quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Décima Nona Dose de Pílulas do Livro...

Este ano de dois mil e cinco a cerimônia de Yemanjá, dia dois de Fevereiro calhava numa Quarta-feira véspera de carnaval.
O sagrado e o profano juntos... Só mesmo nesta terra maravilhosa algo assim poderia acontecer. Aguardava-se que as duas festas se misturassem transformando Salvador na capital religiosa e da alegria...

Comemoraria a data do meu aniversário no dia cinco de Fevereiro Sábado de carnaval.

Meses antes Dona Licia tinha-me chamado ao seu gabinete, para uma reunião, relacionada com o carnaval: Gostariam de participar um dia no camarote de Daniela mostrando a vossa culinária? Prontamente disse sim.
A visibilidade é imensa, por noite passam pelo camarote na Barra cerca de mil pessoas. Teríamos de confeccionar comida para esse número de ilustres convidados vindos de todo o país e não só... Que desafio.
Combinei tudo com Beto escolhi os colaboradores para nos ajudarem na tarefa e eis chegados o dia.

Solicitei a Licia que o dia escolhido para o Paraíso Tropical mostrar a sua gastronomia inovadora fosse o Sábado dia cinco... Era o dia mais concorrido para os restaurantes convidados.

Para mim seria um momento único.

O Paraíso iria fazer um jantar no Camarote de Daniela Mercury, para todos os convidados e logo no dia cinco de Fevereiro data do meu aniversário... Para poucos, pensava eu.

A criadora do camarote uns dias antes da festa começar, fica incomunicável ou no seu escritório ou na sua residência, fazendo a lista de convidados para os cinco dias da folia.
Toda a gente tenta falar com ela, solicitando pedindo camisetas para participar do grande evento.

A organização é impecável a noite toda até altas horas da madrugada, o serviço não para e nada falta. Constante desfile de estrelas...
Licia tinha-nos oferecido camisetas para todos os dias e em especial uma quantidade apreciável para a data do meu aniversário.
Tinha convidado os meus amigos mais íntimos e familiares, alguns ofereci a camiseta a outros solicitava que quando lhes fosse oferecida sugerissem a data de Sábado.
Imaginem o que é estar no camarote em pleno Sábado de carnaval na companhia de muitos estimados amigos e ter a satisfação de escutar os maiores cantores de todo o Brasil em cima dos vários trios elétricos...

Eu pensava a todo o instante. Que show particular; e brincava com os meus convidados dizendo: Chiclete, Ivete, Daniela, Brown e Claudinha estão aqui para nos prestigiar, que privilégio;

Todos sorriam e compreendiam que aquele desabafo era tão só, a expressão simples da minha felicidade.

Com muito trabalho e a ajuda de todos, a nossa culinária foi sendo conhecida e reconhecida e os banquetes tinham dados os seus frutos.
Qual era o custo de tudo isso!
A transformação valeria à pena!...
Talvez só o grande poeta português e universal “Fernando pessoa”, explicasse...
A noite terminou em grande comemoração, alguns presentes cantavam o parabéns a você esperando que eu apagasse as velas do bolo, para poderem provar do mesmo.

Na Segunda Feira estávamos com alguns amigos trocando idéias e fazendo resenhas de tudo o que até então tinha acontecido, quando se aproxima o trio da cantora que dava o nome ao camarote.
Daniela vinha como sempre linda, é de um cuidado fora do comum com o visual e a coreografia.
Sempre a inovar. Bailarina de formação o movimento agregado á sua linda voz fazem sempre dos seus shows algo diferente.
Em cima do seu trio elétrico tudo pode acontecer para delírio dos que têm o prazer de escutá-la.
Mistura musica eletrônica, musica clássica ou uma simples orquestra com axé.

A Rainha do Suingue Baiano, ou simplesmente a “Eterna menina da Bahia.
O tempo estava chuvoso, tinha começado a chover no dia anterior, mas o calor mesmo assim se mantinha.
Daniela passa em frente ao seu camarote com o publico vibrando ao som das suas musicas ritmadas.
Fala para o camarote agradece a alguns presentes, como sempre faz e começa a cantar as águas de oxalá, o trio vai deslizando lentamente, afastando-se da sua tribuna de honra, em direção ao bairro de Ondina.
Começa a chover torrencialmente, mais parecia um dilúvio, alguém tinha aberto a torneira lá em cima, talvez São Pedro. A chuva se mistura com o vento, rajadas de vento contínuas, as coberturas e toldos dos camarotes perto de onde nos encontrávamos, rasgavam-se, pareciam feitos de papel.

O toldo do nosso camarote também se solta, chove perto de nós...

O nervosismo se apodera de alguns convidados, a situação está controlada, mas a chuva e o vento tinham estragado aquela Segunda Feira de carnaval.

Fui embora com Carla por volta da meia noite e meia, amanhã haveria a continuação... E houve, a chuva deu uma trégua, o camarote tinha ficado sem condições de funcionar no dia seguinte. Mas a Dona licia não baixou as mãos, antes pelo contrário, ligou para mim na Terça Feira pela manhã pedindo que avisasse as pessoas amigas, inclusive a Cônsul de Portugal Filomena Croft de Moura, que a festa continuaria no Ginásio da Associação Atlética. Lá estava ela organizando tudo e todos.

Daniela nos prestigiou com um pequeno show e ainda chamou alguns artistas, que dividiram o momento daquela Terça Feira de carnaval.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Décima Oitava Dose de Pílulas do Livro...

O estreitar relações humanas é algo muito importante para qualquer de nós, pois através delas a aprendizagem se torna mais fácil e acessível.

Ivan Trilha é um especialista nesse estreitamento energético entre os seres humanos.
Doar, para que essa energia dada com o coração sem falsidade retorne em dobro, através de um simples, muito obrigado.
Combinou comigo, Bel e Bruno certa noite fazermos, aquilo que chama de regadeira de rua.
Regadeira no sentido de regar algo, que depois cresça de uma forma normal e natural.
Regar o carinho a amizade o amor, ou então simplesmente utilizar a doação como uma espécie de regador desse amor.
A nossa experiência foi muito singela e bonita...

Fomos os quatro por aquela noite fora, com o carro carregado de bolachas, pacotes de leite, bombons de chocolate, parando em locais onde encontrávamos pessoas necessitadas sem lar ou simplesmente trabalhando na mais velha profissão do mundo.
- Vamos parar aqui, dizia Ivan. Saia do carro sorridente, sabendo que estava a fazer alguém feliz naquele preciso instante.
- Muito boa noite, cumprimentava os presentes abanando a cabeça de cima para baixo, como que reforçando o cumprimento.
- Isto é para vocês, eu e os meus amigos estamos fazendo uma regadeira de rua, tomem. Estendia a mão á espera que alguém aceitasse aquele gesto simples de carinho.

Inolvidável a experiência que todos sentimos a cada ato de doação...

O sorriso das pessoas era o mais importante elemento da nossa satisfação, por vezes ficavam perplexos ao receberem das mãos daquele ser o que quer que fosse.
Sorriam sem saber o que dizer, tudo era tão espontâneo e intenso que as pessoas ficavam a acenar-nos ao longe agradecendo continuamente aqueles segundos de ternura.

O professor era o indivíduo mais feliz naquela noite e tinha-nos ensinado na prática mais uma aula de vida.

