segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Vigésima Nona Dose de Pílulas do Livro...

Três dias depois, data muito especial, fazia quarenta anos de idade.

Na praça dentro do restaurante, convidei os amigos mais íntimos e alguns conhecidos talvez umas quarenta pessoas.
Não me referirei a nomes, mas há um que devo mencionar, pela sua magia de voz e de presença.

Altay Veloso, grande mágico entidade que canta com o coração.

Até hoje passados alguns anos, algumas pessoas quando me encontram recordam-se daquela noite, em que tiveram o privilégio de ouvir a voz que chora e que faz chorar.
Altay se dispôs a cantar naquele circulo restrito, musicas da sua Ópera “Alabê de Jerusalém”.
A obra nasceu da sua convivência com os tambores africanos no quintal da sua casa, do gosto pela música erudita desde criança e dos cultos ecumênicos que presenciou na casa da sua avó.
Demorou mais de vinte anos a criar a sua grande obra, impulsionado pela fé e perseverança de alguém que acredita que tudo é possível quando insistimos nos nossos sonhos.
A paz que transmite a cada nota, a tranqüilidade da sua postura, ficará registrada nas nossas mentes.

Pelos rostos corriam lágrimas de emoção...

Jota Velloso e Mauricio Pessoa, precisavam lançar o selo de gravação da sua gravadora, para o efeito e como havia um palco montado solicitaram-me o espaço para fazer um evento com um show á mistura.
O selo chamava-se “Os Cavaleiros de Jorge” e o show seria com D. Edith do Prato e as vozes da purificação de Santo Amaro, Ilê Ayê, Riachão, Jota e Mariene.
Assim aconteceu, o espaço estava agora também a ser utilizado para divulgação de eventos musicais.
A cantora Joana comemorou a sua carreira igualmente no nosso restaurante com um coktail organizado pelo País Tropical.
A grande Representante e Interprete da língua Portuguesa e de Camões no mundo, Maria Bethânia, deu-nos a honra de comemorar o aniversário de carreira musical com um jantar em família, que teve a participação da matriarca D. Canô.

Muita honra e imensa responsabilidade...

Dois dos grandes produtores musicais do Brasil, Adailton e Yeda, que já produziram todos os nomes sonantes da MPB, organizam todos os anos em Salvador alguns shows de Bossa Nova, no Teatro Castro Alves.
Esse ano não seria diferente...
Como é fácil fazer amizade com indivíduos simples e bonitos.
Adailton e Yeda são um casal particularmente bonito pela sua extraordinária simplicidade.
Freqüentavam o nosso restaurante com alguma assiduidade e por isso mesmo criamos laços de amizade e respeito.
Esse ano traziam para o Teatro Castro Alves duas famílias muito importantes na história da Bossa Nova da música Brasileira e Universal.

Famílias Caymmi e Jobim cantando António Carlos Jobim – O Maestro.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Vigésima Oitava Dose de Pílulas do Livro...

A freqüência do restaurante e de nomes sonantes mantinha-se quase que diariamente e sempre que viessem a Salvador, Arnaldo Antunes, Vanessa da Mata, Rita Lee, Zélia Duncan, Chico Cesar, Marcos Paulo, Milton Nascimento, Paulo Jobim, Paulo Braga, Carlinhos Brown, Adriana Esteves, Elba Ramalho, Lulu Santos, Taís Araujo, Lázaro Ramos, Wagner Moura, José Carlos Aleluia, ACM Neto, Caio Blatt, Eliana e muitos outros que prestigiavam a nossa culinária e o nosso espaço com a sua estimada e dignificante presença.

Aproximava-se a festa do Rio Vermelho estruturei e preparei um enorme evento que se realizaria no dia dois de Fevereiro.
Arranjei alguns patrocinadores de peso, Dinners Club, Martha Paiva, Chandon, Hagen Daas e outros tantos.
O sempre amigo Bel Borba criou uns azulejos, dez para serem sorteados. “Com o apoio do Dinners Club e da Redecard, construímos um palco de madeira para o evento, onde cantaria a artista ‘Mariene de Castro”, chamamos de São Paulo a modelo baiana negra “Rojane Fradique” que vestiu uma peça propositadamente criada pela grife “Martha Paiva” e que simbolizaria a nossa Yemanjá.

A feijoada estava montada.

Por volta do meio dia começamos a servir os nossos convidados que iam chegando pouco a pouco. Por volta das três da tarde, não cabia mais ninguém dentro do nosso espaço, estávamos com dificuldades, para limitar a entrada de algumas pessoas, que não tinham camiseta, mas que eram conhecidos ou amigos.

Não pensamos que ficasse tão cheio.

Eu tinha combinado com os garçons que o Espumante e o Sorvete seriam servidos ao mesmo tempo, a partir de meio do show da Mariene de Castro, antes servir-se-ia o costume em todas as festas.
O sorteio dos azulejos de Bel foi feito, chamado ao palco, tive de dizer algumas palavras, perante todos os convidados, agradecendo o apoio de todos os patrocinadores.
A festa estava super animada, já se comentava que há imenso tempo não havia algo parecido.
Tinha ido ao aeroporto durante a manhã, buscar Rojane Fradique, que estava hospedada no Hotel Pestana.

Rojane entrou, desceu as escadas, vestida de longo azul, estava deslumbrante a nossa Yemanjá negra e Baiana.
Os jornalistas presentes aproveitaram o momento para tirar as fotos todas.
Por volta das cinco e meia da tarde, começou o Show de Mariene de Castro, Mariene tem uma voz maravilhosa e o seu repertório baseia-se nos sambas de roda do recôncavo baiano.
No palco ela cresce imenso, parece que tem o dobro da altura, é realmente uma sensação de energia coletiva que esta artista baiana transmite nos seus shows.
Naquele dia ela estava com um vestido branco, rodado e todo bordado, criado pelos estilistas Soudam & Kavesky, nos braços várias pulseiras.

