que todas as pessoas que me conhecem, sabem bem que eu sempre fui um céptico em relação aos objetivos finais da CEE, como era conhecida a sigla.
A adesão de Portugal foi efetuada em três fases, na primeira fase o objetivo era uma união agrícola – uniformização dos processos agrícolas dos doze países (na altura) pertencentes á CEE.
Na segunda fase, uma união econômica – critérios de convergência econômicos, moeda única Euro e uma terceira fase que levanta e levantará mais polêmica ao longo dos anos que é a união política, fazer uma confederação de estados europeus – naturalmente que para nós estudantes universitários e jovens irreverentes e contestatários, isto tudo nos cheirava a esturro. Eu viria a ter razão.
Claro que com a quantidade de dinheiro enviado a fundo perdido, os governos foram ao longo dos anos, construindo estradas, hospitais, escolas e camuflando um pouco as questões sociais, desemprego, baixos ordenados, custo dos produtos essenciais muito elevados, preço da habitação super inflacionado, custo dos transportes, gasolina a um preço exorbitante, a mais cara da Europa, impostos elevadíssimos – claro que a comunidade européia tinha um preço e nós estávamos a começar a pagar por esse preço de uma forma muito elevada.
Portugal praticamente importa tudo, excetuando alguns bens de consumo de primeira necessidade.
O país produz vinho, azeite e cortiça, a indústria salvo raras exceções, não se preparou convenientemente para a competitividade que aí vinha. Os mais preparados tomariam conta do mercado.
A salvação era o turismo, devido ao litoral que Portugal detém e também por causa do clima ameno existente, em comparação com outros países da Europa. Mas nem no turismo se conseguiu atingir os objetivos a que se propunham.
Os nossos vizinhos espanhóis, melhor preparados começaram a tomar conta de alguns sectores da economia portuguesa e aproveitando o espaço econômico livre, sem restrições, foram aos poucos comprando o que de melhor havia no país. As multinacionais de grandes empresas mundiais que tinham sede em Lisboa e no Porto foram fechando e transferindo-as para Madrid – a nova capital da península ibérica.

Não querendo ser muito céptico Portugal transformou-se num país de serviços...
A população inicialmente sentia-se indignada, depois quase que atraiçoada e finalmente angustiada.

– É o fado / destino dos portugueses...!

A melancolia dava lugar á alegria e á satisfação, as pessoas deixaram de ter poder de compra e refugiavam-se nas suas casas, a taxa de endividamento bancário é muito elevada no país, à população trabalha para pagar o empréstimo da casa durante trinta anos e o carro durante cinco anos, com os ordenados mais baixos da Europa e com a carga tributária mais elevada o português tornou-se angustiado e com a entrada do Euro (moeda única) a situação agravou-se ainda mais, porque os bens de consumo ficaram todos mais caros.
O português com as regras impostas por Bruxelas - economicistas e tecnocráticas tornou-se mais solitário, só pensando em si próprio e não tendo tempo sequer para a família quanto mais para os seus amigos e conterrâneos é o sistema capitalista funcionando da forma mais atroz.

Esta é a essência do Portugal que eu conheço e vivi até bem pouco tempo atrás.
Não gosto deste Portugal, queria aquele Portugal humano, social e tranqüilo onde as pessoas se cumprimentavam na rua sem estarem preocupadas se terão dinheiro para pagar a renda da casa e a prestação do carro (porque os juros vão subir) e iam á padaria comprar pão feito no forno á lenha, sem pensarem em abastecer o carro hoje, (porque amanhã a gasolina aumentará outra vez).

Que saudades do Portugal Português de todos nós e que indiferença ao Portugal Pseudo Europeu... De alguns; muito poucos.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Segunda Dose de Pílulas do Livro...

No dia seguinte, retornamos a Itaparica, para os últimos três dias em terras de Pedro Álvares Cabral...

Itaparica é uma ilha que fica em frente a salvador a mais ou menos cinqüenta minutos de ferry-boat, é algo tão tranqüilo, tão calmo, tão reconfortante, que se as pessoas soubessem, iriam para a ilha para curar dos seus esgotamentos e sairiam concerteza completamente refeitos e recuperados.
A freqüência da ilha é fundamentalmente de nativos, somente aos finais de semana vêm outras gentes, aqueles que habitam na cidade-Salvador.

Por vezes, encontra-se João Ubaldo, passeando de calções e chinelos, juntos ao caís de Itaparica, cumprimentado por todos aqueles que passam ao seu redor, senta-se junto ao muro observando o lento e silencioso bater das ondas.

O único stress em determinados dias, é o cantar dos pássaros e o bater das ondas...