O médico ginecologista que acompanha uma mulher desde o primeiro instante da gravidez torna-se de tal maneira importante, que se estabelece, uma relação de interação e de total confiança com a grávida.
Carla tinha essa relação com o médico que escolhera para acompanhá-la até ao ultimo instante. Excelente profissional, bom amigo.
Foi seguida pelo seu médico, com todos os cuidados possíveis, desde o receituário, vitaminas, ácido fólico, assim como as ecografias foram efetuadas nos momentos julgados oportunos e aconselháveis.
E foi através de uma ecografia, estava Carla com mais ou menos vinte e duas semanas de gravidez, que o médico começou a desconfiar de algo.
Ricardo e Carla espero que nada seja de anormal, mas noto o quadril da criança, menor do que o tamanho normal nesta altura; De certeza que não deve ser nada de preocupante, mas mesmo assim, Carla terá de fazer um exame aqui com a minha colega e a recolha do liquido amniótico, será enviada para Belo Horizonte.
Não entendi nada... Belo Horizonte, porque não aqui? O que se passa doutor? Pode-nos explicar? Pode ser mais objetivo, por favor?
Nisto Carla estava extasiada, não sabia sequer o que dizer! Calmamente e vendo o nervosismo que tinha se apoderado de nós, o médico tentava a todo o custo, explicar o que acontecia naquele preciso momento.
Desconfio que estejamos com alguma dúvida em relação ao crescimento do feto, Carla começou a chorar compulsivamente, eu não sabia que fazer, tentar acalmá-la foi o que fiz... Não vai ser nada, tem calma, Deus vai ajudar-nos, não chores, não chores...
A recolha do liquido amniótico foi feita e enviada para Minas Gerais, pois somente lá dariam a resposta em vinte e quatro horas.
A espera do resultado foi algo de inexplicável. A angústia se apoderou de nós, a tristeza tomava conta das nossas mentes. Rezávamos para que o resultado fosse favorável e que nenhuma anomalia existisse. Tínhamos tudo preparado para a vinda da criança.
Como a fé e a esperança, tomam conta das nossas mentes, quando estamos em situações limites e esperamos ansiosamente a ajuda divina.
Infelizmente a fé e a esperança, não foram suficientes.
O nosso mundo começava a desmoronar-se a aos poucos. Tentava consolar a minha mulher, mas não tinha forças para fazê-lo.
A criança estava com malformações múltiplas e não ia sobreviver, até ao final da gravidez, Carla corria grave risco de saúde...
Eu queria pisar o chão, mas não encontrava o piso...
Fomos a outro médico, o maior especialista da Bahia, a conclusão era a mesma, anomalia congênita, malformações múltiplas.
Um caso em cem mil... Meu deus, Meu Bom Deus, logo conosco.
A minha mulher, perdeu a criança em Janeiro do ano de dois mil e cinco.
No dia que perdeu espontaneamente a criança na maternidade, o estado de saúde de Carla agravou-se, por uma súbita febre que teimava em permanecer, apesar da medicamentação.
Liguei para o telefone móvel de Ivan Trilha, estava em Belo Horizonte, no seu consultório atendendo. Professor bom dia preciso da sua ajuda...
Ás quatorze horas desse mesmo dia, fui ao aeroporto buscar aquele ser extraordinário cheio de sapiência e de conhecimento do alto astral.
Tinha respondido ao meu apelo por amizade e respeito.
Foi ao hotel mudar de roupa, vestiu-se de branco pediu uns momentos de silencio, deixei-o sozinho por breves instantes.
Passados uns minutos disse: vamos Ricardo, leve-me, por favor, ao hospital. Assim fiz.
Quando cheguei ao quarto, estavam duas tias e uma prima com Carla.
Ivan solicitou que o deixássemos a sós.
Após uma hora, Ivan saiu, olhou para nós e disse: está tudo bem, Carlinha vai ficar ótima. A Febre baixou o estado de prostração desapareceu e os presentes indagavam: quem era aquele homem? Obrigado amigo...
Alguns dias após liguei para Lícia e disse-lhe que tinha conhecido um ser humano grandioso e que fazia questão que ela conhecesse...

Com todos os precalces inerentes ao desenvolvimento e evolução do ser humano, a vivência e a aprendizagem faziam de mim um ser mais maduro, com um conhecimento e saber de experiência feita.
Olhava para trás e denotava que apesar das contingências, tinha originado uma transformação uma mudança.

Um verdadeiro banquete onde tudo entrelaçava e se unia á volta de algo.

A casa no Rio Vermelho e o restaurante que existia dentro dela, tinham-se tornado um verdadeiro ponto de referência; um templo...

Originaram-se mudanças naturais sem ninguém se aperceber de como tudo ia acontecendo, pouco a pouco. A comida deliciosa e inovadora foi cedendo o lugar á culinária glamorosa e cheia de requintes; Agregamos lentamente e sem sabermos alguns pormenores que alteraram a visibilidade da culinária. O espaço e a logística existente foram primordiais nessa alteração.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Décima Setima Dose de Pílulas do Livro...

Pois foi Bruno Nunes que nos apresentou “o cavaleiro do novo milênio” Ivan Sol Trilha, com quem Bruno tinha convivido anos antes, na cidade maravilhosa cheia de novidades e loucuras.
Falar de Ivan Trilha é muito complexo, devido á sua imensa vivência por esse mundo afora.
Professor, Guru, Mentalista, Terapeuta Holístico, Médium, Vidente, para a maioria...
Para mim é o amigo e verdadeiro irmão de outras vidas passadas.
Sempre disposto a ajudar, porque a sua missão, a que lhe foi incumbida, estará sempre subjacente á sua personalidade e caráter.
A energia é o fator primordial das suas intervenções, trabalha-a, porque segundo ele, tudo o que nos rodeia é energia.
No universo no cosmos ela flui constantemente, devemos aproveitar os momentos que nos são oferecidos.
Bruno contava algumas situações que tinham acontecido no Rio com Ivan anos antes, nós ouvíamos.
O seu poder através da mente, as coisas que tinha feito as tentativas de ajudar sempre, quem deveria ser ajudado, as suas sinergias em prol do bem comum.

Ivan Trilha é um professor em unificar e unir os sentidos das coisas e traçar-lhes rumos certos.

Fala ás vezes por Parábolas ou Metáforas têm por isso de decifrar o verdadeiro sentido das suas sábias palavras. Poucas vezes é direto, só quando pode fazê-lo, mas sempre é objetivo e linear.
Estávamos sentados junto á amendoeira.
Ivan estava acompanhado da sua esposa Mackelene, ouvindo as dissertações de Bruno, contando todas as vivências passadas.
Olhava para o movimento do restaurante sem nada dizer, observava cada detalhe, que lhe despertasse algum sentido adormecido.
Adorava ficar perto da amendoeira – Esta árvore tem uma energia especial, Ricardo este espaço é mágico, dizia o professor, fumando o seu longo charuto especial.
Dialogava comigo a todo o instante como se nos conhecêssemos á longos anos. Ivan não via Bruno, que considerava seu filho há quatorze anos e tinha vindo para Salvador, passar uns dias de descanso com a sua estimada Mackelene.
A história deste homem é repleta de acontecimentos, não gosta de falar dela a não ser para muito poucos, os amigos de casa, como diz.
Filho adotivo do ex-presidente do Brasil, João Goulart, desde muito novo conviveu com os fenômenos psíquicos e extras sensoriais o que levou a ser considerado em mil novecentos e setenta e nove em Bogotá, o primeiro mentalista do mundo, na primeira reunião internacional sobre fenômenos psíquicos.
Percorreu o planeta desenvolvendo uma série de trabalhos sobre a mente humana. Estava agora em Salvador e esta seria a primeira das muitas vezes que nos visitaria.
O restaurante tinha uma clientela muito boa, tinha ganhado nome e estava solidificando a sua freqüência.
Só famosos e famosas, artistas, políticos, publicitários, músicos, estilistas, havia dias de autênticos desfiles de Vips: José Simão, o Pres.do BID- Henrique Iglesias, Duda Mendonça, Paulo Borges, Faus Hauten, Sandra de Sá, Luana Piovani, Ricardo Mansur, Luis Fernando Guimarães, Marisa Orth, D. Zélia Gattai, Senador António Carlos Magalhães, Margareth Meneses e tantos outros...
Freqüentemente contatavam para fazermos eventos para empresas ou queriam utilizar o nosso espaço, muito agradável, como diziam, para festas de aniversários ou datas comemorativas.
Fazíamos alguns orçamentos a preço baixo, com pouco lucro, para ganharmos os clientes e a simpatia dos mesmos. Estávamos ainda no inicio e seria necessário aprender como lidar com algumas novas situações.
Os nossos clientes queriam por vezes, cardápios diferenciados, com frutos do mar, o que encarecia o custo final do evento. Montávamos normalmente três orçamentos diferenciados, para haver uma maior opção de escolha.
Carla sabia como fazê-lo e a sua simpatia conquistava a maioria e a sua gravidez chamava a atenção.
Final do ano em Salvador tem de se ter cuidado para não se perder a forma.
Feijoada atrás de Feijoada, eventos e mais eventos e nós éramos convidados para tudo.
Evitava ao máximo, tornar um habito essas constantes festas, até pelo estado da grávida.
A barriguinha de Carla estava muito bonita, notava-se, era uma grávida linda.
Uma menina, o nome da criança seria Inês, em homenagem á minha avó materna, que eu tanto amava e que tinha desencarnado um ano antes.
Fomos aos poucos comprando o enxoval e recebendo alguns presentes.
No Natal e Réveillon desse ano, a mãe do bebê irradiava felicidade...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Décima Sexta Dose de Pílulas do Livro...

O outro entrevistado para o programa que estava a ser gravado era um artista visual, de tez morena e bigode extenso levemente puxado para os lados, tipo português do início do Século XX.

Com muita boa dicção notava uma rapidez de raciocínio grande e uma postura muito correta perante a entrevistada.
Quem era aquele homem de meia idade que aparentava ser um cavalheiro.
Tinha observado quando da sua chegada, a sua esmerada educação ao cumprimentar todos os presentes com a maior das simplicidades. Estava acompanhado de uma senhora, a qual se sentou à mesa ao lado da minha, gentilmente, este cavalheiro baiano puxou a cadeira para a senhora se sentar.
Eu estava a tomar um Vinho Português (concerteza) da Região de Palmela Reserva João Pires, quando a entrevista terminou.
De seguida Luzia Santana chamou-o pelo nome, Bel vem conhecer o sócio e genro de Beto.
Conversamos à tarde quase toda e tomamos algumas Reservas de Palmela, entre histórias, risos e gargalhadas.
Começava naquela tarde uma amizade que dura até ao dia de hoje.