Desceu a escada cantando no meio das pessoas, com o seu sorriso de menina môça do recôncavo baiano.
Era casada com Jota Velloso (sempre carinhoso amigo), sobrinho de Caetano e de Bethânia, cantor, compositor e poeta de Santo Amaro.
Mariene tomou conta do ambiente, ninguém ficava parado, a voz dela é elevada, canta gesticulando, fazia lembrar-me um pouco a falecida Clara Nunes, estavam vários artistas presentes, assistindo ao show e participando da festa, lembro-me do meu amigo, ”Altay Veloso” que veio propositadamente do Rio de Janeiro, (grande compositor brasileiro que compôs a primeira opera negra da história musical do Brasil Alabê de Jerusalém, e que tive a honra de ser convidado para a pré-estréia no Canecão).
Estavam todos os presentes homenageando-me, até tinha vindo Ivan Trilha e a Presidente do Banco Rural Kátia Rabello.
Começaram a servir o espumante brut e rosê juntamente com o sorvete, que chique...
Mariene de Castro descia ás vezes do palco e sambava com os convidados, todos tentavam acompanhar o seu ritmo, havia duas pessoas especialmente animadas naquele momento, dancavam lindamente, a sobrinha Carla e a tia Denise. A festa terminou lá pelas onze horas da noite, lembro-me que ainda fomos para casa de Filomena Moura.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Vigésima Sétima Dose de Pílulas do Livro...

O segundo passo e também imediato seria mudar tudo o que tivesse o nome do anterior restaurante; Cardápios, Aventais, Totem, Site, Cartões, Folders, Publicidade, Divulgação, etc.
O terceiro passo urgente a ser tomado era introduzir uma nova culinária que contemplasse novas opções de escolha para o cliente.
A culinária anterior mantinha-se com substanciais alterações.
Retiramos com a concordância da nossa Chef Maria de Lourdes, que agora tinha a responsabilidade total da culinária, alguns itens do cardápio, que eram difíceis de encontrar.
Fizemos também alterações nas moquecas, tornando-as mais simples sem alguns dos produtos que Beto utilizava.
Criamos algumas sobremesas, que se tornaram sucesso, como Mousse de Cupuaçu com Calda de Frutas Vermelhas, ou a nossa Mousse de Chocolate com Coco Verde.
Retiramos a travessa de frutas oferecidas aos clientes e introduzimos alguns pratos da culinária Portuguesa.
Para o efeito dirigi-me algumas vezes a Itaparica, onde passava normalmente e sempre que podia os meus finais de semana e comecei a observar um Português que habitava por lá e trabalhava numa pousada de um Alemão. Bel chamou-me a atenção para o cozinheiro Paulo Jorge...

Fazia um bacalhau no forno gratinado chamado de Zé do Pipo, uma verdadeira delicia...

Conversei longamente com o Paulo Jorge e contratei a sua consultoria e assessoria por dois meses, tempo suficiente para ele preparar os novos pratos e ensiná-los aos cozinheiros e principalmente á Chef Maria de Lourdes. Adequamos os utensílios á nova culinária, adquirimos um forno rápido e criamos outras iguarias.

Bacalhau no Forno regado a Azeite de Oliva e acompanhado de Batatas ao Murro, Arroz de Polvo e Marisco (que era o melhor arroz de polvo de toda a Bahia, de acordo com os nossos clientes, que vinham de outras cidades do estado), Chouriço Assado na Brasa na mesa em frente ao cliente (para o efeito mandamos fazer vários assadores de barro para o chouriço), no fundo internacionalizamos a culinária.

Expliquei ao grupo de colaboradores que de comum acordo os dois restaurantes estavam a seguir rumos diferentes, na tentativa de viabilizar ambos os projetos.
A quarta alteração teria de ser através da imprensa.
Marquei uma reunião com a Assessoria e solicitei que convidassem alguns jornalistas e formadores de opinião para o “País Tropical” apresentar a nova face do restaurante.
Tinha havido uma reestruturação gastronômica, seria necessário dar a conhecer a nova faceta, através de um jantar.
A reestruturação do País Tropical tinha dado os seus frutos e o movimento no Rio Vermelho continuava dentro da normalidade, claro que tivemos de fazer alguns investimentos em divulgação, até porque os que existiam eram anteriores á reestruturação.
Todos os clientes perguntavam o porquê da mudança do nome! Sempre respondíamos com o máximo rigor e zelo. Tínhamos seguido caminhos diferentes, mas com um único objetivo; viabilizar ambos os projetos.
Somente isto...
Contratamos uma empresa de Salvador para fazer um estudo rigoroso de viabilidade financeira e consultoria.
Deveria ter sido feito no inicio, em Abril de dois mil e quatro...
Foram detectadas algumas incongruências, algumas irregularidades.
Fez-se a ficha técnica de todos os pratos, mediram-se produto a produto, item por item, e conseguiu-se o custo de tudo o que se vendia no restaurante. Fizeram-se algumas alterações mediante o estudo terminado.
Tardias talvez...

Finalzinho do ano de dois mil e cinco. Esse Réveillon passamo-lo em Itaparica, na praia com a companhia de Bel, Bruno e Daniela, a linda Giulia e mais dois casais de amigos, tomando o banho da meia noite, bebendo Champagne e pedindo aos deuses que nos dessem saúde, paz, harmonia e muito amor nos nossos corações.
Noite diferente, talvez porque fosse a última desse ano repleto de imensas alegrias e algumas desilusões que nos faziam refletir sobre o dia de amanhã... E o amanhã era ali logo de seguida...
Interessante,deveras intrigante.
Momento espontâneo, milésimo de segundo e estávamos em Dois Mil e Seis como se de uma barreira se tratasse, será que o tempo pode ser ultrapassado numa correria desenfreada.
E a busca desse novo horário temporal, mudaria as nossas vidas...?




segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Vigésima Sexta Dose de Pílulas do Livro...