Estávamos no caís observando a Ilha de Madre - de Deus que fica bem á nossa frente, quando Zé Gordão (habitante e nativo da ilha-homem de sete actividades-Professor, Técnico de Futebol, dono de Bar e principalmente homem com um objetivo social dentro da comunidade – fundou uma escolinha de futebol juvenil, sem ajuda de ninguém só de Deus – segundo ele dizia. Meninos – como ele nos chamava – Gostaria de fazer um jantar para vocês, o que acham. Hoje á noite está bom... Claro, respondemos quase que em uníssono, Zé tinha um barzinho que funcionava só para os amigos, em dias especiais, quem cozinhava era a Senhora dele e ás vezes a mãe.
Meninos, a minha mãe quer fazer algo para vocês, ela é que insistiu, podemos levar um vinhozinho Português, perguntei – claro Ricardo para vocês, tu sabes que eu não bebo – Zé era evangélico e o álcool era proibido na sua formação religiosa.

Tínhamos passado bons momentos no bar do Zé, tomávamos umas atrás de outras, comíamos uns petiscos feitos pela Senhora dele e ouvíamos umas mornas de Cabo-Verde ao final de tardinha no meio da rua, pois a casa dele ficava em frente ao caís e á praia, Zé punha as caixas de som no passeio e fazíamos grandes farras ao som da música Cabo-Verdiana dos Tubarões, (era um grupo de excelentes instrumentistas, da música de Cabo-Verde)
Cabo verde e um país africano, constituído por dez ilhas e que está localizado no oceano atlântico e que foi colônia de Portugal desde o século XV até á sua independência em mil novecentos e setenta e cinco. O povo cabo-verdiano é conhecido pela sua musicalidade.
Morna é um estilo de música mais calmo – mais introspectivo – idêntico ao que canta hoje Cesária Évora – inclusive á quem diga que o Fado tem as suas raízes na morna, porque os marinheiros Portugueses, nas longas viagens de ida e de volta, ouviam os escravos a sussurrar determinado som triste, melancólico. Outro estilo era a coladera, mais animada que ás vezes Zé perguntava e afirmava – Será que não é lambada – ele próprio dizia – Claro que é ao que eu respondia – é parecido Zé, tudo vem de lá, de áfrica...
Nunca tínhamos comido aquele repasto que a mãe de Zé tinha feito com tanto esmero.
Era Caruru...
Feito de quiabos, camarão seco, castanha de caju, amendoim, gengibre e azeite de dendê, acompanhado de vatapá e feijão fradinho... E regado com um vinho branco que trouxemos de Lisboa... Hummm...
Mãe de Zé discretamente, como mandam as regras, olhava para nós, sem nada dizer esperando é claro o nosso pronunciamento, Calicas sem mais delongas levanta-se e diz com o copo de vinho levantado na mão direita – “Que sejam estas as últimas balas que possam trespassar os nossos depauperados corações” (era uma saudação nossa que utilizávamos em todas as circunstâncias quando brindávamos a algo) que assim seja, disse Zé sem compreender muito bem o que Calicas queria dizer com aquela frase...
Obrigado por tudo amigo Zé, você nos proporcionou momentos muito agradáveis e ao dizer isso dei-lhe um abraço com muita emoção e sinceridade, ao que Fêfê logo em seguida (agradecendo os bons momentos) – pela primeira vez comi aqui na Bahia e penso que é opinião de todos, algo muito saboroso, por que foi feito só para nós com amizade e amor... Os olhos de Zé encheram-se de lágrimas de emoção e a sua mãe disse muito timidamente – é exagero, é exagero meu menino.

De regresso a Lisboa, para nosso desespero as férias tinham acabado, mas para nós tinha ficado o que de melhor poderíamos subtrair.
Talvez dos três, eu tenha ficado mais marcado com aquilo tudo. Éramos três africanos (Féfé Moçambicano, eu e o Calicas Angolanos e da mesma terra – Lobito) indo buscar um pouco das nossas raízes culturais a um Brasil – Baiano cheio de sons, de cores e de cheiros.

Portugal estava a começar a mudar aos poucos, as verbas comunitárias algumas a fundo perdido, tinham alterado a fisionomia do país.
Estruturalmente e organizacionalmente notavam-se mudanças.
Toda a zona portuária de Lisboa junto ao Rio Tejo que banha a capital estava a ser reestruturada, preparava-se a Expo noventa e oito, a exposição universal realizar-se-ia em Lisboa pela primeira vez na história deste país secular. Comemorar-se-ia os quinhentos anos dos descobrimentos Portugueses além mar e a revitalização do pais era inadiável.
Nunca na recente história da Republica Portuguesa, o país tinha recebido tantos fundos financeiros e econômicos e a esperança renascia com a idéia de modernidade. As obras sucediam-se umas atrás das outras, algumas empresas portuguesas, começavam a preparar a sua internacionalização e tentavam aumentar a sua capitalização bolsista. Os bancos de capital privado Português, criados por empresários Portugueses, sistematizavam as suas operações bancárias de crédito.
Os governos abriam oportunidades de investimento, para fomentarem o crescimento econômico do país, resultando um aumento do crédito ao consumo, o crédito á habitação e á aquisição de viaturas generalizava-se por todo o país.