Alberto José da Costa Borba – refletir sobre este homem que se tornou meu amigo em terras de Salvador, torna-se fácil e difícil ao mesmo tempo. Parece contraditório este raciocínio.
Fácil porque o relacionamento de irmandade existente e a identificação que daí resultou, aproximou o meu olhar e conseqüentemente abriu as portas do conhecimento e da amizade.
Difícil porque esse conhecimento e essa amizade verdadeira fazem com que o meu olhar se torne mais incisivo ás vezes critico, ou ousado.
Já fizemos muita coisa juntos, em termos de criatividade de entre ajuda de lazer e de saber.
Mais uma vez tento colocar a amizade de lado para analisar o Artista Bel Borba. Neutralidade neste caso é difícil.
Unanimidade é a palavra para descrever este homem simples de nome Borba.
A identificação entre as pessoas acontece, quando há algo em comum ás vezes basta um traço simples.
Aquariano verdadeiro extremamente rápido de raciocínio e de ações.
Observar Bel a produzir é extraordinário e interessante, produz e cria,
Com uma rapidez incessante, não pára enquanto a sua criação não está terminada.
Andar pela cidade de Salvador e vê-la decorada pelos trabalhos de Bel é uma satisfação.
Transformou Salvador numa galeria de arte, onde todos possam ter acesso. Paredes, muros, encostas, casas, todo o local possível, Bel faz as suas intervenções de mosaicos de azulejos e de esculturas.
O artista mais multifacetado da sua geração.

A acessibilidade é a grande relevância da sua obra, tornou acessível a todos, aquilo que se presumia que era só para alguns...

Com isso, a imensa visibilidade das suas intervenções. Pinta, esculpe, desenha, trabalha com os mais variados materiais, inovador e criador por excelência, os seus trabalhos sempre surpreendem pela sua contemporaneidade: Madeira, barro, ferro, acrílico, materiais recicláveis, tudo serve para este homem/menino se auto-recriar.
Como ser humano Borba é imenso, idêntico á sua obra...

Carla estava grávida, radiantes e felizes com a notícia estávamos todos.
Momentos únicos na vida de qualquer mulher e ainda o primeiro filho.
Combinamos uma coisa; se fosse menino ela escolhia o nome da criança se fosse menina escolheria eu.
Os meses que se seguiram até Janeiro de dois mil e cinco, foram de extrema felicidade, Carlinha ia ser mãe e toda a sua doçura e carinho transportava para aquele ser que germinava dentro do seu ventre.
O seu rosto começava a mudar aos poucos e a sua fisionomia igualmente, sorria com facilidade, parecendo querer dizer alguma coisa, a quem olhava para si.
Começava a notar com maior freqüência nas outras mulheres grávidas ou com crianças recém nascidas. Olha Ricardo, olha que bebê lindo! Dizia constantemente a futura mãe.
Como que por um passe de mágica, a gravidez veio alterar as nossas vidas, fazendo com que a energia se tornasse única e verdadeira. Iria nascer um ser, resultado de uma união que tinha começado um dia, durante o carnaval.

Um sábado á noite um garçom chamou-me e comunicou-me que estava presente no restaurante um senhor que dava pelo nome de Bruno Nunes, que sabia que eu era Português e queria falar comigo.
Na mesa estavam sentados, ele e a sua esposa, uma bonita mulher, elegante e muito bem vestida que chamava a atenção de todos.
Cumprimentei-os e quase de seguida afirmou: Muito bom gosto musical você tem! Sorri e agradeci. Obrigado, porque diz isso? Eu sou músico e é raro irmos a um restaurante e ouvirmos tão boa seleção musical. Agradeci mais uma vez o elogio e solicitei que me trouxessem um cd especial, que eu reservava para momentos como este.
Bruno era músico, compositor e interprete das suas músicas e durante a nossa longa conversa (durou até de manhã) descobri que a sua imensa capacidade de criar era algo inato á sua pessoa.
Ouvimos várias vezes durante a noite esse especial cd: Elis Regina, ao vivo, no Festival de Montreux de setenta e oito... Simplesmente magnífico.
Tornámo-nos amigos do casal passamos muitas noites, jogando buraco e tomando bons vinhos nos nossos respectivos lares.
Daniela Brugni (era modelo) tinha uma filha com Bruno, chamada de Giulia, afeiçoamo-nos imenso a essa criança de dezoito meses, mas que parecia uma adulta.
Questionava tudo e todos, era impressionante a facilidade de comunicação, em tão tenra idade.
Bruno viveu no Rio de Janeiro nos finais da década de oitenta e ficou imbuído do espírito Rock and Roll latente. Conheceu e conviveu com Cazuza e todos da sua geração.
Da sua cabeça saem constantemente criações inusitadas que se tornam realidade.
É um pensador nato de rara subtileza e inteligência.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Décima Quinta Dose de Pílulas do Livro...

Em Portugal por todo o território nacional há uma bebida que é feita da Uva e que foi introduzida pelos Romanos na Península Ibérica.
Digo em todo o território porque existem várias Regiões Demarcadas de produção de Vinho.
A Região Demarcada mais antiga do mundo é a do Douro, no norte de Portugal, perto da cidade do Porto, que dá origem ao nome do vinho mundialmente conhecido e que se bebe antes ou depois das refeições.
Comecei a interessar-me por Vinho aos meus vinte e quatro anos de idade quando um amigo Tó Manuel começou a ensinar-me a “Arte” de tomar vinho... Vinho não se bebe toma-se, dizia o Tó.

Parece estranho, mas é verdade.

Toma-se porque o ato de bebê-lo é antecedido, por todo um ritual que desperta os nossos sentidos primários, cheira-se, molha-se levemente os lábios, deixa-se o vinho respirar e por fim está pronto a ser degustado.
Existem vinhos que são autênticos néctares dos deuses.
“Baco” bem sabia disso...
Tó Manuel Alfacinha de gema e esquerdista nato viveu toda a fase de luta antifascista que antecedeu a Revolução dos Cravos.
Ele e os seus amigos da Boemia Lisboeta circulavam pelas tascas Alfacinhas, provando a essência das Castas vinícolas Portuguesas e discutindo o futuro de Portugal e dos Portugueses, ao som de Zeca Afonso, Vitorino, Adriano Correia de Oliveira e outros.
Para começar a interessar-se por vinho tem de se provar tipos de vinho, de várias castas e sabores e anos, para que o paladar fique apurado e selecionado.
Como evidente é, vão-se descobrindo paladares diferenciados, de acordo com as regiões, solos, sais minerais, tipos de uva, misturas de castas e ano da vindima, a qualidade vai aumentando e a exigibilidade também.
Tendencialmente quanto mais anos estiver o vinho na garrafa, guardado deitado na horizontal, em boas condições de umidade e temperatura e com uma boa cortiça como rolha, melhor a sua qualidade.
O vinho evolui na garrafa ao longo dos anos.
Para uma melhor degustação desse vinho, convém abri-lo no mínimo, uma hora antes, para que ele possa respirar o tempo suficiente e os seus paladares apurarem em contato com o oxigênio.

Com outro amigo de trinta anos de pura e verdadeira amizade, pude viajar por todo o Portugal, visitando as Adegas Cooperativas do Alentejo e não só, adquirindo nas feiras vinícolas, autênticos néctares, enquanto as nossas esposas faziam outras compras, nós dávamos uma escapadela e íamos para o setor dos vinhos, discutir preços e qualidade.

A esse amigo irmão eterno “Miguel Cunha”, saudações vinícolas.

Tive o prazer de tomar e degustar vinhos de boa qualidade de vários países, mas nesse caso eu sou nacionalista nato.
Sem petulância nem arrogância, o que falta aos vinhos de alguns países, tem o português.

“Vinho com alma só o Português”...

Estas informações que adquiri na minha vida, provando e conhecendo vinhos, tentava ensinar aos meus colaboradores, para que pudessem melhor servir os clientes.
E aprenderam um pouco dos meus limitados conhecimentos.
Aos clientes e amigos mais chegados, sempre que possível criava um dia para degustação de vinhos, portugueses e não só, onde aqueles momentos juntos da “Amendoeira” se tornassem únicos e pudesse contribuir, mesmo que em pequena escala, para um melhor conhecimento e aprofundamento dessa bebida dos Deuses.
Consegui que alguns fornecedores utilizassem o espaço, para lançamento e prova de algumas das suas marcas de vinhos.
O Paraíso Tropical estava a tornar-se um ponto de referência, dentro da sociedade baiana e eu sentia-me satisfeito.