Mas a grande paixão de Carlos Vasconcelos era o amor mais proibido de toda a historia de Portugal ao longo dos séculos.

Sentia-se o interesse com que contava a história de “Inês de Castro e do Príncipe D. Pedro”.

-Segundo a lenda - dizia Carlos - Inês de Castro conheceu D. Pedro nos Paços Reais em Coimbra, onde hoje fica a universidade.
A sua beleza fez com que o Príncipe herdeiro se apaixonasse de imediato.
Inês vivia no Convento de Santa Clara-a-Velha e era nesse local que recebia as cartas proibidas de Pedro.
As difíceis relações entre o reino de Portugal e Castela haviam de originar um final trágico para essa história de amor que permanece até aos dias de hoje.

- Neste momento o nosso amigo Português, franzia a testa, como que se preparando, para contar o desfecho.
- No inicio de Janeiro de mil trezentos e cinqüenta e cinco D. Afonso IV, pai do Príncipe Herdeiro, decide mandar matar Inês de Castro.
Ela é assassinada em sete de Janeiro do mesmo ano, no Paço de Santa Clara.

Passados dois anos, D. Pedro é coroado Rei de Portugal e o seu grande objetivo, foi elevar Inês de Castro a Rainha de Portugal e desafiar toda a eternidade com o grande amor que viveu...

Carlos Vasconcelos era um romântico por excelência...

Decidimos em Setembro viajar para Portugal aproveitando o finalzinho do verão e descansarmos um pouco desta movimentação.
Estávamos a precisar relaxar a tensão provocada por sucessivas e conturbadas questões de sociedade.
No inicio ficaríamos duas semanas em Lisboa e depois regressaríamos o negócio assim o exigia.

Tivemos de regressar antes do previsto.
Problemas no restaurante.
Voltei, conversamos longamente e decidimos separar os negócios.
Tudo foi efetuado da minha parte, com a maior das tranqüilidades e civismo.
Fiquei muito triste com o que estava a acontecer.
O desgaste tinha sido enorme, para todos nós envolvidos neste projeto desde o primeiro dia.
A situação estava bastante tensa, mas controlada, a culpabilidade existia dos dois lados, é difícil errar sozinho, eu reconhecia alguns excessos e atitudes mal tomadas, tudo fiz para que todo o projeto continuasse por tempo indeterminado, mas o destino assim o quis, e a separação foi inevitável.
Que pena, diziam todos os que circulavam ao nosso redor,
Vocês faziam uma equipe de alto nível, afirmavam isso nunca era para acontecer...

O que fazer agora? Perguntava a mim mesmo, mas não obtinha resposta rápida...
Amigos conhecidos e freqüentadores do espaço opinaram sobre as alterações que deveriam acontecer com a maior urgência possível.
Mudanças, claro, mas que tipo de mudanças!

Devo confessar que passei longas noites em claro sem conseguir sequer dormir nem descansar o suficiente. Carla estava preocupadíssima e eu haveria de arranjar uma solução...
Dificuldades existem para as ultrapassarmos, pensava eu, nas longas noites revirando de um lado para o outro. Ouvi muito atenciosamente, um ou dois amigos mais íntimos, a quem devia a maior consideração e atenção, pois sempre foram pessoas de extrema confiança.
A primeira coisa a ser feita, era mudar o nome do restaurante, consultamos algumas empresas de registro de patentes e decidimos por País Tropical.
Assim foi feito...
O nome passaria para “País Tropical”.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Vigésima Quinta Dose de Pílulas do Livro...

- Ricardo precisava da tua ajuda, queria organizar um desfile de moda, com alguns modelos para apresentação á imprensa especializada da minha coleção.
- Em que moldes? Perguntei. Quem fará a produção?
Carla já tinha tudo pensado.
O desfile foi um sucesso.
Pelas escadas foi montado todo um aparato estético/decorativo que resultou para a nova designer de acessórios de moda, numa noite triunfante.
Os seus colares e pulseiras seriam escolhidos pelos estilistas Soudam & Kaveski para desfilarem na passarela no Barra Fashion desse ano.

Eu refletia... Naquela casa, naquele espaço, tudo seria possível de acontecer. Não era um simples lugar de gastronomia.
Local de encontro de gentes, de prosas, de cultura, de artes visuais, de moda, de músicos e de música... Das mais variadas expressões artísticas.

Ed Motta é um apaixonado pela enólogia e gastronomia para além de músico de excelente qualidade.
Adorava sentar-se para almoçar na companhia da sua Edna e experimentar alguns pratos da nossa culinária.
Troquei com ele alguns conhecimentos sobre gastronomia portuguesa e enologia de Portugal.
Perdiamos-nos pelas tardes de Salvador, sentados, em longas conversas sobre nomes de vinhos, castas e anos de fabricação...
Exímio conhecedor de bons vinhos Portugueses e não só, confidenciou-me que tem um grupo no Rio de Janeiro, que se encontram periodicamente para tomar vinhos escolhidos a dedo.
Em Lisboa para onde vai todos os anos, conheceu uns patrícios, de quem se tornou amigo, que são proprietários de um restaurante num bairro que se chama Benfica, que dão a conhecer, algumas relíquias da culinária Portuguesa, Acorda de Marisco, Pataniscas de Bacalhau com Arroz de Grelos, Bacalhau á Lagareiro, Cabrito Assado no Forno com Batatas ao Murro, regados com bons vinhos tintos e brancos lá da terrinha; os seus olhos ficavam ainda mais regalados e abertos quando falava da culinária e dos vinhos que partilhava com os seus amigos de Portugal.