Que felicidade para todos nós... Passageira ou duradoira!
A que preço? Perguntava a mim mesmo.

Uns anos mais tarde soube a resposta.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Primeiras Pílulas do Livro...

Final de tarde, agosto, o cheiro de terra úmida exalava do chão.

Umidade misturada com a terra vermelha, os sentidos afloravam de uma forma inexplicável...

Sensação de “deja vu” (já estive aqui)? Quando? Será que a excitação provocada pelo momento, é suficiente para alterar todos os meus sentidos!

Calicas e Féfé chegaram um belo dia, lá para os meados de Maio, (sim Maio de mil novecentos e noventa e quatro) estava eu a beber um café com uma amarguinha, (licor de amêndoa amarga) na nossa gelataria, onde o pessoal se encontrava quase que sistematicamente.

A Gelataria era uma espécie de café, ponto de encontro de todos nós, Passagem obrigatória para colocar a prosa em dia...
Ricardo vamos para o Brasil...
(Aqui começou toda a minha história e o que me levou a escrever este livro). 

A desconfiança surgiu do nada, até então nada suporia que algo como o que estava a acontecer pudesse surgir sem nenhuma justificação. O porquê do convite! Recordo-me perfeitamente – Cara de admiração...! Eram meus amigos, curtíamos para valer, tivemos momentos ótimos, mas passar férias no Brasil os três sozinhos! Sem as namoradas! Que estranho...!

Na altura eu namorava com Rita, que veio a ser mãe dos meus dois únicos filhos. (gêmeos)

O nome Brasil, por si só cheirava a tropical uma mistura de áfrica (Angola) com Portugal e com os povos indígenas. Veio-me á mente a grande questão da colonização e talvez o que de mais importante os Portugueses fizeram nas ex-colônias, a mistura de raças, miscigenação. Nenhum outro povo conseguiu criar esta irmandade hoje em dia tão respeitada, como os Portugueses.

Nascido em Angola, falar do Brasil era falar de África... Do som, do cheiro, da tonalidade e das tonalidades das gentes, das prosas, do mar... Imenso mar, águas quentes, pôr do sol, noites longas, luar, acordar...

Enfim, era verdade íamos para o Brasil... E logo para a Bahia – Salvador... Quem diria...

Bahia, mais tarde vim a descobrir que realmente é a terra da magia e da alegria.

O sentimento de já ter estado em determinado lugar, ocorre de uma forma intrínseca e imediata. O momento é vivido em duplicado e naquele final de tarde eu sentia que já tinha passado por ali.

Desembarcamos e fomos para um local...
Vim, a saber, um dia, que era Itaparica, terra de João Ubaldo Ribeiro.
A minha relação com Itaparica veio a tornar-se muito intensa... É uma ilha que fica na Bahia de todos os Santos e onde nada acontece por acaso, mas onde tudo existe, através da energia duradoura.

O tempo parou em Itaparica, mas parou de uma forma solene e benéfica... Que beleza, poder desfrutar do tempo... E utilizá-lo sem pensar em gastá-lo...
O nosso desejo era que as nossas férias se prolongassem por dias a fio, sem a necessidade nem a preocupação do retorno.

Viajamos imenso, conhecemos alguma parte do litoral da Bahia – Morro de São Paulo – Itacaré e em Ilhéus assistimos ao sete de setembro, coincidência ou não, dia da Independência do Brasil.

Havia em nós já nessa altura, a noção de uma aculturação.
Refiro-me á quantidade de novos sinais identificativos que aprendemos a utilizar através da televisão.

As novelas Brasileiras vieram sem margem para dúvida, agregar ao quotidiano dos Portugueses novos sinais de identificação cultural.

Claro que estávamos receptivos a descobrir, novos ritmos, novos sons e novas formas de vivência, que aprendemos a respeitar a partir do momento que Jorge Amado – com a sua linguagem realista entrou nas nossas casas através da novela “Gabriela Cravo e Canela” a primeira novela Brasileira a passar em Portugal.

Ilhéus – Terra do Cacau – Recorda-me perfeitamente como se fosse hoje – tínhamos alugado em Valença (perto do Morro de São Paulo) um Fiat Uno e ao chegarmos – pairava no ar, um cheiro tão agradável de cacau – naquele momento preciso, eu identifiquei, o que Jorge Amado sempre nos quis dizer através da sua escrita. Eu estava ali sentindo através do cheiro – o que a Bahia tinha para mostrar.
Ás vezes basta uma descrição, para quando vivenciamos o momento sabermos que é verdadeiro.