Perto do nosso Restaurante foram aparecendo e abrindo aos poucos outros negócios, várias casas comerciais, que davam ao bairro um ar mais alegre vivo e movimentado.
Data certa não me recordo exatamente qual, sei que em meados do mês de Agosto de dois mil e quatro, estava a almoçar com Carla por volta das quatorze horas na varanda e vejo uma senhora elegante, dirigir-se a mim.
Boa tarde, você é o Ricardo? Levantei-me assim que a senhora se aproximou, estendi-lhe a mão e cumprimentei-a, boa tarde, sou; em que posso ser útil? Carla já a conhecia era Luzia Santana – Jornalista da TV Salvador (pertencente á TV Bahia, filial da Globo) – que tinha um programa “Nomes” de enorme sucesso – Começamos a conversar, convidei-a para sentar-se junto a nós, ao que acedeu de imediato. Que espaço maravilhoso vocês têm aqui. Obrigado (a) respondemos quase em uníssono.
Gostaria de fazer uma entrevista, aqui neste local a Lucila Diniz que amanhã vai lançar um livro aqui em Salvador, sobre a sua experiência pessoal de emagrecimento.
Claro, prontamente respondi, será uma satisfação, o espaço é seu, disponha.
A varanda ficava num local estratégico do restaurante, dali se observava toda a área externa e a praça na rua.
Era toda decorada com alguns objetos de artesanato Mineiro.
Existia junto á parede com os azulejos portugueses da década de cinqüenta, um banco grande coberto de almofadas feitas de esponja e de um tecido ás riscas vermelhas brancas e amarelas.
Do mesmo tecido e cor das almofadas, eram as cortinas que cobriam os vidros das duas laterais da varanda.
Em cada canto estavam duas mesas de madeira com tampo redondo e pé de alumínio.
Uma de seis lugares e outra de oito lugares, para além de mais três mesas de tampo quadrado.
Lucilia Diniz chegou passados alguns minutos.
Fomos apresentados por Luzia Santana, Carla fez as honras da casa, falando um pouco da história da nossa gastronomia.
A entrevistada ia lançar um livro sobre emagrecimento e foi logo, para um restaurante de comida baiana... Que contradição.
Antes pelo contrário, o mestre tinha desenvolvido um prato inovador chamado de Moqueca Vegetariana. Explicado como era o prato, Lucilia acedeu experimentar.
A entrevistada respondeu ás perguntas da Jornalista e de seguida, sentou-se á mesa para calmamente desfrutar da sua refeição.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Décima Quarta Dose de Pílulas do Livro...

Artistas, Políticos, Cantores, Formadores de opinião – A nata estava toda presente. Que orgulho para todos nós, tínhamos conseguido o nosso objetivo. O mestre sorria, Carla mais parecia uma criança de tanta felicidade, os irmãos e irmãs de Beto irradiavam orgulho do seu irmão artista e artesão gastronômico.

Fleches e fleches sorrisos e sorrisos, só alegria...

Aquela noite mágica tinha sido organizada por uma senhora Sergipana de nascença, mas Baiana de alma e coração.

Eu também já me sentia soteropolitano.

Os garçons mal conseguiam movimentar-se no meio de tanta gente convidada, circulava no ar um bouquet intenso de perfume de mulher, as senhoras elegantemente vestidas, eu, Carla, Beto e sua companheira, ficamos juntos no meio da escadaria, que dava para a parte de baixo do restaurante, perto do pergolado.

A casa estava soberbamente decorada, o esmero e a qualidade do trabalho eram evidentes.
Só palavras de apreço e elogios a todo o segundo. Muitos parabéns, sucesso – diziam os convidados que chegavam a todo o momento, junto de nós – abraços, apertos de mão. Quanta felicidade.

Parecia uma casa de campo, no meio da cidade, num bairro ligado ás artes, ás letras e á cultura.

As mesas eram de madeira todas feitas por encomenda, com pé de alumínio na parte interna (salão) e na varanda, as cadeiras também de madeira com estofo num tecido branco e vermelho ás riscas. 
A parte externa era composta por um pergolado de pinho, onde havia umas mesas com tampo de mármore e pé de alumínio acompanhadas de cadeiras brancas igualmente de alumínio.
O paisagista esmerou-se tentando recriar o ambiente de uma chácara, colocou vasos enormes cor de tijolo, com pés de capim-santo, hortelã grossa, abil, limão, pitanga, dracena, boldo, arruda, tapete de oxalá e buganvílias. A volta do gradeamento que circundava a casa plantou várias espécies de flores e plantas, que criavam um ambiente campestre. Na área do pergolado, existiam várias luzes, que saiam do chão, iluminando a noite e tornando-a mais bela.

Mas o lugar mais apaixonante da casa, sem dúvida era a “AMENDOEIRA” existente, junto á grade.

Toda a área próxima da árvore foi decorada com quatro conjuntos de madeira, constituídos por mesa redonda pequena e quatro cadeiras cada, espalhados uniformemente. O chão estava todo decorado com pedras pequenas. Havia igualmente quatro espreguiçadeiras e dois bancos de jardim, com molas.
Este espaço que rodeava a amendoeira tornou-se o local mais concorrido do Restaurante.
E não era para menos. A artista plástica Luiza Olivetto, criou uma obra de arte que envolvia a árvore, como se de um abraço se tratasse. Fez uma Cobra de garfos e facas, soldados entre si, que se enrolava pela amendoeira até ao topo. Iluminada a amendoeira com focos de luzes, resultava numa beleza estética fora do comum, que despertava a curiosidade das crianças, adultos e de todos os transeuntes

Era mágico sentar-se ao final da tarde perto daquela árvore, tomando um vinho tinto e fumando um charuto, jogando conversa fora.

A festa continuava com muita animação.

Beto tinha escolhido um cardápio super especial, pois o momento assim o exigia;

Caldo de Sururu, de Camarão e de Polvo.
Casquinha de Siri.
Carne do Sol com Farofa de Aipim e Manteiga de Garrafa.
Arroz de polvo.
Moqueca de Camarão, Lagosta e Polvo (o famoso Calapolvo).
E famosa Torta de Maturí com Creme de Palmito de Coqueiro.

Este maravilhoso menu era regado e bem regado com Água, Refrigerante, Roskas de vários sabores, Vinho Branco, Vinho Tinto, Whisky e Espumante. Os nossos patrocinadores e fornecedores de bebidas, não impuseram nenhuma restrição ao consumo daquela noite.
Nós é que tivemos de limitar... Senão seria um pouco complicado... Uma boa farra de quando em quando é ótimo.
Durante a festa o mestre vestiu-se a rigor, com uma bata, com o seu nome que tinha sido criada por Lara, para esse dia tão especial e acompanhado pelos garçons, desceu pela escadas, com uma travessa grande de Torta de Maturí nas mãos e ofereceu-a no meio dos fleches e câmaras á madrinha de todo este projeto, como forma de agradecimento, realçando em voz alta, o papel primordial que ela teve.
Por momentos ouviu-se uma salva de palmas. Beto estava emocionado.
Todos nós estávamos os que tinham participado deste projeto desde o início e os que por simples amizade, desejavam que o mesmo tivesse o merecido sucesso. Muito obrigado a todos, disse.

Uma nova fase uma nova vida, novos desafios outras propostas.
Agora sim, o capitão e nosso mestre tinha um novo desafio, já não era um simples barco, mas um navio que tinha de dirigir juntamente com a sua tripulação e o meu papel seria de coadjuvante, tentando cumprir as regras já existentes e evitando que possíveis tempestades, o derrubassem.
O restaurante era um sucesso garantido.
Todos os dias da semana aos almoços e jantares, o movimento era intenso.
Novidade num local super aprazível e com muito boa localização e o Baiano, adora o que é novo. Principalmente durante o mês de Maio e aos finais de semana, tínhamos filas de espera incríveis.
Todos queriam conhecer a culinária de Beto, beber os sucos que eram autênticas obras de arte e provar algumas das suas iguarias naturais.
Evidente que os Soteropolitanos, não comem Moqueca todos os dias, até porque existe uma pequena aversão ao dendê, derivado das calorias e da eventual saturação provocada, comecei a aperceber-me disso lentamente.
A freqüência no primeiro mês após a abertura era especialmente de clientes baianos, alguns turistas poucos, ainda não tínhamos começado a divulgação junto dos hotéis espalhados pela cidade.
O nosso espaço agradável teria de ser o chamariz, juntamente com a gastronomia, para isso comecei com Carla e a Via press, a fazer um trabalho muito incisivo sobre a culinária do Paraíso Tropical, mostrando que a mesma seria inovadora e diferente, devido aos produtos light que o mestre criara e colocava na sua gastronomia.
Não seria fácil... Existe até hoje certo preconceito em relação ao óleo de dendê... Tentaríamos desmistificar um pouco essa questão.
Os clientes adoravam as frutas que oferecíamos nos finais das refeições, era um charme que Beto tinha criado. No Cabula os clientes levavam após as refeições, no Rio Vermelho também, só que comecei a verificar alguns custos extras exagerados.
Comprávamos quase diariamente uma verba avultada para serem oferecidas, já que agora com dois restaurantes e com a diversidade existente nas travessas doadas, não havia frutas que chegasse.
Por vezes, havia alguns comentários, não sei se verdadeiros ou se era intriga, que os clientes reclamavam; No Cabula levamos sacos de plástico cheios de frutas e no Rio Vermelho não – Tentava equilibrar essa situação, até porque as nossas despesas eram muito elevadas, não só com o pessoal, mas também com todo um processo de estoque de mercadoria e produtos.
Utilizávamos a parte de baixo da casa, garagem onde guardávamos uma parte da mercadoria.
A quantidade de polpas de frutas existente em estoque e guardada em freezers é enorme, até para que o cliente tivesse uma opção.
Não poderíamos falhar com nada, senão viria logo de seguida a comparação com o Cabula.
E infelizmente algumas pessoas, adoravam esse tipo de comparação para provocarem desunião.
Várias vezes tanto clientes, como pessoas que se tornaram amigas, conversavam conosco, alertando para algumas situações que originavam comentários... Ricardo, vocês juntos funcionam como equipe, portanto não dêem ouvido aquilo que poucos dizem.
Escutava com atenção e mantinha-me em silencio.