Clientes de várias nacionalidades freqüentavam o restaurante, principalmente Portuguesa vinham indicados pelo Hotel Pestana que ficava sito no Rio Vermelho, próximo ao Restaurante.
Perguntavam por mim aos colaboradores, queríamos falar com o Ricardo Alves, eu aparecia e por vezes fazíamos amizade.

Carlos Vasconcelos de seu nome, Português de Coimbra a capital do fado de capa e batina, o fado dos estudantes universitários, tornou-se meu amigo.
Passava por Salvador em negócios e viajava para outras capitais Brasileiras.
Mesmo que só ficasse um dia em Salvador, nunca deixava de me visitar e isso me honrava muito.
Adorava conversar, contar histórias e saber novidades. Era sedento por informação.
Homem de negócios, engenheiro agrônomo de formação, vinha ao Brasil visitar as suas fazendas um pouco espalhadas por este imenso e grandioso país.
Adorava falar da sua Coimbra, dos seus encantos, da sua rica e imensa história.
Dissertava sobre a medieval imponência da Sé Velha, dos traços Manuelinos existentes na Igreja do Mosteiro de Santa Cruz, das memórias árabes, cristãs e judaicas de séculos, que Fernando Martins de Bulhões (Santo António) – viveu em Coimbra na hoje igreja de Santo António dos Olivais, da Universidade de Coimbra fundada pelo Rei D. Diniz em mil duzentos e noventa, da Biblioteca Joanina em estilo barroco, construída no Reinado de D.João V, uma série de conhecimentos e informações sobre a cidade onde tinha nascido e crescido...

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Vigésima Quarta Dose de Pílulas do Livro...

Na lateral direita da casa existia uma área afastada e que ficava isolada do resto do restaurante.
Por sugestão de alguns clientes e amigos, mas fundamentalmente de Ivan Trilha, decidimos aproveitar o espaço e torná-lo área vip.
Pedi ao meu estimado amigo Bel Borba que pensasse em algo para dar maior vivacidade aos metros quadrados existentes.
A meio havia uma palmeira. Então pensamos no seguinte:
Rodear a palmeira com uma mesa redonda de madeira, feita para o efeito.
Colocar no chão calçada portuguesa que já existia no perímetro externo da casa e fazer um pequeno paisagismo, semelhante ao do pergolado e amendoeira.

Mas faltava o mais importante, dar vida ás paredes que rodeavam esta pequena praça.
Então o artista visual Bel Borba, uma das maiores individualidades brasileiras e mundiais em mosaicos, resolveu o problema com a sua mestria e objetividade.

Criou por toda a parede lateral, várias figuras em mosaico branco, como se fossem os guardiões daquele espaço.
A parede tinha ganhado movimento com a presença daqueles pequenos guardiões, alguns com as suas espadas ou com as pequenas lanças em suas mãos, apontando para algum lugar, como que tentando dizer que eles eram os soldadinhos, colocados ali, para proteger a praça.

A praça homenageava Licia Fábio nossa mentora desde o primeiro segundo, por isso na outra parede Bel criou um painel em mosaicos pintados em azul e branco, ilustrando o momento.
Inauguramos a Praça com pompa e circunstância na presença de amigos e imprensa.
O espaço ficou na memória de todos os que por lá passavam, Licia jantava algumas vezes na praça com o seu nome, tinha-se tornado o seu local predileto.
Com um novo espaço dentro do restaurante as opções para eventos tornavam-se melhores.
Aquela área só podia ser aberta ou para jantares com um numero certo de clientes ou para eventos que justificassem a deslocação de colaboradores agregados somente aquele espaço.
Muitos clientes queriam jantar ali, já que durante o dia o calor não permitia a permanência de ninguém e não havia qualquer cobertura, era a céu aberto e em dias de lua cheia, a beleza prevalecia.
Os garçons estavam instruídos a mostrar aos visitantes o novo espaço, servia como visita turística pelas obras vivas que Borba implementara, aproveitavam para tirar fotos e levar consigo de regresso aos seus lares.
A estética e a beleza misturavam-se, naquele pequeno espaço, de lazer gastronômico.
O templo expandia-se com outras mensagens vivas e atuantes...
Bendita seja a criatividade do ser humano, sem ela tudo seria obviamente chato e monótono, as experiências acumulam-se ao nosso redor transportando-nos para lugares imaginados.

Assessoria de Imprensa ajuda a gerar noticias a exp.: lançamento de um novo prato, visita de algum global ao restaurante, jantares promocionais.
Para conseguir-se a divulgação da marca, tem de se estar sempre a trabalhar nos bastidores, para que as novidades surjam e possam ser publicadas.
Um dos meus papeis era esse.
Articular com os nossos assessores de imprensa formas de divulgação do Restaurante Paraíso Tropical quer da gastronomia assim como da imagem do mestre e inovador da cozinha experimental da Bahia.
Com a preciosa ajuda da Via Press e com algumas nuances as coisas iam acontecendo... 
A nossa comunicabilidade existia com alguma freqüência e sempre havia alguma novidade diferenciada, como levar um artista da Globo a jantar no restaurante ou algum cantor de relevância nacional, que visitava Salvador.
Elaine Hazim queria falar comigo, surgiu uma boa nova; que boa nova seria! A produção do programa da Globo de - Ana Maria Braga – ia entrevistar Beto e fazer uma reportagem de como nasceu a sua culinária.
O primeiro objetivo estava atingido, preparávamos de acordo com o que tínhamos planeado a segunda investida na divulgação da imagem do Chef.
Não tivemos infelizmente tempo suficiente para fazê-lo.