Que extraordinário termos a possibilidade de viajar, mais que não seja através da imaginação.

A magia da Bahia a que eu me refiro, começou a partir deste momento a aparecer ao meu olfato como primeiro sinal do que estava para vir. E o que viria era talvez algo impensável nesta altura.

Retornamos a Salvador.

A cidade toda ela é cheia de Luz de vida e fundamentalmente de cores. Todo o santo dia é dia de festa e que festas.
O baiano é super comunicativo, expansivo, gosta de sentir de tocar de abraçar – igual ao africano – Descobri imensa identificação com Angola, o cheiro de Dendê (em Angola é óleo de Palma – da Palmeira) o pirão, os ritmos constantes nas ruas, a beleza inconfundível da negritude – a cor de ébano a mistura de gentes, mas o que mais me impressionou foi à simplicidade das gentes do povo.

Não existe tristeza, nas faces das pessoas – apesar de algum descaso social por parte de quem de direito, os Baianos são imensamente bonitos, porque são simplesmente alegres.

Fomos a um lugar chamado Pelourinho – que fica no centro Histórico da cidade de Salvador, na parte alta da cidade. O pelourinho é um lugar mágico, onde se encontram todas as confluências culturais e sociais da cidade. Lá habitam músicos, artistas plásticos, artistas de rua, passeando naquelas ladeiras de calçada Portuguesa, encontramos a cada esquina – alguém fazendo tranças no cabelo de algum curioso querendo mudar de visual, alguém pintando, é lá onde fica a Fundação Jorge Amado – e algumas das mais belas igrejas de Salvador.

Um amigo comum conduzia-nos pelas ruelas do Pelo – e a cada olhar fomos descobrindo um pouco de Lisboa – Sem dúvida a identificação é inegável, os parapeitos das janelas, as portas das casas, a cor das mesmas, transportava-nos para a bela e bucólica Alfama. Com um simples olhar estávamos algures na cidade do Tejo...

O nosso cicerone e amigo que vivia em Itaparica, tinha-nos falado que ás terca-feiras, havia um ensaio de um grupo que fazia as pessoas ir ao delírio com as suas batucadas ritmadas, segundo ele era uma mistura de Afro-Reagee e que nós íamos adorar. O ensaio começaria por volta das oito horas da noite.

Aproximamo-nos, era uma casa antiga, a fachada um pouco abandonada, mas para nós era uma excitação imensa, compramos o ingresso, subimos umas escadas e fomos ter a um pátio – uma área aberta, ao ar livre, com imensa gente conversando descontraidamente e aguardando pelo inicio do show.

Querem beber o quê? Cerveja claro - respondeu o nosso cicerone, não devem beber nada destilado, pode ser falsificado, nesse instante já o grande Calicas trazia algumas cervejas de lata com ele – toma Ricardo, obrigado amigão, as próximas são minhas ok! Tu é que mandas, respondeu Féfé com o seu ar de brincalhão feliz e assim continuamos por alguns momentos, aguardando pelo inicio do show. Foram chegando cada vez mais pessoas, estávamos todos de pé, não havia cadeiras nem ordem de posicionamento...

De repente, começo a ouvir uma batucada intensa e ritmada, nunca tinha presenciado nada igual... Era talvez uns quinze homens negros, cada um, com um tambor pendurado através de uma fita ao seu pescoço. Os tambores eram pintados com um grafismo verde e amarelo, lembrando um pouco o desenho das panos que as mulheres negras usam no congo e angola- ou seriam as cores da Jamaica! Não sei, comecei a ficar confuso e lá no fundo (já era noite cerrada o céu carregava algumas estrelas, tinha chovido e a noite estava fresca) surgiu uma voz OH OH OH OH ROSAA, OH OH OH OH ROSAA, ALEGRIA CIDADE CANTAA SALVADOR, OH OH OH OH ROSAA, OH OH OH OH ROSAA, ALEGRIA CIDADE CANTAA SALVADOR, era o Olodum, que loucura, o pessoal começou a dançar a movimentar-se acompanhando o som e o ritmo cada vez mais constante da batucada e que batucada. É um ritmo frenético, os tambores parecem que falam toda a mesma língua, sincronizados acompanhando a voz só com um microfone, a batucada não para, ela é contínua somente com algumas nuances de ritmo, agora é mais intensa e a galera quase que entra em êxtase ou será transe, eu olhava para frente e via os meus amigos dançando continuamente sem parar, transpirando toda aquela energia que existia ali naquele momento, como se o som estivesse em comunhão com as nossas almas.

Que experiência, que energia, jamais esquecerei...