No meio do ano Licia comemorou o seu aniversário no Paraíso Tropical no Rio Vermelho, oferecemos uma festa linda para ela. Mais uma vez, o mestre se recriou e fez os convidados da aniversariante, saborearem as suas autênticas iguarias. Convidados e amigos de todo o Brasil, selecionadissimos.
Várias revistas de tiragem nacional estavam presentes, para além de toda a mídia e sites.
A Revista Caras, Flash de Amaury Jr. e outras, fizeram reportagens fotográficas do evento.
O aniversário de Licia era um acontecimento na Bahia e não só e tínhamos o privilégio de organizá-lo.

Na nossa equipe de garçons, treinados por nós havia um moço negro muito peculiar e inteligente, que se tornou uma das atrações do Rio Vermelho, seu nome Edinaldo, era gago, gaguejava mais, quando estava nervoso, o seu trabalho era feito com dedicação e requinte, todos o adoravam pela sua educação e atenção. Tinha um dom e uma paixão; a música.
Tocava trombone. Certo dia vi-o entrar com uma espécie de caixa preta, indaguei – o que é isso? Um Trombone Sr. Ricardo.
Você toca Trombone! Estou tendo umas aulas para aprender.

Achei aquilo fantástico e resolvi apoiá-lo...

Ofereci uma verba ao nosso Garçom músico, para que pudesse adquirir o instrumento que era alugado de um amigo e assim desenvolver mais, a sua veia musical.
Teria uma condição exigida por mim, aprender uma ou duas músicas, para tocar para os clientes sempre que fosse necessário e saber de cor e salteado uma: Emoções de Roberto Carlos, para presentear á nossa amiga e aniversariante, naquele dia tão especial.
Do alto das escadas que davam para a área externa e pergolado, o nosso Garçom com dotes musicais, um pouco introvertido é claro, perante tão ilustre platéia, começou os acordes da música preferida.
O sucesso foi tanto que os clientes iam para o restaurante comemorar aniversários e festas e pediam para o Garçom Músico estar presente...
Quantos Parabéns a Você, o nosso Edinaldo tocou!... Muitas vezes. Ah! E ganhou ainda o Garçom do ano.
Parabéns para ti também Edinaldo...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Décima Terceira Dose de Pílulas do Livro...

Propus-me dignificar, acrescentar, ao que de bom já existia há longos anos, a intenção sempre foi melhorar. Talvez por isso abraçasse tudo, com tanta paixão.

Durante a reforma num dia pela tarde, estavam os operários a trabalhar na varanda, (área externa) onde existia uma parede toda pintados de branco, e ficava o candeeiro de “Mário Cravo Jr.” qual não é o meu espanto, quando observo que por baixo da tinta, existia uma parede de azulejos Portugueses de tonalidade azul e branca da década de cinqüenta. Aquela descoberta tornou-se um dos ex-líbris do restaurante.

A história da casa mistura-se com a do Rio Vermelho, bairro boêmio, onde viveram durante anos, “Jorge Amado” e a sua eterna companheira “Zélia Gattai”.
A estrutura da casa foi levantada por um dos maiores artistas plásticos da sua geração “Carybé”, amigo intimo de “Jorge Amado” que queria construir a sua residência e atelier naquele espaço.
Por motivos desconhecidos “Carybé” não acabou a construção da casa e vendeu-a para a família Ferraz, que edificou o espaço e viveu lá por mais de quarenta anos, até Paulo Mota a adquirir.

Algumas semanas poucas para a inauguração.
Previsão inicio da segunda quinzena do mês de Abril.
Muita coisa para fazer e tudo ao mesmo tempo.
As psicólogas tinham selecionado mais ou menos noventa hipotéticos colaboradores para serem entrevistados. Formatamos de acordo com diretrizes do mestre, uma estrutura que fosse viável, tendo em consideração os condicionalismos e as características da gastronomia experimental de Beto.
Passamos algumas horas entrevistando os selecionados e escolhemos cerca de trinta colaboradores, para fazerem parte do novo Paraíso Tropical.
Uma agitação.
A filial do Rio Vermelho funcionaria nos mesmos moldes da matriz, ininterruptamente em dois turnos. Tanto os garçons, que inicialmente eram dezasseis, como o pessoal da cozinha em número de dez, estiveram uns dias no Cabula em formação a fim de beberem toda a informação necessária e adequada.

Lara Nepomuceno – criadora de moda – desenhou as roupas de todos os colaboradores.

Os garçons e os maitres vestiam uma calça castanha clara com bolsos laterais, calcavam umas sandálias também castanhas, fechadas á frente e as camisetas eram de manga curta em várias cores, de acordo com o dia da semana. Por cima colocavam um avental azul claro lindíssimo, amarrado á cintura e ao pescoço, com a logomarca do restaurante estampada na parte da frente, o Galo rodeado com as cores do sol, céu, terra e mar (que os clientes adoravam). Os cardápios eram vermelho tinto e amarelo torrado de papel reciclado grosso.
Informatizamos todo o restaurante e codificamos todos os produtos, tentei que o mesmo fosse feito no Cabula, mas o mestre apesar de mostrar interesse, nunca efetivou a sua vontade.
A casa era rodeada de um passeio, que já tinha sido calcada Portuguesa e que estava completamente estragada, sem as pedras nem os desenhos simbólicos.
Infelizmente tinha de gastar mais alguma verba e não era pouco, na reconstrução de todo o passeio. A praça em frente á casa estava um verdadeiro caos, não podia inaugurar o Restaurante sem contratar o serviço de alguém, para pelo menos, cortar aquele capim e mato, que cobria toda a área.
Não era minha obrigação, mas já que ninguém o fazia eu teria de fazê-lo.

Estava quase tudo a postos, parte final.
Segurança vinte e quatro horas e manobrista no horário de maior movimento.
Contratação de mídia – televisão, jornais revistas, folders e outdoors de rua.
Imprensa escrita, dizia respeito á Via Press.
Comprei por sugestão e aconselhamento, dois espaços em programas de televisão que cobriam eventos e que obtinham boa audiência, junto ao público que pretendíamos alcançar, Michele Marie e Tom Mercury.
Selecionamos um fotógrafo, sugestão da nossa agência de publicidade e fomos até ao Cabula com uma equipe, filmar e fotografar, todo o tipo de imagens relacionadas com frutas e pratos, para que pudéssemos escolher como ficariam os folders e os seis outdoors que iriam para a rua.
O resultado foram materiais de alta qualidade gráfica e de imagem.
Haveria duas inaugurações: dia dezanove de Abril, para a imprensa e dia Vinte e um de Abril para convidados.

A idéia dos publicitários era criar um impacto com os outdoors espalhados pela cidade de Salvador.

Far-se-ia do seguinte modo: Na primeira semana ficariam os outdoors na rua com uma pergunta; Já conhecem o Cambucá? Já ouviram falar do bacupari? Já provaram o Ingá? (todas, frutas exóticas).

Nas duas semanas que antecediam a inauguração aparecia a logomarca com o Galo e o nome do Restaurante Paraíso Tropical dizendo: Se não conhecem, então venham conhecer a filial do Paraíso no Rio Vermelho; Se um Paraíso é bom, dois melhor ainda. Por baixo o endereço e o telefone dos dois Restaurantes, com a indicação da matriz e da filial, que abria ao público.

Toda a imprensa Baiana estava presente em peso, no dia dezanove de Abril, na pré-abertura.
Dois dias depois e eis chegado o momento das nossas vidas.
Todo o mailing de convidados tinha sido feito por D. Licia Fábio, só ela poderia ter reunido tantas pessoas num mesmo espaço, numa só noite.
Uma única palavra... Deslumbrante.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Décima Segunda Dose de Pílulas do Livro...