Carla tinha em mente desenvolver um projeto pessoal, ligado á criação de uma grife de colares e pulseiras. Alguma coisa que a estimulasse, para além de ser proprietária de um Restaurante.
- Gostaria de fazer algo de diferente! Estive a conversar com as meninas e pensamos em criar uma linha de acessórios; o que achas?
- Se for do teu interesse acho bem, respondi.
- Queria ter outra ocupação para além do Restaurante e até aproveitar a movimentação do mesmo para desenvolver as minhas idéias.
Devido ao seu bom gosto com a moda e tudo o que dissesse respeito á mesma, Carla desenvolveu um projeto interessantíssimo de criação de acessórios para mulheres, que vinham exclusivamente da sua imaginação.
Foi para São Paulo durante um período de tempo, adquirir os materiais necessários á confecção dos seus colares e pulseiras.
Voltou entusiasmada com a idéia de lançamento da sua grife...
Passava dias, com as suas ajudantes, montando as pecas das suas arrojadas criações.
Colares e pulseiras compostos de pedras de várias tonalidades e tamanhos, esteticamente bem organizados e agrupados, faziam aos poucos a coleção a ser apresentada no espaço do Restaurante.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Vigésima Terceira Dose de Pílulas do Livro...

A resposta á minha idéia veio positiva, mas com uma pequena ressalva, só tinham verba para três outdoors.
Aceitamos a negociação far-se-ia um lançamento através de um Coktail no Paraíso com a imprensa e convidados em data oportuna.
Borba concordou e a minha agencia começou a tratar de todos os pormenores técnicos com os interessados.
Poucos dias passados, recebo um telefonema do responsável regional, alterando um pouco o que tinha sido acordado.

A verba tinha diminuído e só era possível ser criado um outdoor ao vivo.

Achei estranho aquela súbita mudança, comuniquei a Borba o sucedido, também não entendeu, mas mesmo assim como já tinha dado a sua palavra para o trabalho, concordou em continuar.
Segunda Feira pela manhã cedo, lá estava o andaime e a tela prontos para as pinceladas rápidas e instintivas de Bel Borba.

A tela ficava perto do Itaigara, num cruzamento de muito trânsito e era vê-lo em cima do andaime, dando forma sucessiva ao outdoor gigante pintado ao vivo e que tinha o nome de “Os Pecados Tropicais”.

As pessoas paravam nos seus carros, de dentro dos ônibus os passageiros diziam frases, algumas imperceptíveis, por vezes ouvia-se de lá do fundo da rua um grito: grande Bel Borba... Outros abriam os vidros das suas viaturas, e perguntavam o que era aquilo ali!

O impacto estava criado, a obra do artista em tela gigante, ficaria pelo menos quinze dias de exposição ao ar livre, para todos terem acesso.
Ia com Carla de carro quando olho para o meu lado direito, fiquei estupefato... Não acreditava, não era possível.
Existiam outros outdoors, não pintados ao vivo, com uma loja de roupa, que era igualmente cliente da agencia de publicidade que eu tinha chamado para o projeto. Tinha descoberto o porquê da mudança súbita e da falta de verba.   
A agencia tinha desviado o foco para outros clientes, que eram dela.
Aprendi mais uma lição... Fiquei em silêncio. Carla entendeu, não seria preciso explicar nada, tudo estava á vista e no lado direito da rua.

Em Abril fazíamos um ano de abertura do Rio Vermelho, estávamos a preparar uma confraternização.

Começaram a surgir alguns rumores que me deixaram apreensivo, talvez mal entendidos, ou então boatos que se transformavam em assuntos mais delicados.
Desde o inicio de todo o projeto, soube de pessoas chamadas de amigas do mestre, que faziam de tudo para deturpar o nosso relacionamento.
Nunca me indispus contra ninguém, nem mesmo ouvindo falar de coisas absurdas. Quase sempre apareciam noticias contraditórias de um lado e do outro. Que estranho parecia aquilo tudo.
Os taxistas traziam muitos clientes vindos dos hotéis, mas também muita noticia e algumas informações...

Respeitei e respeitarei sempre o homem, o profissional e o criador Beto.
Sempre que surgia alguma informação menos esclarecida, tanto eu como ele, arregaçávamos as mangas e tentávamos esclarecer... Era ótimo.
As informações cruzadas originavam a maioria das vezes um mal estar de ambas as partes...
Nunca tivemos nenhum desentendimento durante todo o processo profissional e pessoal. Conversávamos ás vezes acaloradamente, mas sempre dentro do respeito mútuo. Acho que o mestre sempre me respeitou da mesma forma que eu o respeitei.
O nosso dialogo sempre funcionou ao mesmo nível e á mesma distância.
Os problemas financeiros faziam alguma mossa séria no nosso relacionamento pessoal e profissional.
Chegado o inverno o movimento decaiu substancialmente tanto no Rio Vermelho, como no Cabula, estávamos todos nervosos, despesas para pagar e as receitas baixíssimas. Com o Rio vermelho aberto e ainda por cima inverno, o faturamento do Cabula derrapou. Ninguém ia para longe, muito menos chovendo. A beleza do Cabula acontecia durante o dia e com sol; para se observar a natureza, as arvores e os frutos.

Pode-se gostar muito da gastronomia, mas existem condicionalismos que limitam o deslocamento das pessoas.

As medidas teriam de ser enérgicas, decidimos limitar o quadro de pessoal, reduzir algumas pessoas e despesas e fazer um novo investimento, pois a área do pergolado era imprescindível para o bom funcionamento do Rio Vermelho.

A chuva não dava tréguas nos meses de Junho e Julho, seria necessário colocar-se um toldo que cobrisse toda a área do pergolado e onde os clientes, pudessem ficar.

Apesar dos orçamentos serem bastante caros, optamos por um toldo que abrisses e fechasse manualmente.
Colocamos o toldo, mas viemos a descobrir que não seria de maneira alguma a solução ideal, porque quando chovia fortemente, a área externa ficava totalmente alagada. Talvez no projeto inicial do restaurante, na reforma, devesses ter sido contemplado uma área externa totalmente fechada por vidros transparentes e portas e que pudesse ser aberta unicamente em alturas que não chovesse.
Estávamos há um ano abertos e aos poucos descobríamos que os clientes é que nos dão o sentido das falhas.
Perdemos imensa clientela, pela questão referenciada.


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Vigésima Segunda Dose de Pílulas do Livro...

O vício do mestre o cigarro conduziram a duas realidades, distintas, mas provocadas ambas pelo fumo.

Beto infelizmente sofreu um infarto em cinco de março desse ano e teve internado algumas semanas...
Deixei de fumar nesse mesmo dia, assim que vi que, mais tarde ou mais cedo poderia acontecer comigo...

Quando tiramos algumas ilações de coisas negativas e as transformamos em exemplos benéficos para nós, estamos a ser no mínimo inteligentes.

O mestre transformava tudo em brincadeira, mesmo as situações complexas se tornavam hilariantes.
Fez um cateterismo e colocou duas argolas nas artérias, a sua alimentação muito natural e o fato de não parar um minuto o ajudaram a ultrapassar este pequeno contratempo, segundo informação médica.
De médicos não gostava nem de ouvir falar, tem algumas mazelas que o incomodavam, mas ninguém consegue levá-lo a uma consulta médica. Um dia nem eu sei como, fui buscá-lo pela manhã ao Cabula e acedeu a ir a uma consulta com um Angioplasta... Milagre.

Naturalista por excelência leva a vida, como a vida o levasse...

Dias após o infarto, começou a querer fumar dentro do hospital, reclamava da comida que não tinha sabor, (era verdade, mas o estado de saúde exigia cuidados) conseguiu ninguém sabe comprar um cigarro por um preço exorbitante e fumá-lo, como se fosse pela primeira vez.
Carla não gostou quando soube da história, eu sorria, porque sabia que aquele homem vivia sempre no seu próprio limite, desafiando alguns paradigmas e conceitos pré-estabelecidos.

Se não fosse um desafiador com uma imaginação fértil e com um conhecimento agregado ao longo dos anos, nunca teria conseguido criar essa maravilhosa culinária experimental baiana.
Voltou a fumar passados algumas semanas, eu parei para sempre, pelo menos até hoje.

Alguns  amigos se juntavam ao final da tarde, para tomar um vinho e fumar um charuto perto da árvore bendita.
Reinava por vezes uma paz uma tranqüilidade naqueles finais de tarde sem chuva e com uma pequena brisa, que refrescava quem ali ficava.
Bel, Dudu, Tom, Rui, por vezes Ivan, quando estava em Salvador, Bruno, Licia, apareciam sempre que o trabalho permitia, para relaxar e jogar conversa fora, ou tratar de assuntos mais sérios.
O espaço mais parecia um SPA que convidava ao relaxamento.
Quem me quisesse encontrar, sabia que quase todos os dias eu me sentava por alguns minutos, naquele preciso lugar, olhando para o nada ou simplesmente pensando em coisa nenhuma.
Ter um restaurante já é bastante cansativo e trabalhoso, mas um Paraíso que movimentava tanta coisa, ainda se tornava mais difícil, então aqueles momentos eram sagrados.

As empresas procuravam-nos com propostas de parcerias, nem sempre vantajosas, para o nosso negócio.

Tínhamos participado da Casa Cor, com um espaço especialmente criado para nós junto ao mar, nos armazéns da Codeba, deu-nos alguma visibilidade e muito trabalho de logística, entramos em alguns eventos e não eram poucos, como parceiros, (sem usufruir de verba alguma) divulgando alguma culinária nossa, ou os nossos famosos sucos ou as nossas famosas Roskas, propunham-nos permutas que não eram do nosso interesse, todos os santos dias aparecia alguma coisa.
Bons negócios são raros, mas existem.

O Hipercard tinha um cartão super popular com pouca penetração nas classes mais favorecidas, o seu departamento de Marketing fez um estudo de mercado e chegou á conclusão que haveria necessidade de agregar algumas marcas de qualidade, como o Paraíso Tropical ao seu nome.
Para o efeito nos contatou, tentando sentir quais seriam as nossas necessidades prementes.
Foquei que no meu ponto de vista, brindes dentro do nosso espaço não agregariam nada de novo, pois levaria o cliente a pensar que era mais uma ação de divulgação como outras anteriormente feitas pela marca.
Perguntaram o que eu sugeria de novo.

Na realidade, se a marca quer adicionar novos elementos que valorizem e que em médio prazo o consumidor olhe para o cartão sem relutância de tê-lo, temos de valorizar a imagem do cartão de crédito.

Sugeri na mesa de reunião com o responsável e diretor regional, que se criassem sete outdoors espalhados pela cidade, onde o artista visual Bel Borba, pintasse ao vivo durante alguns dias intercalados, para criar um impacto na população de Salvador e na mídia.
Para o feito seriam colocadas estruturas em locais chaves, com uma tela em branco, a anunciar que Bel Borba estaria presente no dia tal.
A idéia foi prontamente aceite, pelos responsáveis do cartão Hipercard, só me pediram uns dias para terem o projeto aprovado pela administração em São Paulo.