O mês de Novembro estava a chegar ao fim, o verão de Salvador irradiava energia de todos os lados.
Não somente o sol aquecia a cidade, mas o constante reboliço das pessoas procurando divertir-se.
Festas, shows, eventos, praias, este é o quotidiano das gentes de Salvador e dos visitantes durante os meses de verão.
No cheiro sobressai o acarajé e o abará espalhado pelos muitos cantos desta cidade, pelas mãos das mulheres tradicionalmente vestidas com os seus trajes brancos - As Baianas...
Eu fazia parte desse imenso reboliço, não só pelo frenesi dos meus dias de trabalho, mas também pela necessidade de me inteirar de tudo o que se passava em Salvador, afinal de contas, tinha em mãos um ótimo projeto.
Quem se encarregava de nos apresentar á sociedade baiana e Brasileira era a nossa madrinha (como chamavam alguns, que denotavam certo ciúme) que nunca se esquecia de nos convidar para os eventos que tão bem organizava.
Fiquem sempre que possível junto de mim, dizia a nossa benfeitora e assim íamos conhecendo, muitas pessoas que seriam nossos possíveis clientes.
Formadores de opinião de todo o Brasil e não só.
Licia ficava sempre sentada, em local estratégico, para que pudesse ter uma visão global daquilo que se passava ao seu redor.
Fumando o seu charuto “Le Cigar” – robusto, cumprimentava gentilmente os convidados, que se lhe dirigiam – aproveitava o ensejo e apresentava-nos com muito rigor – Ricardo é Português e genro de Beto, vai abrir com o sogro uma filial do Paraíso Tropical – os convidados logo se interessam pela notícia, o que normalmente resultava num dialogo mais longo.

Aos poucos a notícia foi-se espalhando... Estava dada a partida, como seria o trajeto.
Tudo acontecia muito rápido.

Uma das características da Bahia é a rapidez com que as coisas acontecem e o reflexo que isso trás para as nossas vidas.
É preciso saber dirigir canalizar toda essa alta voltagem, com calma com tranqüilidade.
Hoje sei disso, na altura não tinha a noção da força energética em que estava envolvido.
Tudo era de uma intensidade enorme, o envolvimento torna-se um abraço gigantesco de grandes proporções e eu tinha destapado a tampa de uma imensa panela e não sabia como misturar os condimentos que tinha em mãos.

Resolvemos casar no civil no dia onze de dezembro de dois mil e três. A cerimônia foi rápida e simples, pela manha, no fórum de Salvador, e á noite fizemos uma pequena confraternização com alguns amigos e família.
O momento não era para grandes gastos e a nossa energia estava canalizada num único objetivo.
Sempre que possível aos finais de semana tomava o rumo da estrada, algures para a praia do forte ou Bom Jesus dos Pobres, onde a família possuía uma fazenda, aproveitando os poucos momentos de disponibilidade.
O mar de Bom Jesus dos Pobres não tem ondas é surpreendente a calma do lugar. Colocávamos umas mesas e umas cadeiras dentro da água e lá ficávamos horas a conversar a comer e a beber, até o sol dizer adeus, até amanhã...
O palmito que se utilizava na culinária do paraíso, vem da fazenda, como o preguari e o siri mole. Para utilizar o palmito da árvore, tem de se retirar o olho da palmeira e ao fazê-lo ela morre. Sabendo disso, o mestre dava ordens constantes ao caseiro para replantar e assim evitar o desaparecimento das palmeiras que dão origem ao palmito.

Vinte e quatro de dezembro de dois mil e três, primeiro Natal no Brasil e longe da minha família. Lá vem aquela palavra que só existe em Português e que ás vezes nos persegue e quase tritura a nossa mente.
Em família ficamos nós a época natalina. Muito calor e eu não estava habituado.
Tomei uns ótimos vinhos Portugueses com um tio da minha mulher, que era apaixonado assim como eu, por vinho.
Encontrei um parceiro, pensava eu.
Réveillon fomos para a Marina – Licia organizava uma festa grandiosa, onde convidava alguns globais, compramos uma mesa e com amigos e família, assistimos o nascer do ano de dois mil e quatro.
Abraçamo-nos fortemente durante alguns segundos, bastantes.
O pensamento estava no futuro que vinha a passos largos. Incertezas algumas, definições muitas. Novo ano...
As obras não decorriam como se esperava os problemas e os atrasos resultantes criavam em mim um stress latente... Não estava a gostar do desenrolar da reforma.
O indivíduo contratado e já devidamente remunerado, não apresentava soluções viáveis para as eventualidades que surgiam a cada pedra derrubada.
O tempo corria e não esperava. A verba inicialmente prevista, quase dobrou, estava a ficar deveras preocupado.
O contratado era pessoa talentosa, mas desorganizada e vim a notar que lhe faltava estrutura profissional e organizativa, falhava constantemente aos encontros e reuniões agendadas ou então marcava ás nove da manhã e chegava ás onze horas. Isso me deixava fora de mim. A minha mulher também preocupada, tentava acalmar os ânimos e várias vezes dizia para eu relaxar. Como podia relaxar com o dinheiro investido as obras atrasadas e a verba duplicada. Tentava...
O objetivo era aproveitar o verão...
O indivíduo contratado por nós para liderar todo o processo, desde o projeto até á decoração final, tinha Sub-Contratado uma firma de dois engenheiros civis, super competentes e profissionais que tentavam a todo custo resolver as situações prementes.
Mas a decisão final era sempre do responsável por nós escolhido.

Haveria outro problema a resolver e que me tirava o sono.

O alvará de funcionamento do restaurante.
Tínhamos em nosso poder a autorização da reforma que estava acontecendo, mas faltava a autorização para o Restaurante funcionar, quando estivesse tudo pronto.
O pai da minha esposa estava preocupadíssimo com essa questão e tinha feito uns contatos para tentar a obtenção do documento.
Não foi possível, já que havia certa resistência por parte do responsável do órgão emitente da autorização. Fizemos algumas petições por escrito, demonstrando o interesse para a cidade da abertura de um espaço de culinária baiana de qualidade e diferenciado. Vinha indeferido. Não compreendíamos porquê, já que perto de nós, havia várias casas comerciais abertas e funcionando dentro da normalidade exigida pela lei.
Tiramos algumas fotos que levamos ao responsável do órgão competente, mostrando a existência de restaurantes perto da Rua Feira de Santana. Indeferido...!
O que fazer! Não podia parar as obras... Significava dinheiro perdido, deitado fora. Decidimos em conjunto, continuar.
Nunca entendi essa relutância conosco. Essa dificuldade...!
Através de muitas insistências e alguns contatos, finalmente conseguimos o alvará de funcionamento.
O meu sono melhorou um pouco, mas só mesmo pouco. Outras vicissitudes me aguardavam.

Finalzinho de Janeiro eu tinha um sonho e acreditava que era verossímil. Abrir as portas uns dias antes do carnaval.
Previsões, finais de Março, começo de Abril.

Dia dois de Fevereiro, milhares de pessoas se dirigem ao Rio Vermelho e fazem as suas oferendas à Rainha dos Mares “Yemanjá” é o sincretismo religioso de mãos dadas com as tradições desta cidade “D Oxum”.
Festa popular pronuncio de mais um carnaval que se aproxima.
Seria diferente dos outros que eu tinha presenciado, quando ainda morava na cidade dos Alfacinhas.
Tivemos a chance de passar todos os dias da festa, no camarote de Daniela Mercury, criado e organizado por Licia Fábio, desde mil novecentos e noventa e cinco.
É um desfile de gente bonita de sexta a Terça-Feira.
- De certa forma, o nosso momento tinha chegado.
Apresentados a todos os que faziam parte, desse movimento contínuo de que tudo é novo e tudo é belo – Claro que não é bem assim –
O que me interessava chamava-se conhecimento e comunicabilidade.
Fotos atrás de fotos, algumas entrevistas breves, para sites e órgão de comunicação social. Carla irradiava beleza e simpatia e eu me sentia o Ricardo filho do Roldão e da Zita.
Com todas as pessoas que conversava, abordava sempre a criação do espaço e da maravilhosa e inovadora, culinária do grande “Chef Beto”.

O objetivo de toda a minha política empresarial e de negócio, sempre foi o investimento e a divulgação da pessoa e da imagem do mestre Beto.
Desde o dia em que me convidou para ser seu sócio, dirigi todas as minhas energias no engrandecimento pessoal e profissional do homem.
Tudo fiz nesse sentido...
Necessitávamos de trabalhar a imagem do “Chef Beto”, torná-la mais profissional e objetiva.
Então contratamos os serviços da Via Press, sem dúvida na altura a melhor Assessoria de Imprensa da Bahia. Vários profissionais colaboraram conosco, ressalvo Elaine Hazim e Jamil.

O papel da assessoria de imprensa foi primordial no lançamento do novo projeto e também na valorização do trabalho e imagem do mestre, do criador desta gastronomia, que se pretendia internacional.

Trabalhamos juntos e com afinco.
Atingiram-se os nossos objetivos? Boa pergunta! Não sei...

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Décima Primeira Dose de Pílulas do Livro...