Vim a conhecer depois, o Administrador e Presidente do Cartão, Ivo Vieitas, com quem tive uma ótima relação pessoal, tornou-se nosso cliente assíduo e mais que pareça estranho, vinha de São Paulo, propositadamente, só para comer o nosso famoso “Arroz de Polvo”.
Marcamos uma próxima reunião, já com a presença de Borba e com a minha agencia de publicidade que tinha criado a logomarca, que chamei para fazerem parte do projeto e ganharem também alguma notoriedade e verba.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Vigésima Primeira Dose de Pílulas do Livro...

Esse verão recebemos algumas personalidades do mundo desportivo, do meio artístico e cinéfilo mundial.
Eusébio da Silva Ferreira o mais importante jogador Português de futebol de todos os tempos, melhor jogador e marcador do Campeonato do Mundo de mil novecentos e sessenta e seis, realizado na Inglaterra em que Portugal treinado por um Brasileiro Otto Glória, se classificou em terceiro lugar, duas vezes Campeão Europeu de clubes pelo Benfica de Lisboa e atual Embaixador Vitalício da Seleção Portuguesa.
Costa Gravas um dos mais importantes e atuais realizadores de cinema da sua geração.
O Espanhol e mais mediático realizador de cinema Pedro Almodóvar.
O vencedor do Oscar e ator Espanhol Javier Bardem.
Quem nos dava a honra e apresentava a nossa culinária a tão ilustres personalidades, chama-se “Caetano Veloso”.
Caetano sempre que vinha a Salvador, passava pelo Rio Vermelho, para degustar alguns pratos da nossa culinária e beber o suco de Jambo, acompanhado de alguns amigos e da sua mulher Paula Lavigne.
Sempre discreto, ficava na parte de baixo da casa, na área externa ou então junto á amendoeira.
Avesso a fleches queria tranqüilidade e sossego, os garçons estavam habituados com a freqüência da casa e sabiam sempre como proceder nas situações mais delicadas.

Certa noite Caetano apareceu para jantar. O Maitre chamou-me eu estava no escritório.

- Sr. Ricardo, Caetano está na casa e quer falar consigo, subi as escadas, Caetano estava junto á árvore sagrada da casa com umas seis pessoas, reparei que alguém que o acompanhava me chamava à atenção. Quem era, eu conhecia aquele individuo, era estrangeiro e estava vestido com calças jeans e camisa azul.

A noite estava soberba, o ar circulava pelas flores e plantas que decoravam o restaurante, o céu estava claro e especialmente estrelado, as luzes em volta da amendoeira davam um ar de penumbra iluminada, Caetano explicava em inglês o que era o restaurante e que tipo de culinária se fazia ali, o indivíduo abanava ligeiramente a cabeça como que concordando com o que estava ouvindo, esperei que a conversa acabasse, estendi a mão cumprimentei-o, Ricardo queríamos jantar aqui perto da amendoeira podes colocar umas mesas, o restaurante estava cheio, ouvi uns cochichos, clientes olhavam para nós, não havia mesas junto á Amendoeira para jantar, servia de área de espera, mas Caetano solicitou queria um pouco de privacidade com os seus convidados.
Chamei o Maitre meu xará e colocamos os lugares para todos se sentarem confortavelmente.
Após alguns minutos lembrei-me quem seria aquele individuo.

O ator Norte Americano “Matt Dilon”. Não queria acreditar que Matt Dilon estava em Salvador e logo ali no Paraíso Tropical.
Chamei os garçons e recomendei que só um, os servisse para evitar incômodos e que evitassem que alguém se aproximasse, para tirar fotos.
O jantar decorreu otimamente bem e prolongou-se por bastante tempo.
Estavam no restaurante dois jornalistas da Folha de São Paulo, que assim que Caetano chegou, chamaram-me para confirmar quem era o homem vestido de camisa azul.
No final da refeição pedi a Caetano, se podia tirar umas fotos com ele e Matt Dilon, disse que sim, mas só com uma condição, que eu não publicasse as fotos em nenhum órgão de comunicação social, já que Matt tinha pedido a maior descrição na sua passagem por Salvador.
Dia seguinte pela manhã comecei a receber várias chamadas telefônicas, tanto para o meu aparelho móvel, como para o restaurante, questionando se eu me importava de entregar as fotos para publicação em algumas revistas de âmbito nacional.
Confirmei que possuía as fotos, mas por motivos de compromisso e de palavra com Caetano Veloso, não poderia fazê-lo.
As fotos ficaram expostas junto ás outras no nosso painel de clientes ilustres que visitavam o nosso templo gastronômico.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Vigésima Dose de Pílulas do Livro...

Aconteciam quase todos os dias telefonemas, para acedermos a entrevistas e reportagens sobre a nossa culinária experimental.
A Televisão Bandeirantes em São Paulo contatou-nos no sentido de fazerem uma reportagem, mostrando como nos tínhamos conhecido. Queriam divulgar um pouco da nossa história de vida.
Em pleno verão seria ótimo para o negócio. Queriam ir a nossa casa, para conhecerem mais de nós.
A entrevista decorreu com a maior descontração, quem conduziu a entrevista e conversou conosco foi à artista e cantora Baiana Gilmelândia; super divertida e simpática.
O Discovery Chanel em espanhol veio a Salvador conhecer os restaurantes do Cabula e do Rio Vermelho e fazer algumas filmagens nos nossos espaços, aproveitando o ensejo para conversar e gravar.

Nesse verão de dois mil e cinco, tudo funcionava em prol do nosso negócio: Os órgãos de comunicação social a tudo o custo queriam saber quais as novidades que aconteciam no nosso espaço.
A assessoria de imprensa trabalhava a todo o gás, para a confirmação da excelência da gastronomia do mestre Beto e da sua imagem de Grande Chef da culinária experimental Baiana.