Prestei atenção na varanda, já que havia uma parede pintada de branco e por cima um candelabro de ferro, que vim mais tarde, a saber, tinha sido criado, pelo grande artista baiano Mário Cravo Jr.
A nossa benfeitora durante toda a visita á casa, pouco se manifestou.
Olhava com muita atenção, tudo o que se lhe deparava e só abanava positivamente com a cabeça aos comentários que eu ou Carla fazíamos.
A casa ainda estava alugada a Kenichi, ele é que tinha as chaves de todos os cômodos, por isso acompanhou-nos durante a visita.
Teria de levar Licia ao escritório, pois os seus compromissos eram inadiáveis.
Acomodando-se á frente e assim que coloquei a marcha e comecei a deslocar-me com a viatura, interrompeu o silêncio.
Gostei do que vi – muito boa localização, ampla, era isto – disse, sorrindo para mim e demonstrando certo bem estar e realização. Agora só falta falarem com o proprietário, para saberem o preço do imóvel – como se chama? Indagou, chama-se Paulo Mota, respondi prontamente. Franziu os olhos, como se estivesse a pensar ou a tentar descobrir algo. A possibilidade de conhecer o dono do imóvel facilitaria o negócio.

Deslocamo-nos ao escritório de Paulo Mota na zona do Comercio.
Tem um negócio de família muito prospero que era do Senhor seu pai e que agora geria com um irmão.
A empresa era distribuidora de laticínios em toda a Bahia. Paulo é um individuo extremamente educado e correto que preserva aquilo que o ser humano tem de mais importante: a palavra e a honra.
Não foi difícil fazer qualquer negócio com ele, pois facilmente nos tornamos amigos.
Vender o imóvel não era sua idéia, tinha-o comprado como forma de investimento em longo prazo.
Sendo homem de negócios há já alguns anos, sabia que a zona do Rio Vermelho, onde ficava o seu imóvel, valorizava dia a dia e que a procura por casas na região é muito superior á oferta.
Só venderia se aparecesse uma proposta irrecusável.
A solução seria o aluguer. Acordamos o preço, mediante um contrato de quatro anos, com renovações automáticas. Paulo sabia que o seu imóvel ia ser beneficiado, não só estruturalmente devido ás obras que seriam efetuadas, bem como a valorização econômica do mesmo.
Pôs-me à vontade dizendo: o seu sucesso é o meu sucesso e enquanto você quiser ficar com o imóvel alugado, ele é seu.
Ainda havia a questão das obras e o tempo que demoraria, assim como o problemão do Alvará da Prefeitura/Sucom – soubemos que dificuldades existiriam para a autorização da abertura de um Restaurante naquele espaço, não só pelo o que tinha acontecido com o dono do Lambreta Grill, mas também porque se dizia que ali não podia haver qualquer casa comercial, por ser zona residencial.
Então solicitei um prazo de três meses de carência, que seria o tempo previsto por nós para a reforma, ao que prontamente acedeu.

Agora começava a fase mais trabalhosa, desgastante, exaustiva de todo o processo que se tinha iniciado há algum tempo atrás.

Obras, reformas, é igual a – chatices... Foram tantas.

Tudo já estava em movimento.
O universo conspirava a nosso favor, com a ajuda de algumas estimadas e sempre dedicadas pessoas, Licia era uma delas, talvez a principal naquele momento, sem a sua ajuda teria sido impossível formatar aquilo que formatamos e fazer aquilo que fizemos.
Claro que teríamos criado um restaurante, mas nunca “O Restaurante”.

Tardes e tardes passei sentado em frente á Senhora Dona Licia Fábio, no seu gabinete ouvindo os seus conselhos, as suas opiniões e montando um negócio que viria a tornar-se um sucesso.
Sentada naquela poltrona vermelha, comandava toda a operacionalidade que estava a ser criada, orientava-me, conduzia e sugeria-me situações.

Aquela agenda em cima da mesa era mágica.

Desde o decorador, passando pela contadora, representantes de marcas de bebidas, patrocinadores, tudo fazia para eu conhecesse os meandros do negócio e as reuniões fossem conclusivas.
Discava um número e aparecia um possível interessado no projeto. O resto era comigo.
Vai falar com Ricardo Alves, genro e sócio de Beto que está abrindo uma filial do restaurante Paraíso Tropical, aquele do Cabula – e do outro lado da linha lá estava alguém.
As reuniões sucediam-se e as negociações também.
Ao mesmo tempo, Licia nos apresentou um individuo que era muito original nos seus projetos e que tinha criado alguns espaços bastante agradáveis em Salvador.
Tínhamos conhecido outros arquitetos de nomeada, mas optamos pelo mais novo e que nos dava também certo conforto em termos de proposta apresentada.
Acertamos a questão financeira, com a pessoa contratada e as questões contratuais e de tempo que a reforma ia demorar.
Apresentou-nos um projeto juntamente com a questão decorativa. Discutimos ao longo dos dias, algumas alterações e quantificações possíveis, para que tudo desse certo.

O prazo acordado com o responsável de todo o projeto para que as obras acabassem e o restaurante fosse inaugurado, era a semana do carnaval do ano de dois mil e quatro.
A nossa idéia, era inaugurar em pleno verão, para aproveitarmos o movimento de turistas que acontece na cidade de Salvador e assim começarmos a viabilizar a verba investida.
Estávamos em Outubro de dois mil e três a meio do mês, precisamente dia dezanove, a reforma começava.
Tínhamos três meses e meio para montar toda uma estrutura, desde a colher de chá ao chefe de cozinha.

Desdobrávamo-nos em várias funções e ao mesmo tempo entrelaçávamos os vários fios, que originariam o produto final.

Idéias muitas...

O mestre tinha imensas revistas, cortes de jornais com reportagens sobre a sua gastronomia amontoadas e guardadas, como estávamos constantemente em reuniões, com parceiros, patrocinadores, fornecedores, seria boa política, criarmos um book, onde reuníssemos toda a informação existente durante anos, sobre o Restaurante. E assim fizemos.
Reunimos toda a informação existente e selecionamos aquilo que nos parecia de melhor qualidade e objetividade.
Fizemos dois books e começamos a distribuir um menor com as melhores reportagens de jornais e revistas e outro maior com fotos quase em tamanho real dos prêmios existentes, colocando em destaque a “Commanderie de Cordon Blue de France”
A partir daquele momento e aos poucos, começava a criar e a vender a imagem do “Chef Beto” – O grande inovador da culinária baiana e da cozinha experimental.

O Paraíso Tropical do Cabula não tinha uma logomarca definida, por isso era primordial pensarmos na sua criação.

Problema fundamental que logomarca! A idéia subjacente ao Cabula e á sua culinária, tinha relação direta com a natureza, frutas exóticas e uma chácara. Pedimos a três agências de publicidade que criasse baseado nesse conceito uma logomarca, que seria utilizada nos dois Restaurantes.
Havia ainda outro conceito que era controverso e discutido tanto por nós como pelos publicitários.
Os Galos, paixão de Beto ao longo dos anos e que existiam ao seu redor diariamente.
De uma simples Rinha de Galos a um dos restaurantes mais famosos da Bahia.
O que fazer e como misturar estes conceitos!
Depois de muita discussão proveitosa, a decisão estava tomada.

O Galo seria a logomarca de todo o nosso projeto, a agencia contratada ficou de estilizar melhor a logo, alterando um pouco a tonalidade das cores.
O consenso foi generalizado, mas a grande defensora da idéia foi Dona Licia Fábio que achava o Galo, a cara do Paraíso.
A reforma do novo Paraíso avançava com alguns atrasos (nada que não se pudesse recuperar) a empresa do Rio Vermelho já tinha sido criada em nome de Carla, tínhamos entregado a documentação para obtenção do alvará junto á Prefeitura/Sucom, solicitamos ao Senac-Salvador nomes de possíveis colaboradores e através da nossa amiga e contadora Vitória Souto contratamos uma equipe de psicólogas, para analisarem os currículos e fazerem o recrutamento de todo o pessoal do novo restaurante.

Política da boa vizinhança.
Tínhamos um vizinho um senhor de idade avançada que aparecia de quando em quando á porta da casa, indagando com certa severidade os trabalhadores que estavam na reforma, sobre o que iria acontecer naquele espaço. Parecia o auto nomeado proprietário da Rua Feira de Santana.
Outra questão a ser resolvida e não seria nada fácil, mas nada que uma boa conversa sincera e amigável não resolvesse. E tivemos muitas.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Décima Dose de Pílulas do Livro...

Segunda metade do mês de Setembro do ano de dois mil e três, continuávamos à procura de um espaço, até que Carla se lembrou de uma pessoa que tinha ajudado imenso o Paraíso Tropical, não só na divulgação do mesmo de todas as maneiras, quer através da imprensa escrita e falada, bem como para todas as pessoas que conhecia e levando sempre que possível os seus amigos e conhecidos que eram formadores de opinião. Essa senhora era amiga de Beto e adorava a sua culinária, principalmente a Torta de Maturì com Creme de Palmito de Coqueiro...
O seu escritório ficava na contorno junto ao Trapiche Adelaide, lá fomos... Eu, Carla e o seu irmão Betinho.