Fomos convidados para um almoço na casa que Filomena tinha arrendado durante a sua permanência como Cônsul de Portugal. Ficava no Morro da Paciência no Rio Vermelho, a vista era deslumbrante, pois tinha sido construída de frente para aquele mar imenso e infinito.
Diversas pessoas confraternizavam naquela tarde ensolarada de verão.

Rubens Gershman fazia parte desse grupo tão especial.
Fui apresentado ao grande artista visual Brasileiro. Viveu nos tempos da ditadura em Nova York e a sua casa tinha abrigado muitos dos exilados políticos de então.
No dia seguinte fomos para uma feijoada, das muitas que aconteciam um pouco por toda a cidade e á noite convidei-o para conhecer o Paraíso Tropical.
A sua sensibilidade e observância em relação ao que nos rodeava, chamou-me a atenção. Despediu-se de mim com um abraço caloroso.

Já não se encontra neste planeta, partiu para uma viagem mais longa...

Encontrar-nos-emos um dia.

Desde pequeno e muito novo o que mais me interessava eram as histórias que a senhora minha mãe e a senhora minha avó materna me contavam.
Fui crescendo e as conversas se tornaram mais amplas.

Para isso contribuiu um senhor que se chama Roldão e que é o meu progenitor.

Com ele aprendi a conhecer e a respeitar o saber. A ouvir e ser ouvido a falar e a escutar o que aqueles que sabiam mais, tinham para dizer...
Longas conversas com esse sábio senhor meu pai.
Homem de poucas palavras, poucas falas, mas de grande saber intelectual.
Ser de grande cultura e de imensa espiritualidade superior.
Digo sempre, que o senhor meu pai, já não retornará para evoluir após esta encarnação.

Aquela casa sempre teve um quê de mágica.

Sentado na varanda estava um senhor aparentando longa vida de conhecimento, ao seu lado esquerdo a sua lindíssima esposa.
Normalmente e sempre que podia, passava pelas mesas, perguntando se estava tudo bem, ou se precisavam algo.
Nessas minhas triangulações deparei com esse ser de olhar profundo e meigo com uma leve deficiência na postura dos ombros e cabeça.
Indaguei se estava tudo ótimo, respondeu que sim e sentindo o meu sotaque de Português de Portugal afirmou: você é Alfacinha! Mais ou menos, respondi.
Cresci em Lisboa e vivi lá desde mil novecentos e setenta e cinco até aos meus trinta e sete anos de idade, mas nasci em Angola na cidade do Lobito. Como soube que eu era Lisboeta? Pelo sotaque, respondeu aquele homem de olhar inteligente e perspicaz.

À hora era de almoço, num domingo inicio da tarde.

Quem era aquele senhor que pelo sotaque, sabia que eu tinha absorvido a forma rápida e aberta de falar dos Lisboetas.

Convidou-me para sentar na sua mesa.
Sebastião Nery era o seu nome.
Quem alguma vez teve a oportunidade de conversar com este homem simples, mas de um conhecimento doutrinário da vida, sabe a que me refiro.
Começamos a conversar e as palavras saiam dele naturalmente sem esforço algum de memória.
A sua linguagem é acessível e simples, conversa, como quem conta levemente os números de um a dez.

A percepção do seu discurso é leve e fácil...

Um dos maiores e mais respeitados intelectuais brasileiros, Jornalista, Político, Escritor, Baiano de nascimento, lutador antifascista, de formação católica e teológica, enfim uma verdadeira enciclopédia de conhecimento vivo. E eu estava ali sentado e ouvindo.

Para mim aqueles momentos de aprendizagem lembravam as dissertações do senhor meu pai.

Sebastião Nery sabia tudo sobre a história recente e menos recente de Portugal. Amigo de várias personalidades portuguesas de nomeada, Mário Soares que foi Presidente da Internacional Socialista, Primeiro Ministro e Presidente da República de Portugal, Álvaro Cunhal durante muitos anos Presidente do Bureau Político do PCP e um dos grandes lutadores antifascistas, José Saramago escritor de renome mundial e Prêmio Nobel da Literatura.
Conhecia todas as personalidades que fizeram a história nos últimos quarenta anos neste planeta e tinha também participado de algumas mudanças que aconteceram por esse mundo afora.

Para mim era uma honra...

Eu tentava emitir a minha opinião sobre alguns assuntos, com muito cuidado é claro, para não parecer presunçoso, até porque á minha frente estava um verdadeiro “Magíster”.
A prosa foi acontecendo naturalmente e as horas foram passando.
Por vezes concordava comigo e levava o meu raciocínio para outras paragens. Sebastião Nery tem histórias incríveis que fazem parte da vivencia de muitos indivíduos.

O pai de Bruno Nunes foi Deputado Federal e era homem de muita coragem e determinação.
No meio da ditadura Sebastião Nery estava a ser perseguido pela policia por toda a Bahia, na tentativa de o prenderem. Estava escondido e fugido há alguns dias.
Paulo Nunes soube que o amigo precisava de ajuda e arriscando a sua própria liberdade, prontificou-se a levá-lo no seu carro, durante horas, até Minas Gerais, onde possivelmente poderia escapar de ser preso.
Contava esta e outras histórias mostrando um agradecimento a quem o tinha ajudado a chegar até ali.

Os amigos nunca se devem esquecer, dizia... Devemos honrá-los.

Aquele domingo tinha passado já se fazia noite, como o tempo fluiu quando as palavras são soltas naturalmente sem preconceitos e não tínhamos a percepção.

Estivemos juntos mais algumas vezes, mas aquela tarde ficará guardada na magia do templo da Rua Feira de Santana.