Local aprazível, com uma vista muito bonita.
Entramos no seu escritório, Rés-do-Chão, do lado esquerdo, tinha uma mesa de madeira lindíssima com um tampo de vidro, onde estava sentada uma moça, que ao ver-nos imediatamente nos indagou – bom dia, em que vos posso ser útil! Viemos falar com a Dona Licia Fábio, respondeu Carla. Sentem-se, por favor, posso-vos servir algo! Dona Licia Fábio, já vos atende.
Sentamo-nos nuns pufes brancos que existiam à direita, o gabinete de Licia ficava logo a nossa frente a uns dois metros do local onde nos encontrávamos, era separado por um vidro transparente e por uma porta de madeira, mais para dentro á direita, havia outra sala com funcionários trabalhando, notei uma grande movimentação de pessoas entrando e saindo constantemente.

Havia uma estante de madeira branca, com alguns objetos de decoração e alguns livros, chamou-me a atenção um sobre um francês “Pierre Verger” que era fotógrafo e que se tinha apaixonado pela Bahia e pela religião do “Candomblé”... Que interessante, pensei eu.

Enquanto desfolhava com muita atenção o livro, reparei que na parede estava pendurado um painel grande de cortiça, com imensas fotos de artistas de cinema, de televisão, cantores, políticos, todos com Licia. Entramos no gabinete dessa Senhora, que pela sua grandeza espiritual e de alma nos torna pequenos perto dela. A impressão que tive, foi estar perto de alguma entidade. Ser humano muito sóbrio e objetivo, não perde tempo com nada e vai direto ao assunto, sem grandes delongas. Irradia grandeza e originalidade.
Licia já sabia da minha existência, pois Beto tinha telefonado, solicitando que nos recebesse em seu gabinete. Dei-lhe dois beijos na face;
Seja bem vindo, foram as suas palavras de carinho.

Estava sentada numa poltrona longa e vermelha... Por vezes e durante as reuniões que tivemos, ao longo dos meses, encostava o seu corpo para trás e balançava levemente a poltrona quando estava mais descontraída, ou ficava numa posição mais retilínea com as mãos cruzadas sobre a sua mesa quando o assunto exigia mais concentração.
Falar de Dona Licia Fábio não é fácil pela sua imensa grandeza como mulher, como mãe, mas fundamentalmente como ser humano.
Aqui começava a segunda parte da minha história nesta terra abençoada pelos deuses.
Houve três pessoas que jamais esquecerei, pela amizade, pelo carinho e pelo respeito que sempre tiveram pela minha pessoa, independentemente das contingências e percalços de toda uma vida, vivida tão intensamente em tão pouco tempo.

A primeira foi esta grandiosa mulher, Licia Fábio.

Considerada uma das maiores “Promoters” do Brasil é sem dúvida a mais exigente e qualificada da Bahia.
O que me surpreendeu ao longo dos anos foi a sua visão ampla de negócios, alcança onde poucos conseguem alcançar, vê o que só uma minoria pode ver.
Respeitada por muitos, provoca alguma inveja em alguns, pela sua constante metamorfose mental.
Licia não é somente uma promoter ou alguém que cria e faz festas maravilhosas e selecionadas para uma elite, é muito mais do que isso...
Os seus contatos e os conhecimentos que conquistou com o seu trabalho merecido ao longo dos anos tornaram-na numa empresária de tão grande visão, que onde toca, (segundo dizem alguns) vira ouro...

Excelente articuladora é fundamentalmente uma artista do social e da sociedade... Pinta os momentos, pinta os espaços, pinta o tempo e deixa para os outros a contemplação e o usufruto das suas imensas obras artísticas...

Eu vou ajudar-vos a montar o Restaurante... E assim foi. As idéias surgiam da cabeça daquela mulher de uma forma rápida, umas atrás das outras. Tomava nota daquilo que conseguia, perguntava aquilo que não entendia e o esqueleto e a estrutura foram tomando forma.
Licia era uma conhecedora de toda a culinária do mestre, sabia tudo sobre ele. A sua visão era extremamente profissional em relação ao negócio que queríamos montar.
Sabia as limitações e as virtudes. Opinava constantemente sobre as alterações que deviam ser efetuadas.
Estávamos somente na primeira reunião.

Faltava o espaço, o resto vinha por conseqüência.

Em cima de sua mesa, havia uma agenda telefônica onde existiam todos os seus contatos, que utilizava sempre que necessário fosse e dois aparelhos de celular. Sem nada dizer, procurou na agenda um número de telefone e ligou – Estou aqui com o genro de Beto dono do Paraíso Tropical, ele é Português e casou-se com a filha Carla, eles vão montar um restaurante e estão á procura de um local, estou a ajudá-los – Quando desligou a chamada, olhou para mim, Ricardo falei agora com Reinaldo (era o proprietário da Marina de Salvador, que estava interessado em colocar alguns restaurantes de qualidade na Marina) ele vai-te receber amanhã, mas olha, vai com Beto.
No dia seguinte lá estávamos na Marina de Salvador, para uma reunião com o dono do espaço.
Não fechamos negócio, se bem me lembro o investimento era muito alto e a mensalidade também.
Licia dizia sempre que o restaurante tinha de ser no bairro do Rio Vermelho eu indagava porquê, ao que respondia que era um local de Boemia, centralizado e que estava em crescimento.
Lá íamos os três, pelas ruas do bairro batendo porta a porta e perguntando se havia alguma casa para vender ou alugar.
Procurávamos as casas com espaço suficiente e grande, mas nada de encontrar...
Ela dizia-nos constantemente, lá para dentro, lá para dentro, procurem naquelas ruas de dentro é lá que tem de ser.
Ao fim de uma semana e depois de muita sola gastar, encontramos uma casa enorme, ai de uns setecentos metros quadrados, já com área construída.
A casa ficava em frente a uma praça, abandonada cheia de capim e ervas daninha.
O que me chamou a atenção na casa é que ela ficava num alto – era a casa mãe da praça.

A praça chamava-se “Carlos Batalha” de praça, só o nome numa placa meio comida pelo tempo e uma estátua toda descuidada pela heresia de alguém.

Endereço – Rua Feira de Santana 354.

Havia uma placa colocada na área externa perto de uma linda amendoeira – Aluga-se – a casa precisava de reparos, de obras, mas isso não interessava naquele preciso momento.
O que eu queria era ligar para o telefone celular, que estava escrito na bendita placa.
Do outro lado da linha, atendeu-me um senhor simpático, mas com um sotaque estranho, chamava-se Kenichi. Boa tarde chamo-me Ricardo Alves e estou a telefonar-lhe para falarmos sobre um possível aluguer da casa na Rua Feira de Santana, estou chegando, respondeu do outro lado.
Kenichi era Japonês – daí o sotaque – e morava igualmente no Rio Vermelho, pois detinha um negócio que se chamava Lambreta Grill (onde comi deliciosas lambretas, que só ele sabia fazer).
Poucos minutos depois, chegou o nosso estimado amigo Japonês.
A casa não era dele estava alugada á sua pessoa, ele tinha um negocio que pretendia expandir e então tinha alugado a casa a um Senhor que dava pelo nome de Paulo Mota.
Tinha pago três meses de alugueis ao proprietário do imóvel, mas não tinha conseguido Alvará da Prefeitura, para a construção e reformas que eram necessárias fazer no espaço.
Por isso estava prestes a desistir de expandir o seu negócio ou então procuraria outro local, que fosse mais fácil conseguir os respectivos Alvarás.

Fiquei animado com a perspectiva de poder ficar com a casa, era um sonho que perseguíamos há algum tempo e parecia que as insistências de Licia estavam certas... Era ali mesmo, como sempre disse a nossa benfeitora.
Prontamente Kenichi, forneceu-me os telefones de Paulo Mota (que amigo Paulo Mota foi até ao ultimo minuto, sempre com compreensão e respeito pela minha pessoa, bem haja).

Tínhamos conseguido...
Fiz uma ligação para Licia contando o sucedido, perguntei-lhe se ela estaria disponível para ir olhar a casa, prontamente disse que sim, então combinei com o portador das chaves Kenichi, para o dia seguinte.

Assim fizemos, pela manhã fui buscar Licia com Carla e a levamos até o imóvel.
O aspecto era de abandono, folhas secas da Amendoeira espalhadas por toda a área externa, o gradeamento que circundava o espaço estava enferrujado, as portas e janelas completamente estragadas, o telhado necessitava de ser substituído, o passeio em frente e na lateral todo levantado (calçada Portuguesa), enfim isto se via a olho visto, o resto era mais complexo, pois necessitava de alguém especializado que pudesse opinar.
Entramos pela porta da frente, que dava diretamente para dentro da casa, havia outra entrada pela lateral, uma que acessava o jardim e a última dava acesso á garagem e ficava na parte de baixo em frente á praça.
Na entrada tínhamos um salão de chão de madeira, á esquerda havia uma porta, que aberta acessávamos á varanda e a toda a área externa, bem como á parte de baixo e á garagem.
Em frente ao salão descíamos umas escadas e estávamos supostamente nuns cômodos que seriam os quartos.